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Um breve olhar sobre a poesia brasileira contemporânea

http://www.revistapessoa.com/2015/03/um-breve-olhar-sobre-a-poesia-brasileira-contemporanea/

John Ashbery: “No tengo ni idea de qué habla mi poesía”

http://www.elcultural.es/revista/letras/John-Ashbery-No-tengo-ni-idea-de-que-habla-mi-poesia/35357

Umberto Eco: “A Internet pode tomar o lugar do mau jornalismo”

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/26/cultura/1427393303_512601.html

Sobre poesia, ainda: Heitor Ferraz Mello

Heitor

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Não acho que a hiperexposição das redes sociais (minha pergunta: por que sempre no plural, quando temos apenas uma rede social, e todas as outras giram em torno dessa, que as absorve, tornando uma espécie de via única, terrivelmente única) desloque a poesia, e a obrigue a procurar outras coisas para fazer. A poesia, ou a boa poesia, antenada a tudo que se passa a sua volta, deve procurar, sim, os antídotos para não se deixar engolir pela hiperexposição da rede social única, que tende a zero. Desde que a poesia se instalou numa montanha russa, como diria Nicanor Parra, parece-me que seu lugar passou a ser o de hiperexpor a hiperexposição, como se a virasse e revirasse do avesso; o lado de fora, o lado de dentro da camiseta e da calça jeans, com a marca do suor, do cheiro ruim da pele que se acumula e envelhece, dos gases que ficam retidos nos cós de calças e camisas. Mas a poesia também tem todo direito de se confundir com a hiperexposição da rede social, bem como o de se distinguir dela; isso vai depender do poeta, do seu desejo. Nenhuma invenção tecnológica foi um problema para a poesia. Ela continuou se reinventando. O diário, o jornal, o rádio, a televisão, a internet só trouxeram mais material para a poesia, e para a reflexão do poeta. Ele pode se deixar engolir: lembra daqueles poemas horríveis do Armando Nogueira, na voz bíblica de Cid Moreira, na televisão, nos tempos da ditadura? Era poesia. Piegas, mas era poesia para aquele meio, para uma projeção do que seria seu público, que ele e tantos outros buscavam idiotizar cada vez mais. Já o nosso Bandeira tira até hoje arrepios da plateia com seu “Poema tirado de uma notícia de jornal”. De uma câmera de segurança, num banco, o Sebastião Uchoa Leite se viu sendo trapaceado.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Drummond, leitor de Mallarmé, também escreveu aqueles versos estupendos: “Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível./ Nada sobrou para nós senão o cotidiano / que avilta, deprime”. Mas é desta sobra que a poesia se alimenta, engorda, cresce e pode seguir para o abate cotidiano. Esse talvez seja o lugar da poesia do mundo: o abate do cotidiano. Ela pode até tentar resistir, e como resiste a danada, mas diante do porrete ela acaba sucumbindo. Cai como um boi zonzo e morto. Ela pode criar novos roteiros; ou apenas repeti-los, em sua escavação do mesmo; mas, acho, precisa ter consciência do abate. E aqui, sim, a rede social cumpre um papel importante: o de agilizar o abate. Torná-lo talvez menos doloroso, já que pulverizado, banalizado, como tantas coisas sérias na rede social.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Essa é daquelas frases que ganham hiperexposição e se tornam rasas e sem sentido. Mais um mérito das redes, tornar o que tinha força, no seu contexto, em frase de efeito com pouco efeito, apenas jogo de cena, piscadela de olhos, picardia poética. Pobre Pessoa. Nessas horas, seus ossos chacoalham mais que ônibus na pirambeira. Não tenho como responder, estando fora do poema de Pessoa. Mas talvez, arriscando, ele estivesse no mesmo embate drummondiano dos “mesmos sem roteiro tristes périplos”. Escavando. E escavar é deparar-se consigo mesmo num espelho invertido, ou um espelho distorcido. É uma outra imagem que surge, que assusta, que espanta, que aterroriza. É a máscara que rui. E corrói. Se a poesia é isso? Também é. Muitas vezes o é, mas num campo amplo e arrombado.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Bonito. Meus poemas não têm fome, mas comem de tudo. Ou quase tudo. Pois sei que há um filtro que impede meu poema de comer de tudo – “Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. É a limitação da poesia. É a limitação da língua, da qual somos mestres e escravos. Servidão e poder, diria Barthes. E lidar com a língua é coisa do diabo. Um verdadeiro inferno, cheio de esparrelas, cheio de vãos, desvãos, uma carga ideológica cristalizada, pedra que não quebra, haja água, osso duro de roer. Mas fracasso na resposta. Confesso: meu poema não consegue comer de tudo, como disse antes. Meu poema passa fome. Acho que a poesia sempre passa fome. Se não passar fome, se ficar satisfeita, ela definha. Ou é engolida. Mas talvez já tenha sido.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Todo poema que gosto faz muito sentido para mim na hora que leio. São tantos os poemas que me parecem fazer sentido. Principalmente os poemas que não fazem sentido (todo poema faz sentido). Admiro os poetas que escrevem poemas que não fazem sentido (todo poema faz sentido). Admiro os poetas que não fazem sentido (todo poeta faz sentido). Os poetas que mergulham de lugares que jamais conseguirei mergulhar. Pularam de pedras muito altas. Não tiveram medo de se arrebentar antes de tocar a superfície da água. Não tiveram medo de se arrebentar ao chegar à superfície da água. E principalmente, ao mergulharem, criaram tantas ondas em volta, tantos círculos, que me perco nesses círculos, seguindo-os até onde consigo, até onde se perde todo sentido.

Vou escolher UM. Mas poderiam ser MUITOS OUTROS.

disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos

e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque

nada se reparte: ou se devora tudo

ou não se toca em nada,

morre-se mil vezes de uma só morte ou

uma só vez das mortes todas juntas:

só colaboro na minha morte:

e eles entenderam tudo, e pensaram: que este não colabore nunca,

que o demónio o leve, e foram-se,

e eu fiquei contente de nada e de ninguém,

e vim logo escrever este, o mais curto possível, e depressa, e

            [vazio poema de sentido e de endereço e de razão deveras,

só porque sim, isto é: só porque não agora

Herberto Helder, em Servidões, Assírio & Alvim, 2013.

Sobre poesia, ainda: Paulo Ferraz

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Infelizmente, por enquanto, não tenho percebido nenhuma mudança significativa na produção poética que pudesse ser atribuída ao uso mais frequente (ou seria uso constante?) das redes sociais. Creio que não tanto por nos expormos cruamente na internet, mas talvez porque ainda não soubemos operar de modo crítico com a velocidade com que tudo se sobrepõe, com que tudo se amalgama, comprimindo o tempo a ponto de não nos restar sequer um segundo para refletirmos sobre o caminho percorrido pela informação que passa por nós, digo passa pois somos ao mesmo tempo consumidores e difusores de informação, não é algo estranho a nós, somos parte dela. Porém, nessa existência virtual temos produzido mais ruído que comunicação. E se mal efetivamos a comunicação entre nós, o que dizer de poesia? Nesse ambiente os poemas ocupam o mesmo espaço das fotografias e filmes domésticos, dos registros de viagem, das opiniões políticas, das escavações do passado íntimo, das anotações corriqueiras, das anedotas e histórias pitorescas, tudo circula nesse mesmo suporte que possui um alcance inimaginável, mas programado para ter uma fugacidade imediata, o que quase sempre anula a importância do alcance, daí que aparentemente quase nada se fixa. Está destinado a todos e a ninguém.

Um detalhe que me incomoda, na rede os poemas estão sujeitos ao mesmo tipo de apreciação por vezes afetiva demais dos leitores/amigos/seguidores com que dispensamos a qualquer outro assunto dos enumerados acima. Tudo se reduz ou a silêncio ou a um gosto/não gosto. O paradoxal disso tudo é que a poesia vive do outro, ganha densidade ao romper a esfera privada do poeta, por isso ignorar essa hiperrealidade não deve ser o melhor caminho, em algum momento alguém saberá extrair dessas relações que hoje nos parecem insignificantes, supérfluas e vazias, dessa sensação de ubiquidade, uma poética que represente os conflitos, as paixões, as ansiedades desse espírito, mais ou menos como Baudelaire percebeu no século XIX que a multidão era uma manifestação da modernidade. Mas enquanto ele via na arte um parte eterna e outra fugaz, talvez nós estejamos cada vez destinados a apenas uma das metades, justamente a que não se deixar facilmente captar. Por ora o que vejo é o poema pensado para o papel circulando nas telas, são os mesmos recursos, são as mesmas abordagens, são os mesmos mecanismos de expressão empregados há séculos, desde pelo menos quando a poesia deixou de ser declamada/cantada em praça pública para ser escrita e lida no conforto da biblioteca.

 2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A poesia se repete e se nega desde sempre, todo poema que se preze contém em si uma poética, uma resposta e uma proposta para a história e os dilemas da poesia, trate do tema que trate, tenha a forma que tenha, circule no meio que circule. Mais, todo poema é uma explicação/interpretação/construção do que chamamos realidade, portanto sempre terá seu lugar. Posso parecer idealista, mas acredito que todos temos uma necessidade de fabular o que nos cerca; a ciência, a filosofia e a religião não são suficientes para certos anseios. Não vivemos sem poetizar (e aqui não falo necessariamente de poema) nossa existência.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

A poesia continua a ser um ato de criação, de invenção, de pôr no mundo um objeto de palavras, um objeto que nos representa. E representar um conjunto dinâmico de seres tão complexos, tão ricos e contraditórios exige ir além do senso comum do que achamos que somos. O fingimento algumas vezes expande o conhecimento que temos de nós ao simplesmente retirar algumas camadas que cobrem nossa visão do mundo (esse mundo feito mais de linguagem e ideias que de coisas).

 4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Não sei se como autoengano, mas encaro a poesia como uma atividade que se faz em muitas etapas, entre as quais escrever e publicar são duas delas, importantíssimas, mas duas etapas entre outras, que muitas vezes não se efetivam. O único problema que se dá quando o poesia não ganha forma de poema é que não rompemos aquela barreira do individual para o coletivo, seguimos convivendo com nossos poemas sem escrevê-los. A poesia, a fazemos todos os dias, somos poetas (pois criamos) quando lemos, quando não nos deixamos anestesiar ao caminhar pelas ruas, quando ao conversar nos comovemos com os sons da fala, quando assistimos a um filme ou quando vemos um quadro, quando nos recordamos do passado ou de uma paisagem ou de um amigo, quando imaginamos outros mundos para além deste. Foi o que disse acima sobre a necessidade de poetizar nossa vida, precisamos desse olhar que desestabiliza, desse olhar que nos tira o chão para seguir acreditando em nós mesmos. Por isso, creio que meus poemas se alimentaram de diálogos, verbais e não verbais.

 5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê? 

“Vermeer” da Wislawa Szymborska, que apareceu em um livro de 2009, dentro dessa perspectiva de reconfigurar nossa percepção do real a partir da poesia, faz todo sentido, até por que se não fizesse é porque seu vaticínio teria finalmente se completado.

VERMEER

Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,

em quietude pintada e concentração,

dia após dia, não verter o leite

do jarro para a vasilha,

o Mundo não merece

o fim do mundo.

(trad. Teresa Swiatkiewicz)

Sobre poesia, ainda: Carlos Felipe Moisés

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1. A hiperexposição de tudo o que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

No enredo proposto, “hiperexposição” é o vilão da história, protagonista, mas haverá enredos em que não seja sequer figurante, podendo até nem se manifestar. No primeiro caso, a tirania expositiva comanda o espetáculo e obriga a poesia ou a dançar conforme a música ou a sair de cena. No segundo, nada obriga a poesia a nada: o enredo terá o alcance que o poeta lhe der, para além do que a exposição, a posteriori, lhe conferisse. Isso só ganha contornos dramáticos, ou tragicômicos, quando a poesia incorpora a hiperexposição aos seus propósitos, e a obrigação vira objeto de desejo, cobiçosamente buscado.

Se estiver plugado o tempo todo, bom para você, é exposição garantida; se não estiver, você não existe. Se isso vale para tudo quanto você imagina, por que não valerá para a poesia? Logo, seja porque se sente obrigado, seja porque o assumiu de bom grado, hiperexponha-se! Só não espere que o tempo e o trabalho gastos para conceber o seu enredo sejam proporcionais ao que seus leitores lhe dedicarão. Hipererxposição pede objetos que possam ser percebidos instantaneamente e logo descartados, para que tudo recomece do zero no dia seguinte. Ou no instante seguinte. (Mas, se isso fosse verdade absoluta, as perguntas teriam no máximo 140 caracteres e minhas respostas seriam do mesmo tamanho.) É por isso que, nas redes sociais, a poesia passa despercebida. Ela pode estar lá, ou ontem estava, hoje já não está, mas tanto faz: ninguém presta atenção, só passa os olhos. É que prestar atenção toma tempo, dá algum trabalho. Se ninguém tem tempo nem quer ter o trabalho de se concentrar em nada, por que a poesia havia de ser exceção? Se a meta é a hiperexposição, pensar, sentir e imaginar só atrapalham.

Afinal, nada de novo. Você tem notícia de algum momento na história em que o sistema, as coisas, o mundo fossem favoráveis à poesia? Poesia sempre esteve na contramão. Se não estiver, será outra coisa. Por que alimentar ilusões? É só resistir, com raiva ou com humor, até onde der, lançando mão de todas as armas à sua disposição, inclusive as proporcionadas pelas redes sociais.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

O lugar da poesia? Poesia é aquele círculo infinito, cujo centro está em todas as partes e cuja circunferência não está em parte alguma. Seu lugar é qualquer lugar. Mas, ao contrário da tirania hiperexpositiva, ela não obriga ninguém a fazer nada que não queira. Concentrar-se nela, prestar atenção, dedicar-lhe algum tempo e trabalho é livre escolha do leitor. Não há nada que a poesia possa fazer para forçá-lo a isso. O círculo infinito é o reino da liberdade. Poesia é só um convite e um desafio. Onde já se viu obrigar alguém a ser livre? Quando todos estiverem rendidos ao fetiche da hiperexposição, felizes da vida com sua condição de escravos, a poesia continuará a repetir “os mesmos sem roteiro tristes périplos”. Mas Drummond sabia: “os mesmos” são sempre outros; “sem roteiro” quer dizer livre para perseguir todos os roteiros; e os périplos são tristes não pela poesia, mas porque dão a medida da desumanização a que o bicho homem se condena, alegre e satisfeito, hiperexposto, reduzido à condição de coisa entre coisas. A poesia lida com a condição humana em seu mais alto nível. Mas de nada serve o poeta saber disso e dizê-lo em seus poemas: é preciso que todos os homens o ouçam e o endossem. Liberdade quer dizer solidariedade, via de mão dupla.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um fingimento deveras?

Parece que sim, ontem, hoje, sempre, desde que se entenda: “fingimento” é a cristalização daquele tempo ficcional que contrasta com o “tempo real” das redes sociais, dos blogs etc. Se este for de fato “real”, não haverá fantasia que o supere. O poeta finge tão completamente para lembrar (aviso, desafio) que a realidade é múltipla, não pode ser uma só, muito menos essa que aí está, vazia de si mesma. Fingir significa duvidar, sempre, e conviver com a insegurança do desconhecido; já mergulhar de cabeça na hiperexposição desse tempo supostamente “real” equivale à ilusão de ter certezas inabaláveis, jamais duvidar de coisa alguma e acreditar que tudo é conhecido, ou que nada é cognoscível. Dá no mesmo. O preço a pagar pela “segurança” tão gostosamente conquistada é barato: é só abdicar de pensar, sentir e imaginar – o que, para a poesia, barato ou caro, seria uma contradictio in terminis.

4. “Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam: / Nem tudo o que penso agora / Posso dizer por papel e tinta.” Do que seus poemas têm fome?

Se não pode dizer com papel e tinta, diga de outra forma; se não pode dizer isso, diga outra coisa, ou não diga nada. Mas por que só “agora”? Se as “novas” perturbações lhe dão fome, isso por acaso significa que a provocada pelas mais antigas já foi devidamente saciada? Você nunca pensou nada parecido com o que pensa agora? Perturbações são, sem dúvida, um bom alimento para a poesia, mas isso independe de elas serem velhas ou novas. O problema, se houver, está na sua fome demasiado seletiva e unilateral. Os poemas têm fome de leitores e, por apetitosos que sejam, não podem fazer nada se estes partirem para uma dieta radical. Claro que é preciso dar de comer ao poema, mas isso não deve ser motivo de preocupação: a fome dos poemas é pantagruélica. Mas é mais preciso ainda dar de comer ao leitor anoréxico, faminto, sem o saber, do alimento que nunca experimentou.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Um só? Mas eu teria dezenas, centenas. Uns acabaram de ser escritos, outros foram escritos há muito tempo, e todos me parecem fazer todo o sentido, hoje. Sá de Miranda: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo. / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Faz alguma diferença isso ter sido pensado, sentido e imaginado quinhentos anos atrás? Não é de mim e de você que ele fala? Não é um poema sobre a armadilha do individualismo, apostasiado pela hiperexposição que, hoje, nos assola? Camões: “Os bons vi sempre passar / No mundo graves tormentos, / E para mais me espantar / Os maus vi sempre nadar / Em mar de contentamentos. / Cuidando alcançar assim / O bem tão mal ordenado, / Fui mau, mas fui castigado. / Assim que, só pera mim / Anda o mundo concertado”. De que mundo fala o poeta, o dele ou o nosso? Drummond: “Viver-não, viver-sem, como viver / sem conviver, na praça de convites?”. Não é uma boa definição da rede em que, hoje, plugados vinte e quatro horas por dia, hiperexpostos, alegremente confraternizamos? Manuel de Barros: “Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema / enquanto vida houver. / Ninguém é pai de um poema sem morrer”. Isso faz ou não faz todo o sentido, especialmente hoje? Para isso, não é preciso ser atual, não é preciso dizer o que nunca foi dito.

Poemas fazem sentido quando são portadores de valor, reconhecido como tal. Aí está o problema: valor. No reino encantado da hiperexposição, não há como julgar; “valor” vem a ser um falso problema. Se tudo existe para ser exposto e descartado em seguida, tudo se iguala, todas as coisas valem a mesma coisa e nada faz sentido. “Não há como julgar” quer dizer: não há como afirmar que este poema é bom, aquele não. Mas, como não somos capazes de lidar com poesia sem atentar no valor que ela representa, continuamos afirmando: este poema é bom, aquele não é, para mim. E todos sabem que, para alguém mais, o juízo poderá inverter-se, e isso não fará a menor diferença. Poema bom é poema bom, outros não o serão, embora isso varie de leitor para leitor. Você alguma vez se dispôs a escrever um mau poema?

Felizes são os franceses, que cultivam provérbios deliciosos como: “Le beau pour le crapaud c’est sa crapaude” (O belo para o sapo é sua sapa; mas a melhor tradução seria: Quem ama o feio, bonito lhe parece). Mas isso não quer dizer que, para ser bela, toda sapa precise de um sapo que a venere. Se as sapas forem belas, isso será reconhecido por qualquer um. A hiperexposição, porém, impede que cheguemos lá. Preferimos assumir que cada um fique com a sua sapa, ainda que a do vizinho não seja de jogar fora.

A relatividade dos juízos não quer dizer vale-tudo. De um lado, temos o julgamento de valor, sempre pessoal, acompanhado de um arrazoado mínimo, uma argumentação convincente, um critério que o justifique; de outro, a mera opinião, escolha arbitrária, baseada no direito que cada um tem de gostar do que bem entenda (privilégio da saparia): nenhum critério, nenhum argumento, nenhum arrazoado. A hiperexposição desencoraja e inibe o primeiro, apostando todas as fichas no segundo.

Mas a relatividade tem limite. Se você disser quais são, na sua opinião, os dez melhores poetas brasileiros do século XX, e eu fizer o mesmo, sou capaz de apostar que pelo menos cinco nomes apareceriam nas duas listas. Poemas que fazem todo o sentido, hoje, são os bons poemas, de qualquer tempo, e “bons poemas” são os que contam com o nosso consenso, desde que se trate de um honesto julgamento de valor e não da mera arbitrariedade que leva a julgar… sem julgar. A hiperexposição nos induz a ignorá-lo, empurrando esse consenso para o Dia de São Nunca. Insinuar que nada faz sentido dá bem menos trabalho do que buscar o sentido que cada poema deve ter.

Sobre poesia, ainda: Adriano Scandolara

Scandolara

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Acredito que a hiperexposição online de tudo que se pensa/sente/imagina não entre em competição com o poema, ou pelo menos com a ideia que eu tenho de poesia (especialmente de poesia hoje) como produção de um artefato de linguagem, capaz de fazer coisas em vez de meramente significar, em oposição à simples expressão, que é o grande motor das redes sociais, o imperativo do “expresse a sua individualidade”, “mostre como você é especial” (por mais que a pessoa hipotética em questão não saiba fazer absolutamente nada de especial). Por outro lado, se isso não dá fim à coisa, é preciso lembrar que toda inovação que venha a trazer mudanças à estrutura da sociedade – como foi, com graus variados de impacto, a mudança do nomadismo para o sedentarismo, a fundação das cidades, o advento, aperfeiçoamento e vulgarização da escrita, a invenção da imprensa, a revolução industrial, o desenvolvimento do capitalismo, etc – vai causar mudanças no modo como se faz poesia, mudanças que vão muito além do “tem carros na rua, agora o poema tem que falar de carros também”.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Se o nosso lugar é esse não ter lugar (nenhuma novidade dizer isso, mas seria bom achar outros jeitos de fazê-lo, porque a esta altura meio que todo mundo já cansou da expressão leminskiana do “inutensílio”), então está ótimo, grandes poemas foram escritos desde que as coisas passaram a ser assim. Daí que os périplos não são nunca os mesmos (a repetição é para as coisas que têm seu lugar definido, afinal), nem muito menos tristes ou em vão, porque esse esforço de se inventar o próprio roteiro acaba sendo produtivo e uma fonte de alegria ou de sentido ou chame-se isso lá do que for. Para resumir: se fosse fácil não teria graça.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

O que eu gosto desses versos do Pessoa é como ele expõe a questão do modo indireto de produzir significado na poesia. Na prática, quase tudo nesta vida que envolva algum tipo de comunicação entre pessoas acaba sendo fingimento em algum grau (se é assim agora, neste momento histórico em particular, ou se sempre foi, aí já é difícil dizer), mesmo, ou pior, especialmente aquilo que se apresenta como sincero ou ingênuo, que é um belo disfarce para o cinismo mais cretino (propagandas de banco são sempre exemplares nisso). Aí então podemos ver o poeta como fingidor, mas, como todo mundo é, o sentido de fingidor acaba sendo deslocado, o que faz com que, sendo o poeta o fingidor que finge uma dor real, ele acaba não sendo. Aí se dizemos que ele é um fingidor ou não é algo para se deixar no ar, tipo o famoso pato-coelho (pois é, todo esse malabarismo para deixar a pergunta sem resposta).

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

É meio estranho falar dos próprios poemas, né?, mas, se tem algo por trás do que eu escrevo, uma fome, acho que seria uma fome de contato humano, aquela coisa (talvez meio bocó mesmo) de você ler e o poema entrar em ressonância contigo, dissipando em alguma medida aquela sensação de que nada faz sentido neste mundo (ainda que paradoxalmente os poemas em si não sejam também nenhum tipo de tentativa de dar um sentido).

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

O poema que eu gostaria de indicar (e foi bem torturante selecionar um só, diga-se de passagem) é um da poeta israelense Dahlia Ravikovitch (1936 – 2005), que se chama “Orgulho” (Gevah, no original em hebraico), que traduzi a partir da tradução inglesa de Ariel e Hana Bloch. De todos os poemas que me passaram pela mente aqui para responder a essa pergunta, esse foi um dos que senti, ao reler agora, reter o mesmo impacto (sobretudo nos versos finais) de quando o li pela primeira vez, em 2013.

Orgulho

Até as rochas se partem, eu te digo,

e não é pela idade.

Tantos anos deitadas de costas ao calor e ao frio,

tantos anos

que quase se cria a ilusão de tranquilidade.

Não se movem, escondendo as rachaduras.

Uma forma de orgulho.

Os anos as passam enquanto aguardam.

Quem quer que venha arrebentá-las

ainda não veio.

E assim floresce o musgo, a alga chicoteia,

o mar rebenta e volta –

e ainda parecem imóveis.

Até que uma foca venha se esfregar contra as rochas, venha e vá.

E de repente na rocha surge uma ferida aberta.

Eu te disse, é uma surpresa quando as rochas se partem.

As pessoas, mais ainda.

***

É um poema doloroso, porque é profundamente empático, ao mesmo tempo em que deixa praticamente tudo subentendido: você não consegue não imaginar uma cena humana muito real por trás que possa ter levado o eu-lírico a chegar a essa imagem final para uma pessoa em colapso. Considerando como hoje parecemos sofrer de uma falta persistente e quase patológica de empatia, um poema desses, vindo de onde vem, ainda por cima, para mim faz todo o sentido.

Sobre poesia, ainda: Guilherme Gontijo Flores

Guilherme

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

em tempo real – seja lá o que isso for – ou pelo menos numa temporalização acelerada de tudo, lendo um livro, ouvindo música, conversando online & dirigindo ao mesmo tempo, ou simplesmente consumindo & oferecendo opiniões o tempo inteiro (o que parece ser a principal função das redes sociais), tudo isso me parece sugerir um desejo de existir, de confirmar que estamos todos aqui, em fotos, vídeos, sons, embates; & em muitos. poesia acontece em outro tempo, certamente; mas também quer confirmar uma existência, ou pelo menos fundá-la, por isso tende sempre a se confundir, quer dizer, ela também, num tempo desses, deverá ser hiperexposição, nem que seja por fim como confronto ou negação desse processo. para ser mais preciso: a poesia, como linguagem, nunca vai se separar com clareza do mundo, ainda que ela possa sempre apontar — & desejo muito essa poesia que aponte — para outras possibilidades: ela se dá por dentro.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

não. o mapa pode até ser parecido, mas o périplo não será igual. & nada, nada, absolutamente nada será em vão, mesmo no cerne do fracasso. assim, o lugar da poesia, que — claro — variou, varia, variará, tende a ser sempre numa espécie de entreposto entre os lugares comuns da vida cotidiana & aquela potência de invenção ainda ignorada, ou esquecida há muito. cada cartografia delimita &, ainda assim, abre esses novos lugares, exclui a poesia do centro (embora, sim, ela já tenha em alguns momentos & lugares ocupado esse centro), para em seguida dar-lhe uma posição estratégica na periferia. eu fico muito satisfeito em ocupar um ponto periférico, porque da margem é que se aponta fissuras ou aléns.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

por que não? mesmo aquilo que nós poderíamos chamar de expressão sincera, ou autobiográfica, do poeta precisa passar por aquele filtro — pessoal ou não, vai acontecer nem que seja entre os leitores — de sua relevância para um público maior. esse filtro é a condição de que toda linguagem acontece fora da abstração subjetiva, então a própria construção do poema precisa incorporar esse lugar do outro com quem inevitavelmente dialoga: fingo, do latim “forjar”, “fazer” “moldar”, não dá apenas na nossa “ficção” como fato falso; fingir é assumir o outro no próprio discurso, é condição de qualquer poesia, porque não existe canto sozinho.
mas, se fosse para analisar o trecho do pessoa, eu apontaria para o jogo ente fingimento & deveras, fingir deveras deveria ser — & pessoa foi mestre nisso — uma capacidade de fundar/fazer verdades (aquela verdade findável e transformável que já está em nietzsche).

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

meus poemas têm fome de entender por que a gente se toca, ou melhor, por que eu paro para ver ipês, ou para ler horácio, ungaretti ou celan. bem poderíamos ser como as paredes, ou meros animais que sobrevivem a tudo sem estese, sem chance de alegria ou sofrimento maior. a nossa abertura ao mundo me vem como uma espécie de mistério muito óbvio, ao qual preciso retornar, porque é nisso que está também nossa miséria constante.
mas essa é a questão atemporal. o outro lado é a pergunta sobre como nos é dado sentir hoje & como os poetas — artistas em geral — poderiam inventar novos modos (“inventar” aqui no sentido antigo, de encontrar; não com a ingenuidade de criação ex nihilo)

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

STEHEN, im Schatten
des Wundenmals in der Luft.

Für-niemand-und-nichts-Stehn.
Unerkannt,
für dich
allein.

Mit allem, was darin Raum hat,
auch ohne
Sprache.

DE PÉ, na sombra
da chaga aberta ao ar.

Por-nada-e-ninguém-De-pé.
Irreconhecido,
por ti,
só.

Com tudo que aqui tem espaço,
mesmo sem
língua.

(paul celan, trad. minha)

faz muito tempo que esse poema me assombra. a persistência de resistir/permanecer/ficar de pé/à sombra de todo o sofrimento, mesmo que não haja nada mais a ser defendido, mesmo que não se reconheça nem seja mais reconhecível, até mesmo sem a língua/linguagem, essa perda de tudo, exceto pela tomada de uma posição no mundo — uma habitação do mundo? —, ou pela nossa relação com o outro — logo penso naquela ideia poderosa de sacrifício como modo do amor, proposta por tarkovski — me diz quase tudo que procuro na vida &, portanto, na poesia.

Sobre poesia, ainda: Eduardo Sterzi

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Não sei se, de fato, a hiperexposição que se percebe hoje é de ordem muito diversa daquela que sempre esteve implícita no nosso relacionamento com a linguagem e com outros sistemas de signos. O ser humano sempre esteve, desde o primeiro grito, desde o primeiro grafito, a expor-se e a ocultar-se, em gestos alternados ou mesmo simultâneos (o paradoxo das máscaras, personae, que é também o paradoxo da poesia, consiste justamente nisto, na simultânea exposição e ocultação do ser, dos seres, na palavra). Depois das críticas socrático-platônicas à escrita, à mímese e à poesia, nada de muito novo surgiu na condenação moralizante aos novos meios de expressão e comunicação que foram aparecendo ao longo da história e ao envolvimento dos homens e mulheres com eles. Tudo muda e nada muda. Por outro lado, espero que a poesia nunca se veja obrigada a nada, mas que, mesmo sem obrigação, continue sempre a procurar outras coisas para fazer. É este impulso em direção ao que ela ainda não é, ao que ela ainda não fez, ao desconhecimento de si e dos seus próprios recursos, ao descobrimento daquilo que ela não sabia ser possível, que garante a sua sobrevivência.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A meu ver, a resposta prévia de Oswald continua sendo a melhor para essa questão drummondiana: “Roteiros roteiros roteiros roteiros roteiros roteiros roteiros”. Escrever, pensar, agir é traçar roteiros. Precisamente porque não vivemos mais no mundo dominado pelos deuses (este é o tema de A máquina do mundo, aliás) e os roteiros não estão dados de antemão, precisamente por isso é que precisamos, mais do que nunca, criar roteiros. Roteiros humanos, isto é, nunca definitivos, assumidamente provisórios, abertos a revisões, desvios e derivas. Mas roteiros. (Nota para mim mesmo: diante da febre político-religiosa deste início de milênio, que deu, por exemplo, em algo que escandalosamente se conhece como “bancada evangélica” ou, no plano internacional, nessa aberração que se chama “Estado Islâmico”, como sustentar que não vivemos mais no mundo dominado pelos deuses? Ora, que majoritariamente cretinos falem em nome dos deuses me parece um ótimo motivo para estes, os deuses, conservarem uma boa distância desse planeta absurdo.)

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Ou é isto, ou é mentir desgraçadamente. Melhor continuar mentindo com alguma graça (isto é, fingindo, ficcionando).

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Poemas podem ser vampiros, canibais, zumbis, cães, porcos (os onívoros por excelência, ao lado dos homens…). Poemas comem o que acham pela frente, com especial predileção por pedaços de corpos, vivos ou mortos. Mas comem, os poemas, sobretudo o que podem, mais do que o que porventura queiram. Querer não é poder, vê-se bem em qualquer obra de arte, especialmente se confrontada com o espectro de sua intenção. (Não foi Valéry, aliás, quem disse “Eu mordo o que posso”?)

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Hoje? “Vat 69” de Ruy Belo, aquele que começa com “Era depois da morte herberto helder / Ia fazer três anos que morrêramos”… (Aliás, que Herberto Helder estivesse tão nitidamente vivo até o início da semana, que Ruy Belo continue vivo quase quarenta anos depois de sua suposta morte, que os dois tenham escrito e, por que não?, continuem a escrever na mesma língua em que nós também tentamos escrever – esta constatação resume o que acho da situação da poesia hoje, de sua sobrevivência, mas sobretudo de sua vida.)

Sobre poesia, ainda: Dirceu Villa

Há algumas horas, espalhei para uns 50 poetas, mais ou menos, uma mesma enquete, com a qual pretendo apenas dar a ler, neste blog, o que andam pensando (sobre poesia, mas a gente sabe que nunca é sobre poesia)  algumas das mais interessantes cabeças que estão espalhadas por aí. Lanço essas propostas e, imediatamente, fico angustiado: será que vão me achar ainda mais idiota depois disso? Mas como os amigos não perdem uma chance de nos agradar, vários já responderam dizendo que topam o desafio, o que diminui bastante a angústia. Pedi que respondessem livremente – na forma, no conteúdo, no tempo. Um deles – Dirceu Villa – não apenas topou, como já enviou respostas que, sem dúvida, me fizeram acreditar que, de fato, essa conversa vai valer muito a pena. Confiram.

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1.A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Não tenho ligação alguma com redes sociais, de modo que, pessoalmente, não saberia dizer. Mas não acho que o termo “tempo real” de fato se aplique àquilo. Nós temos hoje uma definição muito pobre, superficial & antifilosófica de “real”. É até nome de dinheiro, a coisa menos real que existe.

E penso que a melhor poesia sofra de uma subexposição, ou mesmo de exposição nenhuma. O que não me surpreende nem um pouco: um mundo que preza o velozmente passageiro das rápidas trocas econômicas até dentro dos sentidos mais profundos da existência não pode querer nada com a poesia.

O tempo da poesia é, de qqer forma, outro. A hipervelocidade artificialíssima de mercado é nada perto dela, natürlich. A poesia lê isso de modo elegíaco ou epigramático. Eu prefiro, por questão de gosto, o epigramático.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A poesia já teve uns  lugares um pouco melhores & mais identificáveis na sociedade (no Ocidente, a Provença medieval, os vinte anos de Florença sob Lorenzo, o que mais? talvez Paris no começo do século XX, quando não cobrava impostos dos artistas e teve lá uma legião estrangeira), mas a verdade é que sempre foi algo quase sem lugar, de que os poetas sempre se queixaram. E a culpa também não é de Platão.

A imaginação é um perigo ― como Platão, compondo uma República, sabia ― porque toda sociedade quer ser um bloco mais ou menos indivisível (veja os grupos coesos de primatas de Arthur C. Clarke & Stanley Kubrick no começo de 2001). Todos morrem de medo de não fazer parte. A imaginação artística ― não só a poética ― não ignora as fissuras. Daí, é um perigo. Mais fácil & melhor ignorar. E mais fácil fazer ignorar acelerando a velocidade das trocas humanas, porque daí você pulveriza  a vida simbólica em mera sobrevivência.

O resultado disso é evidentemente desastroso. E apenas começamos a viver numa paisagem sem imaginação & sem arte, sem vida simbólica. Em alguns anos teremos seus piores efeitos. E daí, quem sabe, comece uma mudança.

Mas poetas de verdade não se repetem nunca. Tudo é novo para nós. Tudo, por belo ou cruel (ou belo e cruel) que seja, contém um estímulo de linguagem & uma experiência efetiva.

 3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Os bons, sim. Sempre foram, sempre serão. Porque também é preciso entender que Pessoa não escreveu “fingimento” no sentido pejorativo & muy banal que costumamos dar à palavra. Tem relações fundamentais com o verbo fingo, fingere, latino (tocar, manipular, acariciar, dar forma a, modelar, fazer, arranjar, adornar, alterar, mudar, compor, etc).

Tem a ver, se se quiser, com bater algo numa forja, também. Pessoa era um cara bem esperto.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Cada poema tem uma fome, ou pode ter mesmo várias, como a própria obra poética do Murilo Mendes exemplifica. E o inefável não existe: se existisse, não seríamos capazes de dizer “inefável”. Mas a coisa pode ser usada, como acima, para um efeito dramático de se estar subitamente at a loss for words, como se diz em inglês.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

“À espera dos bárbaros”, Konstantinos Kaváfis.

A palavra “bárbaro” codifica, desde os gregos antigos, todos os nossos preconceitos. Indica, também, no poema, o desejo de uma ruptura mortal & escandalosa, a que as pessoas se oferecem como vítimas voluntárias & cansadas para o sacrifício. É um retrato próprio & ridículo da nossa sociedade, até politicamente, & ainda mais do que a do próprio Kaváfis, que a descreveu.

“não digam a ninguém e deem o prémio a outro”

herberto-ab7d

http://expresso.sapo.pt/a-morte-ganhou-o-mestre-morreu-herberto-helder=f916626

queria fechar-se inteiro num poema

queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima

http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=1&did=182248

No one listens to poetry

picha

A história começou assim: me deparei por aí com essa foto de uma pichação que, imediatamente, me remeteu a um verso de Jack Spicer que conheço há muitos anos e que, com frequência, me vem à lembrança: “No one listens to poetry”. Destacado do poema e perdido nas confusões da memória, o verso sempre foi, para mim, algo como “Ninguém liga para a poesia”. É mais ou menos assim que ele vem e volta da memória quando algo me faz lembrar que ninguém dá muito ouvido ao que dizem os poetas. Agora, a pichação me fez voltar ao poema todo e, num repente, enviei ao amigo Carlos Felipe Moisés, perito na “alta traição” da traduzir poesia, para que ele, quando possível, trouxesse o poema de Spicer para o português. Não dá para brincar com o Carlos Felipe. Para nossa sorte:

Thing Language

Jack Spicer

This ocean, humiliating in its disguises

Tougher than anything.

No one listens to poetry. The ocean

Does not mean to be listened to. A drop

Or crash of water. It means

Nothing.

It

Is bread and butter

Pepper and salt. The death

That young men hope for. Aimlessly

It pounds the shore. White and aimless signals. No

One listens to poetry.

jackspicer

Língua coisa

[trad. Carlos Felipe Moisés]

Esse mar, humilhante em seus disfarces,

mais valente que tudo.

Ninguém ouve a poesia. O mar

tampouco espera ser ouvido. Uma gota

ou um turbilhão de água. Significa

nada.

É

pão com manteiga,

pimenta e sal. A morte

que os jovens esperam. A esmo

ele golpeia a praia. Brancos, inúteis sinais. Ninguém

ouve a poesia.

Documentário: Terceirizado, um trabalhador brasileiro

Imperdível! Copio o blog do GPTC:

Nesta quinta-feira (26/03/2015), às 20h haverá uma sessão gratuita de lançamento do filme “Terceirizado, um trabalhador Brasileiro”, seguida por Debate com o Professor Jorge Luiz Souto Maior, na Sala João Monteiro (2º andar do prédio histórico da Faculdade de Direito da USP) promovida pelo Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital.

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No momento atual em que o argumento da moralidade esparrama pelo país, nada mais oportuno que examinar o fenômeno da terceirização, sobretudo pela coincidência de que nesse mesmo momento o setor econômico, ligado às grandes corporações (muitas delas envolvidas com os escândalos da corrupção), pressiona o Congresso Nacional (PL 4.330/04) e mesmo o Supremo Tribunal Federal (ARE 713211) para conseguir ampliar, de forma irrestrita, as possibilidades jurídicas da intermediação de mão-de-obra. A contradição é latente vez que a terceirização nos entes públicos constitui uma das maiores facilitações para o desvio do erário, ao mesmo tempo em que conduz os trabalhadores, ocupados nas atividades atingidas, a uma enorme precarização em suas condições de trabalho e em seus direitos.

Além disso, o projeto constitucional, inaugurado em 1988, em consonância, enfim, com os ditames da Constituição da OIT, de 1919, elevou os direitos trabalhistas a direitos fundamentais, ampliando o conceito de direito de greve e no aspecto da moralidade administrativa estabelecendo o concurso como forma obrigatória de acesso ao serviço público, prevendo exceções que em nada se assemelham às contratações de empresas para prestação de serviços “terceirizados”.

“Terceirizado, um trabalhador brasileiro”, produzido pelo Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital, da Faculdade de Direito da USP, sob coordenação do prof. Souto Maior, é um documentário-denúncia, que mostra alguns dos efeitos nefastos da terceirização para os trabalhadores, notadamente no setor público, e o grave problema da perda de compromisso dos próprios entes públicos, no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, com o respeito à Constituição, vez que esta, como dito, toma os direitos dos trabalhadores como fundamentais e não autoriza a terceirização no serviço público, ainda mais em atividades tipicamente administrativas, cabendo deixar claro, em razão das confusões ideológicas do momento, que a prática inconstitucional da terceirização obteve impulso decisivo nos anos 90, como efeito do projeto neoliberal do governo do PSDB, mas que não foi obstado nos anos seguintes, como se vê, no documentário, o que demonstra que os problemas de moralidade, hoje na mira midiática, não são “privilégio” deste ou daquele governo, mas um dado endêmico do modelo de sociedade capitalista.

As perguntas que o documentário deixa no ar são: se você soubesse o que acontece com os trabalhadores terceirizados, o que você faria? Não daria a menor importância?

E mais: estamos mesmo, todos nós, dispostos a fazer com que se cumpram os preceitos da Constituição Federal de 1988? Ou os interesses econômicos particulares, a busca de “status”, a afirmação das desigualdades, as conveniências políticas partidárias e as lógicas corporativas continuarão ditando nossos comportamentos?

Fato é que o tema da terceirização nos obriga a um posicionamento expresso, não deixando margem a dissimulações, dada a sua inevitável materialidade, que gera, no plano formal, uma afronta direta à Constituição, mesmo no que se refere às atividades empresariais na iniciativa privada, já que o projeto constitucional é o da valorização social do trabalho, a eliminação de todas as formas de discriminação, a elevação da condição social dos trabalhadores e a organização da economia seguindo os ditames da justiça social.

As imagens e relatos apresentados no documentário são irrefutáveis, servindo como um grande instrumento de luta para a defesa dos direitos da classe trabalhadora, além de se prestar a um questionamento crítico da sociedade como um todo e sobre o papel do Estado.

Vale conferir!

Brasil, 22 de março de 2015.

Documentário: Terceirizado, um trabalhador brasileiro.

Ao redor do domingo

Recolho aqui intervenções que escrevi nos últimos dias (no facebook) sobre os protestos do dia 15:

[11/3] VOLUME MORTO DO OTIMISMO. E lá vamos nós, mais uma vez, mergulhar no debate eleitoral – o último da eleição passada ou o primeiro da próxima eleição, pouco importa. E será como sempre: discussões infinitas sobre políticos e partidos políticos que não tocam na questão do sistema político terrível que nós temos, em que partido algum consegue crescer, ser forte, representativo, sem se amoldar ao que há de pior. É certo que temos partidos que já surgiram com intenções pouco republicanas (olá, DEM! olá, PP! olá, PMDB!), mas nem todos são assim. O próprio PT passou por esse processo de “maturação” (e a fronteira do maduro é o podre) e deu no que deu: quando se tornou elegível de verdade para a presidência, já estava tão desfigurado que a parte boa de seu governo, desde então, vai sendo soterrada pela tal “governabilidade”, que é o rótulo atual para tudo o que sempre fizeram os nossos queridos políticos. Fez coisas boas? Fez. Mas custaram muito caro – para o partido, para o país, para nosso futuro… E não é só o sistema político: nós estamos discutindo política sem querer tocar na substância da coisa, que é o capitalismo, que é a forma como o grande capital, em tão poucas mãos, do país e de fora, consegue influenciar e decidir a atuação dos governos. Em outras palavras: estamos discutindo a administração da coisa sem olhar com profundidade para a coisa que pretendemos administrar. E é por isso que todo mundo tem que ficar procurando atalho, como negar que há esquerda e direita (se não há nos partidos da ordem, certamente há na sociedade, nos interesses da sociedade) e luta de classes, coisa que pouca gente quer saber o que é… E assim nosso debate acaba sendo apenas a troca de carícias e pontapés de sempre. Pra mim, se tem ao menos duas coisas claras nisso tudo, que fazem subir um pouco o volume morto do meu otimismo, é que (1) os governos do PT podem, sim, se orgulhar de serem os primeiros em que as investigações sobre corrupção no Brasil chegaram tão longe, pegando peixes graúdos do governo e do empresariado, e (2) é muito melhor para o país ter um governo que é atacado pela imprensa (mesmo com mentiras, distorções, seletividade!) do que um governo que é queridinho da imprensa e pode fazer o que bem entende sem ser incomodado. Mais ainda: sendo apoiado! Ou alguém viu a nossa imprensa falando da crise hídrica de SP durante a eleição? Ou alguém já viu a nossa imprensa convocando as pessoas para manifestações políticas na época em que a esquerda se esgoelava para tentar barrar as privatizações do FHC? Ou tais reivindicações não eram dignas de divulgação? Não se trata mais de “dois pesos, duas medidas”, mas de grandes grupos de comunicação, oligopolistas, que atuam como parte dos grupos políticos que têm todo o interesse num golpe contra o governo atual e todas as condições de fazer com que esse golpe se revista (hehehe…) da aparência de solução para nossos problemas. Não, não vem solução alguma daí. E, da forma como a coisa vai, também não virá solução alguma caso o golpe não ocorra, porque os próprios tucanos já estão declarando que preferem a presidenta sangrando do que impedida (vai ser mais difícil lidar com o PMDB na presidência?). Se a sua preocupação é mesmo séria, está acima de disputas partidárias, não é tucana nem petralha, não é governista nem oposicionista, mas sim voltada para a construção de um país melhor para TODOS – o que inclui mudar também a forma privilegiada como muitos de nós vivemos e comprar brigas que temos evitado – já passou da hora de não se deixar enquadrar pelos maniqueísmos do debate político de quinta categoria que temos protagonizado, sob a batuta bem paga de publicitários e assessores de imprensa, que cospem os slogans que vamos ficar repetindo e rebatendo como idiotas por aqui. Acho muito saudável que vá todo mundo gritar na janela, na varanda, na rua, onde quiser, a qualquer hora, em qualquer dia, quase qualquer coisa (porque xingamentos machistas, sexistas etc. são intoleráveis). É bem melhor do que nada, num país em que a participação política – principalmente a de quem tem a vida mais ou menos ajeitada – sempre ficou bem perto do zero, deixando à míngua de solidariedade os grupos mais oprimidos em suas lutas diárias. Mas o buraco é mais embaixo, não custa lembrar. Então resta saber se este é o primeiro ato das transformações que este país tem que viver, a começar pela conscientização política, ou o ato final de uma grande encenação para que tudo continue como sempre foi. Veremos. Ou lutaremos?

[11/3] Faz tempo que não assisto, mas acho que o Jornal Nacional dura mais ou menos uma hora. É provável que o episódio de qualquer reality show ou sitcom dure mais ou menos uma hora. Quero dizer: se você gastar menos de uma horinha assistindo aos 3 blocos desta entrevista com o deputado carioca Marcelo Freixo não vai perder grande coisa e vai ganhar muito, muito em conhecimento do nó político nacional! Pode confiar (dica do Fernando Souza Jr..): https://www.youtube.com/watch?v=3okeLE1wez0&list=PLyeT62cd-aAtQIjJG7i1dth9Ak_SMhs2w

[13/3] DOMINGO E DEPOIS. Não há surpresa no fato de que todos aqueles que, meses atrás, quando foram derrotados na eleição, diziam que quem votou na presidenta Dilma era gente menos qualificada (e desfiaram o pior do seu preconceito), agora embarquem com facilidade nessa manifestação, que, a rigor, é apenas a confirmação de que, para grande parte dos brasileiros, essa tal de democracia é um artigo que não vale nada. Quem está agora defendendo o impeachment – com o apoio asqueroso da imprensa e até da mudança do horário de jogos de futebol! – é gente que não tirou ainda do carro (ou da alma) os adesivos da campanha eleitoral. Gente que não sabe perder e que, pra ganhar, acha que vale tudo, até mesmo tomar um mandato que foi dado pela maior parte do eleitorado brasileiro. Surpresa, surpresa mesmo é ver gente que acredita que pode resultar algo positivo de um golpe feito no interesse dos grupos que sempre dominaram este país, apoiado por fascistas, elitistas, loucos, burros e inocentes úteis de todo tipo. Não, meus queridos, os frutos da árvore envenenada costumam ser perigosos. E quem está fomentando a manifestação golpista (PSBD, Globo, Folha etc.) tem interesses próprios muito diferentes e normalmente contrários aos do povo. Aliás, se levassem os interesses do povo a sério, levariam a sério também o seu voto, mas o fato de que tentem, com todos os ardis, esticar uma eleição até atingirem o resultado que lhes interessa, já mostra bem com que tipo de escória política estamos lidando. Você aí indignado com corrupção e incompetência: não pense que o descontentamento dessa turma é da mesma natureza do seu. Bem longe disso. Nenhum deles tem problema algum com a corrupção, por exemplo, porque dela sempre se beneficiaram. No domingo, da boca pra fora, vai ter muito “unidos venceremos”, muito “100% Brasil”, mas a vida mesmo é bem mais verdadeira da segunda-feira em diante. Que assim seja.

[16/3] ATÉ ONDE VAI NOSSA REVOLTA? Como acontece depois de todo domingo, hoje é segunda-feira e tudo indica que acordei no mesmo país. Na verdade, até acho que o governo pode mudar a partir de hoje – ou ser mudado… Mas difícil mesmo é acreditar que uma mudança forçada por uma polarização política (e eleitoral) tão intensa resulte em algo bom para o país. E mais ainda: não tenho motivo algum para acreditar que todos aqueles torcedores da seleção brasileira, ávidos por ordem, progresso e selfies, acordaram hoje dispostos a viver num país melhor, um país em que todos estivessem empenhados, diariamente, em jamais estar em listas como a do Janot ou a do HSBC. Ou nas duas. Se das manifestações de ontem sair uma peneira institucional mais eficiente para capturar políticos e empresários que roubam dinheiro público e driblam o fisco, não apenas no governo federal, acho que as próximas manifestações serão menores. Ou mais sinceras. Vamos assistir aos próximos capítulos.

Pina, sempre

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Soube que a poesia de Manuel António Pina (1943-2012) vai, em breve, pousar em parte por aqui, então aproveito para comemorar republicando um texto que lhe dediquei lá nas páginas do K – Jornal de Crítica, v. 16, 2007. E, na sequência, uma bela entrevista que ele deu à revista eletrônica portuguesa Ciberkiosk, n. 9, março de 2000, para Osvaldo Manuel Silvestre e Américo António Lindeza Diogo. Aliás, como fazem falta o K, a Ciberkiosk e, mais que tudo, o incrível Pina! Deleitem-se!

SEM QUE PALAVRAS?

Tarso de Melo

Convocado a escrever sobre um poema de Ruy Belo para a antologia crítica Século de Ouro (Lisboa: Angelus Novus/Cotovia, 2002), o poeta Manuel António Pina revelou, por mais de uma vez, o incômodo que sentia diante daquele “trabalho de casa” sobre uma obra poética que, em parte, era responsável por ele, Pina, ser um “escritor de versos”. Para Pina, a poesia de Ruy Belo era “algo amado” e, assim, a sua “compreensão dela não passa por qualquer exercício de análise”.

Lembro isso porque, de minha parte, para escrever aqui sobre a poesia de Manuel António Pina, estou diante do mesmo incômodo – sem, no entanto, a mesma competência para realizar a tarefa. Vou em frente, porém, um tanto por desfaçatez e outro, bem maior, para tentar entender por extenso o que faz com que eu goste tanto da poesia de Pina.

Foi nas páginas da revista Inimigo Rumor, em 2003, que tomei contato com um poema de Manuel António Pina. Naquela época das memoráveis edições luso-brasileiras da revista carioca (do número 11 ao 16), não foram poucas as vezes em que um poeta, de quem nunca havia ouvido falar, despertou minha curiosidade pela produção contemporânea de Portugal. No caso do Pina como no de vários outros, corri à caça de amostras mais substanciosas do que a revista conseguiria trazer. Foi então que surgiu a idéia de pedir a Carlito Azevedo que apresentasse alguns poetas portugueses nas páginas da revista Cacto (que eu editava com Eduardo Sterzi), o que ele fez na forma de uma “pequena antologia aleatória da poesia portuguesa contemporânea”.

Ainda em 2003, no seu terceiro número, a Cacto publicaria os 6 poetas indicados por Carlito Azevedo. Foi então que se deu meu contato definitivo com a poesia de Pina, porque o antologiador me enviou cópia de várias páginas da Poesia reunida (Lisboa: Assírio & Alvim, 2001) para opinar sobre a seleção e transcrever os poemas com fidelidade na revista. Mais uma vez, estava diante de poemas absolutamente impressionantes pela beleza e inteligência com que cercavam seus temas, e não demoraria muito para conseguir um exemplar da Poesia reunida e, depois, de outros livros de Manuel António Pina, que só fizeram aumentar minha admiração.

Não sei até onde pode me ajudar a reconstrução assim detalhada do percurso das minhas leituras do poeta, mas gosto de lembrar que conheci a poesia do Pina em revistas literárias (e em revistas literárias brasileiras, mais especificamente), pelo simples fato de que minha leitura de seus poemas ainda hoje se dá sob um efeito parecido com aquela convivência/confrontação que é própria das revistas. Falo, assim, da diferença entre conhecer um determinado poema e conhecê-lo em meio à leitura de outros poemas de seus (meus) contemporâneos brasileiros e portugueses. No confronto, o choque causado pela poesia de Pina é ainda mais contundente.

Mas aqui quero falar apenas de uma “idéia fixa” que percorre a poesia de Manuel António Pina desde seu primeiro livro, de 1974, até o mais recente, de 2003. Em Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, livro de estréia do poeta, já estão em destaque os poemas que questionam os limites da literatura, ou mais precisamente, não apenas da literatura, mas de tudo que se exprime em palavras: quanto da realidade pode ser representado nas palavras? Ou ainda: que realidade há para além das palavras? Daí em diante, com formulações mais ou menos idênticas, Pina sempre pergunta: “com que palavras e sem que palavras?”

Não é um problema qualquer, ainda mais para um poeta, investigar as possibilidades das palavras. Tampouco é um tema incomum, obviamente. Mas chama a atenção, na obra de Pina, a quantidade de poemas dedicados diretamente à discussão até mesmo filosófica da representação. O eco de um certo Wittgenstein, aquele da proposição “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo” (Tractatus, 5.6), é ouvido constantemente, desde um poema como “Já não é possível”, do primeiro livro, até versos como “entre mim e eu, isto é, palavras” ou “São elas, as tuas palavras, quem diz `eu´”, do poema “Tanto silêncio”, em Os livros (2003), passando, é claro, pelo belíssimo poema “Ludwig W. em 1951”, de Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), em que o diálogo com o filósofo austríaco é francamente aberto.

É possível arriscar uma antologia sumaríssima, voltada principalmente ao leitor que ainda não teve nas mãos os livros de Pina, com algumas pedras de toque da idéia fixa:

“As palavras esmagam-se entre o silêncio

que as cerca e o silêncio que transportam”

     [“Os tempos não”, Ainda não é o fim…, 1974]

“o meu cansaço é só um conceito”

     [“Volto de novo ao princípio”, Aquele que quer morrer, 1978]

“Serei capaz

de não ter medo de nada,

nem de algumas palavras juntas?”

     [“O medo”, Nenhum sítio, 1984]

“As palavras fazem

sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),

um sentido justo,

feito de mais palavras”

     [“Cuidados Intensivos”, XII, Cuidados intensivos, 1994]

“As palavras depõem

contra o coração,

que não quer dizer nada

nem ouvir nada”

     [“A boca e os ouvidos”, Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, 1999]

“Como saberei o que fazer com tantas palavras,

náufrago de palavras

na tormenta de antigos sentidos

e de antigas dúvidas,

sem outra coisa que me proteja

senão mais palavras?”

     [“Como quem liberto de”, idem]

“as que perdi, verbos e

substantivos de que

por um momento foi feito o mundo

e se foram levando o mundo”

     [“Todas as palavras”, Atropelamento e fuga, 2001]

“Agora podemos enfim calar-nos

sem temer a solidão nem a culpa

porque já não há tais palavras”

     [“Separação do corpo”, Os livros, 2003]

Por mais de três décadas perguntando “com que palavras e sem que palavras?”, tudo que Pina escreveu revela o embate entre palavra e realidade, comum na poesia e na filosofia, mas que se singulariza em sua obra pela tendência a afirmar (ou seria lamentar?) que toda a realidade está nas palavras: todas as coisas, fatos e sentimentos existem e deixam de existir conforme as palavras (que a eles se referem e que são sempre alheias) existam ou deixem de existir.

Em Pina, por vezes, como em Mallarmé, tudo conflui para (e tem sentido apenas em) um livro – mas não num Livro grandioso, maiúsculo, como o do poeta francês. Tornar-se literatura, em Pina, antes de ser uma consagração, é uma forma de abandono a que coisas, fatos, sentimentos,  pensamentos e o próprio poeta estão condenados. É possível lembrar, a propósito de certos versos de Pina, das personagens “doentes de literatura” de que trata Enrique Vila-Matas em O mal de Montano (2002), pessoas asfixiadas pelos livros que leram e pelos que pretendem escrever, o que faz com que vivam de maneira completamente mediada pela memória de textos alheios e, mais ainda, que vejam literatura em todas as palavras com que conhecem a si próprios.

Exemplo eloqüente disso está, também, já no primeiro livro de Pina, quando ele constata: “Literatura que faço, me fazes” [“Desta maneira falou Ulisses”]. Ou ainda num poema de O caminho de casa (1989), em que “já tudo e eu próprio somos literatura” [“Insónia”]. Mas é no seu livro de 1999,Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (título, aliás, bastante significativo) que se encontra a radicalização, no poeta, dessa percepção de que tudo é palavra logo é literatura logo é alheio (com perdão pela formulação esquemática…). Leia-se, por exemplo:

“o rio não era o rio

nem corria e a própria morte

era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera

o que sentia, até a

minha alheia melancolia?”

     [“Saudade da prosa”]

“Volto, pois, a casa. Mas a casa,

a existência, não são coisas que li?”

     [“O resto é silêncio (que resto?)”].

Se palavras são sociais – ou se apenas socialmente, comunicativamente, interpessoalmente seus sentidos são justificados ou, como diz o poeta, acham o “sentido justo, feito de mais palavras” –, para o conhecedor de literatura é também inevitável que elas tragam as marcas de suas passagens pelos mais diversos textos e contextos literários. E não apenas literários, porque será natural trazer para a leitura da poesia de Pina, em que as palavras estãoem causa, o significado que algumas delas (ser, presença, linguagem, mundo, casa etc.) ganharam na filosofia do século XX, com o já citado Wittgenstein, mas muito também com Heidegger e alguns de seus herdeiros. (Heidegger, anote-se à margem, lembra uma outra idéia fixa – a ser aprofundada oportunamente – que também cruza toda a obra de Pina: a idéia do retorno à casa, a uma casa que é “coisa que li”, em que ressoa o quase bordão do filósofo alemão “a linguagem é a morada do ser”, com o diferencial de que, para Pina, este não é, por isso, propriamente o lugar de revelação da verdade.)

Se o modo como Pina trabalha e retrabalha essas palavras durante sua obra revela uma certa vocação à poesia reflexiva (com todos os senões que esta expressão merece), não é apenas nele que percebemos a “consangüinidade entre pensamento e poesia” apontada por Maria da Conceição Caleiro. Em Pina, a forma poética é uma forma de intervenção filosófica, uma forma de dúvida filosófica, de desconfiança fundamental diante do real e de sua representação.

Em Os livros, de 2003, Pina volta a perguntar: “Com que palavras e sem que palavras?”. Sem exagero, posso afirmar que este é um livro todo sobrea idéia fixa aqui destacada (a rigor, para tratar da idéia fixa do poeta, deveria transcrever, integralmente, os poemas de Os livros!). Destaco o “sobre” para diminuir nele a indicação puramente temática, porque, na verdade, Pina não (apenas) tematiza o embate palavra/realidade, como ocorre num ensaio filosófico: ele duvida das palavras que tem à disposição de seus poemas e, assim, todos seus poemas, tratem do tema que tratarem, acabam revelando a hesitação diante dos “nomes das coisas”.

O poeta encaminha-se – e leva junto seus leitores – para o interior de um livro, a partir do qual imagina outros: “Talvez que noutro mundo, noutro livro,/ tu não tenhas morrido/ e talvez nesse livro não escrito/ nem tu nem eu tenhamos existido” [“Luz”]. O mundo é, portanto, um livro composto por determinadas palavras numa determinada organização; alteradas aquelas palavras ou esta organização, o mundo é outro, porque outro é o livro. Mas a poesia de Pina se inquieta diante dessa redução do mundo à linguagem e quer mais materialidade do “livro do mundo”, chegando a perguntar, no poema “A ferida”: “Real, real, porque me abandonaste?”. E desejar: “Oh, juntar os pedaços de todos os livros/ e desimaginar o mundo, descriá-lo”.

De dentro dos livros de Manuel António Pina, resta-nos, enfim, aguardar – lendo – outros e torcer para que chegue logo a hora em que o Brasil ganhará uma edição ampla de sua poesia, que o faça conhecido aqui por suas (digamos!) próprias palavras.

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«À poesia pouco mais é dado dizer do que o silêncio do mundo»
Manuel António Pina
, poeta, autor de literatura infantil e cronista, fala ao Ciberkiosk

Um tanto tarde, decerto (na medida em que, como aprendemos na sua obra, é sempre tarde na nossa irreal existência breve), Manuel António Pinacomeça a surgir aos seus contemporâneos como o autor de uma obra maior. Neste caso, e apesar de ser esse o núcleo irradiante da sua produção, não basta dizê-la maior no campo poético, já que o autor é homem de muitos ofícios literários, da literatura infantil em que é mestre (O País das Pessoas de Pernas para o Ar, 1973; Gigões e Anantes, 1974; O Têpluquê, 1977; A Arca do Não É,1979; etc, etc: é favor ler os títulos em relação com as datas da nossa história recente) e à crónica, de que é cultor infelizmente bissexto (O Anacronista, 1994).

Na poesia, tudo começou no ano dos milagres de 1974, com o livro Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, a que se seguiriam, a um ritmo pausado e adensadamente «ruminante», mais 8 títulos. Refira-se a reunião a que procedeu da sua obra em 1992, no volume Algoparecido com isto, da mesma substância, e a recente súmula da sua obra que é o volume Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, longamente analisado em texto incluído neste número de Ciberkiosk.

Suspendamos a lição ética que a ponderada gestão desta obra comporta, num tempo em que os poetas se apressam em produzir-se sob as roupagens da Obra Completa, aos 40 anos. A centralidade discreta da poesia de Manuel António Pina na nossa cena actual, conquistada apesar de bastante esquecimento e descaso, poderá talvez pouco para inverter os rumos fátuos da poesia do período; mas nas suas menos de 300 páginas ela convida-nos a uma meditação exigente e sem tréguas sobre essa modalidade de declinação do ser a que damos o nome de poesia. Poesia do «ser no mundo» e da difícil gramaticalidade disso, a obra de Pina é também, muito consciente e cultamente, uma encruzilhada das dicções poéticas do século, entre o Novo e a conspiração dos plágios, entre Pessoa e Borges, enfim, entre o emperro e a música do verbo, esta última em regime frequentemente atonal.

Razões mais do que suficientes para convocarmos Manuel António Pina a uma conversa com os leitores de Ciberkiosk, os quais poderão assistir nas linhas que se seguem a uma demonstração rara de inteligência e domínio da prosa (a entrevista foi realizada por escrito). O momento parece aliás acertado, coincidindo como coincide com a unanimidade crítica desencadeada pelo seu último livro de versos – de que Ciberkiosk se orgulha de ter apresentado uma sequência à data inédita, no seu número 3 (Setembro de 1998). Ao autor, que gentilmente acedeu a esta entrevista, o nosso muito obrigado.

As perguntas são da responsabilidade de Américo Lindeza Diogo e Osvaldo Manuel Silvestre.

Ciberkiosk O seu primeiro livro, editado no ano santo de 1974, tem o estranho e alongado título Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde. A que vem esta admissão de intempestividade? É o poeta que é tardio (em relação aos seus mestres modernos: Pound, etc)? É a poesia que já não tem apetência pelo canto? É a revolução que vem fora de tempo? Importa-se de nos esclarecer?

MAP A história desse título é um pouco (ou um muito) prosaica. O livro chamava-se (e talvez ainda se chame) Duas biografias. Ainda não é o fim, etc. era o título de uma das suas partes. O editor da 1ª edição – “A Regra do Jogo” que Deus haja – achou que esse seria melhor como título. Fizemos a coisa a meias: saiu Ainda não é o fim… na capa e Duas biografias no rosto. O livro tem, por isso, dois títulos.

Quanto ao resto, ao sentido (ou, talvez antes, à significação) do título da capa, lamento não poder ajudar. Sentido e significação são, em poesia, assuntos excessivamente inseguros e privados, ou da memória privada, para que possamos propor-nos, sem risco de falta de seriedade, partilhá-los. Reparo no entanto, muitos anos e muitos livros depois, que expressões como “é tarde”, ou “faz-se tarde”, ou “está a fazer-se tarde”, e congéneres, são frequentes na poesia que, desde esse primeiro livro, escrevi.

Devo dizer que desconfio dos versos e dos poemas (e dos títulos…) cuja significação não me ofereça alguma resistência. O verso ou o poema hão-de ser suficientemente convictos e seguros de si mais do que eu deles. Com estas reservas, quer-me parecer que a “admissão de intempestividade” que tantas vezes recorre na minha poesia há-de, por aproximação, andar (mas que sei eu?) pela que desemboca nuns versos de Farewell happy fields: “Estava a fazer-se tarde e já ninguém vinha,/ o melhor era irmo-nos deitar”. Isto é, a de alguém esperando alguma coisa (não sei o quê; de qualquer modo, algo do domínio do psicológico mais do que do sociológico) que, no distante ano de 1974, ainda podia vir, e que, em 1992, data de Farewell happy fields, já é aparentemente certo que não virá. (Dir-se-ia entretanto que, apesar de tudo, a espera, mesmo desesperançada, prossegue. Num poema que um dia destes escrevi, intitulado “Quinquagésimo ano”, lá consta ela de novo: “Começa agora a fazer-se tarde/ de um modo menos literário do que dantes”…).

Ciberkiosk Mais radicalmente, o seu último livro (Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, 1999) vem sugerir que tudo é tardio – vida e palavras – em relação a um momento primeiro, insituável e só recuperável (?) como lembrança: «como diante de uma infância / inicial não embaciada / de nenhuma palavra / e nenhuma lembrança» (p. 52). À poesia estaria então cometida uma tão alta função necromântica, em confronto com a sua incapacidade para dizer outra coisa que não o silêncio? E como pôde pôr a falar, ao mesmo tempo, na literatura infantil, «uma infância inicial» que nenhuma palavra embaciou? Necromância ainda e afinal?

MAP Talvez toda a poesia, sendo memória, seja necromântica. E sendo feita e desfeita de palavras, e pois que as nossas palavras são tempo e incoincidência. A minha é decerto necromântica.

Independentemente de à poesia pouco mais ser dado dizer do que o silêncio do mundo (silêncio que é, na língua, abertura ao sentido e sentido aberto), ela pode constituir uma espécie de epifania sem revelação daquilo que talvez saibamos sem sabermos que o sabemos. “Na verdade, quem caminha sobre a cabeça tem o céu debaixo de si como um abismo” (Paul Celan). Porque isso que, da infância, nos não pertence através da memória e das palavras é a Infância, o sem-tempo da infância. Talvez a poesia e o seu inseguro silêncio possam, quem sabe?, dar uma forma ao desejo desse sem-tempo, dessa coisa nenhuma – que é, evidentemente, um desejo de morte.

A infância, como a morte, são limites sobre dois escuros abismos fundamentais. Quem não tem medo do escuro? Parodiando Bataille, talvez seja então possível dizer: “Escreves porque tens medo”. Vista daqui, a literatura infantil que escrevo há-de, pois, ser outro modo, talvez mais perverso, do mesmo desejo. Curiosamente, o último conto do meu último livro desse por assim dizer “género” é uma “História com os olhos fechados”…

Ciberkiosk «Os tempos não vão bons para nós, os mortos», é o primeiro verso da sua obra. Este início tão literário faz-nos lembrar nebulosos autores alemães dados à metafísica (e à sua desconstrução) e à ontologia mortal do ser. Parafraseando Heidegger, poderíamos dizer que na sua obra a poesia e a metafísica são tão próximas como os cumes das montanhas distantes?

MAP Ou tão distantes como os cumes das montanhas próximas…

Eu não penso muito a minha poesia, ela é tudo o que penso sobre ela. (Daí as dificuldades que tive – que tenho – em responder a esta entrevista…). De qualquer modo, a minha poesia será tudo menos a ilustração de um pensamento sobre a poesia. Em verdade lhe digo: acho que ela pode ilustrar tanto concepções românticas/surrealistas (ou heideggerianas: não falava eu, atrás, em “verdade”?) de “poesofia” como concepções mais ou menos formalistas, as mais dogmáticas tanto quanto as cépticas. Que, como se sabe, não se excluem necessariamente. A poesia é uma espécie de religião sem fé (a minha, acho eu, é), sendo provável que essa vocação de religação (que é, em sentido literal, uma vocação de “compreensão”), a ponha diante de algumas intuições metafísicas e ontológicas. Daí a ser uma poesia metafísica vai um abismo. Ela não “quer” pensar nem exprimir nada (está, digamos assim, ocupada de mais a ser), o que não significa, claro, que não pense ou não exprima, senão como escritura como leitura.

Ciberkiosk «A realidade é uma hipótese repugnante», afirma-se no seu último livro. Num poema de Aquele que quer morrer (1978), afirma-se, um tanto com Pessoa à espreita: «A ideia de isto cansa-me / em qualquer sítio fora de qualquer coisa / onde o meu cansaço é só um conceito». O seu idealismo é constitutivo ou foi-lhe revelado (ou intensificado) ao ler Pessoa? Como se relaciona hoje com o poeta multicéfalo?

MAP Eu li – mesmo que a correr, mesmo que só como visitante ocasional – os mesmos idealistas e os mesmos materialistas que todos leram. E li muita gente que os leu certamente melhor do que eu. Ao longo dos anos, fui lendo todo o tipo de coisas e sido atravessado pelas mais dispersas influências filosóficas e estéticas. Por algum motivo algumas foram ficando mais persistentemente do que outras, e algumas me foram conformando mais do que outras. De qualquer maneira, só a espaços (e às vezes com surpresa) dou conta de quais.

Borges, por exemplo, como talvez também Pound, terão tido na minha literatura (e, em geral, na minha relação com a literatura) uma influência que é para mim mais clara do que a de Pessoa. E um e outro não apenas, nem sobretudo, por si mesmos, mas também por todas as inúmeras outras influências que nas suas vêm diluídas. Pessoa também; mas trata-se de uma situação distinta, porque, entre nós, Pessoa é, frequentemente, o nome que se atribui à modernidade (assim tem sucedido com a minha poesia, onde se tem identificado como “pessoana” muita coisa, até a questão identitária, que é apenas moderna).

Numa primeira versão desta resposta tinha começado por enumerar desordenadamente toda a balbúrdia de leituras (isto é, de influências) que poderiam ter conformado o meu “idealismo”. Para, finalmente, me interrogar sobre a possibilidade prática de distinguir, no resultado final, o que é constitutivo do que é constituído e sobre se tal distinção fará algum sentido. Mas recordei-me de um episódio passado há alguns anos. Eu estava como poeta residente em Villeneuve-sur-Lot, uma pequena cidade do Lot-et-Garonne, quando me telefonou Claude Rouquet, o editor de “L’ Escampette”, insistindo para que fosse a Périgueux, a uma sessão literária marcada para a biblioteca local, que tinha uma surpresa para mim. Na biblioteca, um poeta marroquino, Abdullah Zrika, lia poemas, em árabe e em francês. Era essa a surpresa: eram poemas, os de Zrika, meus que eu não tinha escrito! Até onde conheço a minha poesia, aquela poesia era, inquietantemente, a minha! E, pelos vistos, Zrika tinha tido exactamente a mesma impressão lendo, antes, alguns poemas meus editados por Claude Rouquet. E, no entanto, o poeta marroquino nascera e fora criado num bairro pobre da periferia de Casablanca, só aprendera a ler na adolescência, era um militante islâmico e passara uma boa parte da vida na prisão. Uma existência nos antípodas da minha gerara uma poesia igual ou consanguínea da minha! Terá o episódio alguma relevância em relação à questão das influências? Nós e as nossas circunstâncias?

Mas voltemos a Pessoa. Acho eu que só por inacreditável infelicidade é que algum poeta português posterior não terá sido – por acção ou por omissão, por aceitação ou por denegação, mais ansiosamente ou menos ansiosamente – influenciado por Pessoa. A mim, marcou-me profundamente, sobretudo na juventude. Aos 16 anos ganhei, num concurso literário do Liceu de Aveiro, as suas obras editadas pela Ática. “Apanhei” então alguma daquela poesia, principalmente a de Alberto Caeiro e a do ortónimo, como se “apanha” uma doença. Cheguei a escrever um volume (um “falso verdadeiro”, dir-se-ia hoje) de Novos poemas de Alberto Caeiro

Actualmente, a minha relação com a multidão pessoana é mais saudável. Até porque, entretanto, fui “apanhando” mais doenças, e tão ou mais graves (logo a seguir, e ainda nos tenros anos adolescentes, o Mário de Sá-Carneiro e o Camilo Pessanha…) Mas não estou completamente imunizado. Por isso frequento Pessoa com moderação. Há poetas e poesias com uma força de gravidade excessivamente grande para a minha pouca massa. Pessoa é um desses poetas (Eliot, por exemplo, é outro); confesso que tenho algum infantil temor de, deixando-me ir, poder esmagar-me contra as suas superfícies.

Ciberkiosk Em Cuidados Intensivos (1994) a questão da morte surge acompanhada do tema «nobre» da morte de Deus. Por exemplo: «os antigos invocavam-se a si próprios, / nós mandámos dizer que não estávamos» (p. 13). Contudo, esta questão surge também abordada, no mesmo livro, numa óptica radicalmente secular: «Porque é tão difícil, Paulina, morrer em tom menor, / sem tragédia e sem justificações, / sem procurar inutilmente a salvação / da vida». A tragédia é o luxo dos Antigos e nós os ausentes a si mesmos? A poesia – a Arte – não compensa da morte de Deus? A uma vida em tom menor ou em tom único (monotonal) deve corresponder uma poesia «intrigantemente monótona», como da sua dizia em tempos Óscar Lopes?

MAP “Os antigos invocavam-se a si próprios,/ nós mandámos dizer que não estávamos” é uma inocente paródia, en passant, de Álvaro de Campos: “Os antigos invocavam as Musas./Nós invocamo-nos a nós mesmos”. Desde logo na impertinência de pôr aqueles “nós próprios” no lugar de “nós mesmos” (que é como quem diz pôr as coisas no seu lugar, pois é sabido pelo próprio Pessoa que Campos era dado a lapsos, “como dizer ‘eu próprio’ em vez de ‘eu mesmo”), há em tal paródia um desolado afrontamento do excesso de modernidade, isto é, do excesso de antiguidade. Os Modernos, se bem se lembra, também não estavam; a diferença é nós aparentemente coincidirmos com a nossa ausência, “vagueando/ por palavras alheias e infernos alheios”.

A tragédia é, de facto, o luxo dos Antigos como o dos Modernos. Morto Deus, seria preciso que morresse o Homem (o Homem moderno?) para que, enfim sós, pudéssemos ficar diante de nós mesmos como ausência de nós, espécie de nietzscheanos “últimos dos homens”, em que a vontade de nada se tivesse tornado nada da vontade.

A poesia é apenas, citando um verso do mesmo livro, “uns grandes olhos que em isto tudo há”.

Ciberkiosk Um dos seus poemas mais notáveis é aquele que começa por «Apaga a luz. Guarda-me os óculos. Obrigado», em Cuidados Intensivos, e em que se refere a morte como um «erro de paralaxe». O poema pode ser lido como uma paródia da (suposta) paródia pessoana das palavras finais de Goethe. Da Luz deste passaríamos aos óculos de Pessoa e às dioptrias insuficientes da personagem do seu poema, que por via disso não chega mesmo a saber se está vivo ou morto. O poeta seria, então, um vidente trôpego e a poesia uma declinação das sombras platónicas? Lembramos-lhe que ainda assim, e um tanto contraditoriamente, o poeta vê que outrém – os leitores? – vê mal.

MAP A paródia à obviamente suposta paródia pessoana de Goethe é também suposta. Embora a ideia, enquanto acaso objectivo, me agrade, tanto mais que do que se trata no meu poema é justamente da morte. O poeta não vê apenas que outrém – os leitores, como diz – vê mal; do “ângulo de inclinação da sua existência” (P. Celan), e tirando os óculos para ver, o poeta vê-se cegamente também como vidente (leitor) de si mesmo, como uma sombra. Mas isso é, agora, uma suposição minha…

Ciberkiosk No poema «Tat Tam Asi», de Aquele que quer morrer, deparamo-nos com uma formulação radical da literatura como cânone e deste como uma entidade transcendental: «Aqueles que afirmam tudo / existem já na eternidade / conquistaram a imobilidade e o silêncio / com sábia indiferença são sidos por tudo». Em que medida é que o cânone nos é? Ou seja, de que modo é que os auctores nos são? Imagina os seus autores assim silenciosos nas alturas – e imagina-se à conversa com eles?

MAP Os poemas de Aquele que quer morrer radicam, fundamentalmente, em duas leituras (os livros geram outros livros): o Tao te king e A gaia ciência, de Nietzsche (lida numa edição francesa com um prefácio por Klossowski que passou, para mim, a fazer também parte do livro). Os volumes da colecção de poesia de “A Regra do Jogo” em que saiu Aquele que quer morrer tinham no início um cromo; o meu foi o único livro da colecção sem esse ornamento gráfico, porque o João Botelho fotografara um velho exemplar de A gaia ciência da “Guimarães” abandonado em cima de uma cadeira, e aquilo pareceu-me então grosseiramente óbvio…

O poema que cita reporta-se, tal como o escrevi, ao modelo taoista de sabedoria “e(x)tática” e passiva, de coincidência consigo e com o mundo. De “nesciência” que é ciência suprema. Aliás, como se sabe, todo o livro se excede, até à mais “intrigante monotonia”, em vozes passivas, pleonasmos, repetições… De qualquer maneira, não imaginando certamente os meus autores nas alturas, e antes em algum nenhum lugar vazio algures, isso não impede, antes facilita, que vá conversando com eles e eles uns com os outros. Provavelmente, aliás, eu não sou outra coisa senão toda essa conversa.

Os nossos autores são, em grande parte, isso mesmo: nossos autores. Escrevem-nos. Tanto quanto, provavelmente, os escrevemos nós a eles. O Bilhete de Identidade de um escritor é, na realidade (não me lembro onde é que li isto), o seu Bilhete de Alteridade.

Ciberkiosk Esta formulação do cânone como máquina transcendental esvazia os escreventes, como podemos ler no poema «Literatura» do seu primeiro livro: «Literatura incrível esta / que a si própria se escreve». Tanto mais que, como se dirá em «O último dos homens», de Aquele que quer morrer, «Já fiz tudo, já aqui estive, já li tudo!». Nesse mesmo poema diz-se-nos da «difícil solidão» do escriba, que «atravessa o deserto às costas do melhor amigo. / Tem que se lembrar de tudo / pequenas frases, umas primeiro outras depois». A literatura, nestes seus inícios, é colagem, técnicas mortas, pleonasmo, repetição. Ainda o é hoje? Já agora, o que é feito da «ansiedade da influência» de quem assim formula cânone e escrita? Não sendo ela visível, deve-se isso a muita prática da rasura?

MAP A literatura – já uma vez o escrevi – é uma arte de ladrões que roubam a ladrões. Se a constatação se aplica facilmente à colagem enquanto processo literário, aplica-se também, no entanto, à generalidade dos outros processos e à própria literatura enquanto tal. Diz Eliot que os poetas fracos copiam e os poetas fortes roubam. Independentemente de ser uma questão de força ou de fraqueza, não se trata aqui, com efeito, de copiar, mas de, consciente ou inconscientemente, roubar. E quase em estrito sentido técnico-jurídico: de se apropriar de algo de outrém disso fazendo coisa sua. Coisa sua

Quando se rouba conscientemente, e publicamente, o próprio roubo se constituindo como processo literário, estamos no domínio da colagem, da alusão, da paráfrase. Mas o roubo, em literatura, decorre, acho eu, da sua própria natureza de identidade-alteridade.

Se tudo está eternamente escrito, isto é, eternamente em Quito (aí estão elas, alusão e citação), então a literatura é provavelmente um ramo especial da Tautologia. A verdade é que os cânones nos conformam, nos são. Mesmo sem os lermos, andam por aí no ar e na cultura que respiramos, como um fluido em que estamos permanentemente mergulhados; a sua presença em nós opera-se naturalmente, quanto mais não seja por osmose. Posso nunca ter lido Shakespeare ou Goethe, mas leram-nos aqueles que eu li, ou aqueles que foram lidos por aqueles que eu li.

Escreve-se sempre com e contra o passado. A minha poesia não escapa a essa regra, nem, certamente, à da “ansiedade da influência”. Acontece porém que, ao longo dos anos, fui construindo uma relação muito paciente com a minha poesia, dela não esperando hoje o que ela me não pode dar, uma identidade. E para que raio precisaria eu de uma identidade? Ou de um destino?

Quando calha (e muitas vezes calha) vislumbrar a influência à espreita num verso ou num poema, faço normalmente por abrir-lhe a porta e acolhê-la com fraternal complacência. Sei que não adianta fechar-lhe a porta, ela entrará pela janela. Mas não lhe abro os braços apenas por isso, por não poder deixar de recebê-la. A maior parte das vezes ela é, real e sinceramente, bem-vinda. Só aqui e ali é que alguma eventual impertinência precisa, de facto, de rasura.

Dizia o outro que escravo que sabe que é escravo é já meio liberto. Em literatura, a única liberdade que nos é dado alcançar é a de conhecer (mais do que a de escolher) as próprias servidões.

Ciberkiosk Uma das muitas personagens do seu primeiro livro, Clóvis da Silva, teria afirmado, segundo uma outra personagem: «A littratura morreu. Eu e Flávio lhe faremos o emperro». Seria isto um resumo da sua obra – ou da primeira fase dela? Não o enterro mas o emperro da literatura? E este emperro, mais as proclamações milenaristas e chocarreiras, devem-se ainda aos avôzinhos do século, entre Tzara e Breton? Já agora, a contracultura poderia fazer um ménage com aqueles dois senhores nesses seus primeiros livros?

MAP Clóvis da Silva é alguém que eu (não tenho melhor palavra à mão que “eu”) vejo a escrever algumas coisas que escrevo. Não um heterónimo, talvez antes um ortónimo da literatura ela-mesma (isto é, da outra). Porque, repare-se, é alguém que, justamente, anuncia a morte da “littratura” (e o Littré é a metáfora aparente de uma literatura canónica), e se propõe enterrá-la, ou “emperrá-la”, com a colaboração de um outro que, sendo Flávio dos Prazeres, é também Plágio dos Fazeres… Alguém que, aliás, morrerá da mais banal e ordeira morte possível antes de levar a cabo o seu desmesurado e inútil propósito literário. Tão inútil e desmesurado com os de Breton ou de Tsara (e, sim, também o da chamada contracultura), que acabaram, de uma forma ou de outra, na omnívora barriga do Littré.

A poesia daquilo que classifica de minha “primeira fase” vive, com efeito (acho eu, que hoje sou apenas um leitor dela), de alguns propósitos desmesurados (culpa das más influências, das referidas e de outras…) e, simultaneamente, da consciência da inutilidade – e despropósito – deles.

Ciberkiosk Esta gramática emperrada, para o que muito contribui a gramática do Pessoa ortónimo (a passiva, o reflexo), não é reconhecível na literatura infantil que pela mesma época começa a publicar. Ajudou-o esta última a desemperrar na sua poesia – desemperro mais nítido nos anos 90? Em que condições a intrigante monotonia coexistia, pois, com as notáveis diabruras da sua literatura infantil? Eram parentes as duas, ou a segunda um parêntese e apenas literatura infantil? Em qualquer dos casos, como pôde essa tipografia abrir venda de gelados na infância ao lado?

MAP Digamos que a minha literatura infantil, por ser infantil, sempre pôde ser mais “irresponsável” (às crianças desculpa-se tudo…) do que a minha poesia, e passar alegremente ao lado do princípio literário da realidade (ou do princípio da realidade literária), e da sua, da poesia, angustiada vontade de dar consigo mesma, ou com algo parecido consigo mesma, num mundo povoado de sombras alheias. Além do mais, a literatura infantil praticamente não tinha à volta passado nem presente, senão um vago e distante cónego dado a passeios de barco com meninas. Isto é, não havia gramática que a emperrasse, só um deserto onde todas as diabruras eram, sem pecado, possíveis. Mais do que parentes, ou parênteses, uma da outra, poesia e literatura infantil eram então (e se calhar continuam a ser) uma e a mesma coisa literária, em versão, respectivamente, dias úteis e fim-de-semana… No entanto, no meu primeiro livro infantil lá está também, em lugar de óbvia e (des)respeitosa notoriedade, Alberto Caeiro…

Com o passar dos anos, acho que espero cada vez menos da literatura e cada vez menos do que a literatura pode esperar de mim. Talvez isso, sim, vá ajudando a algum “desemperro” da minha poesia.

Ciberkiosk Em Aquele que quer morrer (1978), «literatura» é ainda uma designação sem referente: «(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto)». Mais tarde, em O caminho de casa (1989), nada parece existir fora da literatura: «No quarto ao lado as filhas falam alto. / E dou comigo procurando rimas. – E a alma? – Mas por esta altura / já tudo e eu próprio somos literatura…». Na sua obra não parece cobrar pertinência a distinção radical entre Literatura e Poesia, trabalhada pelos românticos e mais tarde pelos simbolistas e surrealistas. Ou estamos errados? Não há saída da literatura na medida em que esta seria aquele discurso que, porque ilusório, nos diz justamente a ilusão do ser e do mundo?

MAP Sim. Nunca tinha pensado as coisas desse modo, mas sou levado a concordar. Acho que é Blanchot quem se refere à literatura como ilusão. A literatura partilharia então da mesma natureza ilusória do ser e do mundo, na medida em que ela própria é ser e mundo. Não está tudo (desculpe-se-me se me repito) eternamente escrito? Não está tudo em qualquer sítio da estante, ou a caminho da estante?

Nos exemplos que cita, o termo “literatura” é, indistintamente, “poesia” no sentido mais amplo e mais profundo. Não, evidentemente, “romance” ou “folhetim”, texto destinado a dizer, a narrar ou a exprimir, susceptível de ser resumido e parafraseado, porque não existindo autonomamente em sienquanto forma (enquanto “instauração da verdade”, diria Heidegger). Do mesmo modo, “prosa” é, no meu último livro de poesia (onde há, mesmo, um poema intitulado Saudade da prosa), não “romance”, ou “ficção”, mas antes secularização, “despoetização”, da poesia, reencontro, talvez, da poesia com o mundo.

Ciberkiosk Na segunda fase da sua obra (grosso modo, os seus dois últimos livros), a literatura volta a ser possível e a memória é apenas intertextualidade. O escriba já não atravessa o deserto às costas do melhor amigo e a memória não emperra, mas antes ajuda a desemperrar?

MAP A literatura nunca deixou de ser, na minha escrita, possível, mas a palavra literária (a palavra poética) ter-se-á esgotado excessivamente a convocar o ser e o mundo (a ser ser e mundo) e terá, a certa altura, caído em si, percebendo que talvez se tivesse negligenciado como instância, também, e mais modestamente, de nomeação do ser e do mundo, e experimentando então “saudades da prosa”. Mas tenho, de facto, consciência de que, desde Cuidados intensivos (ou, talvez antes, desde Farewell happy fields), existe na minha escrita uma espécie de reconciliação com a literatura (com a poesia), que passa tanto pela aceitação dos seus processos como da sua memória.

Um dos últimos poemas que escrevi fala das “minhas últimas palavras”, aquelas que, “por cansaço, por inércia, por acaso”, foram ficando, e com quem, agora, “como velhos amantes sem desejo” desfio memórias. “Como velhos amantes sem desejo”… É o desejo, acho eu, que emperra. O desejo alimenta a esperança que emperra e o medo que emperra. O “nec spe nec metu” estóico seria a bem-aventurança absoluta de qualquer obra literária. Até lá chegar, no entanto, a minha ainda tem muito que penar.

Ciberkiosk «agora lês saramagos & coisas assim» é um verso de Um sítio onde pousar a cabeça (1991). Tem ele alguma coisa a ver com aquilo a que Joaquim Manuel Magalhães, já nos idos de 80, chamou a «bertrandização» (hoje talvez a FNACização) das nossas letras? Como se vai dando com a instituição literária? Tem razões de queixa? Sob capa Assírio & Alvim, sente-se sido por tudo?

MAP Como eu o leio, a esse verso, sim, tem que ver com a “bertrandização” (ou a FNACização) da literatura, com a mercantilização do desejo. E, também, com a passagem do tempo sobre o desejo, com a sua rarefacção em fórmulas e simulacros, com o esvaziamento da Utopia na desolação democrática e na medíocre-idade.

Quanto às minhas relações com a chamada instituição literária, elas foram sempre sendo, nos afectos como nos desafectos, pouco mais que medíocres. Não tenho da instituição literária grandes razões de queixa nem de gratidão. A recepção (raio de palavra!) dos meus livros foi sempre ficando, sobretudo, pelas suas franjas. No entanto, a instituição, não me prodigalizando entusiasmos por aí além, também nunca me deu ostensivamente com os pés. A instituição é, como se sabe, uma verdadeira e discreta senhora…

Mas a pergunta traz alguma malícia: é verdade que o meu último livro, publicado pela “Assírio & Alvim”, teve algum ruidoso acolhimento crítico. Mas, como antes disse, nunca tive particulares queixas da crítica literária. Ter-se-á, sei lá, pensado que seria efectivamente o último e saudou-se efusivamente o acontecimento, ou então, o livro levará, de facto, alguma diferença dos anteriores. Evidentemente que na capa (e quem tem capa sempre escapa). Mas eventualmente, e cumulativamente, também no tal “desemperro”. Quem disse, no entanto, que estas coisas têm explicação bastante?

Ciberkiosk Dos autores portugueses, os mais presentes na sua obra são decerto Pessoa e Cesariny. O primeiro percebe-se. Importa-se de nos explicar o porquê do segundo? A Obra? A Vida contra a Obra?

MAP Como posso saber? E Mário de Sá-Carneiro? E Ruy Belo? E Alexandre O’Neil? Acho que, de um modo ou de outro, todos, e muitos mais, hão-de estar na minha poesia. Têm que estar, pois estão na minha memória da própria poesia. Por alguma viciosa e circular razão, pois, se essa memória me faz, também eu próprio a vou fazendo a ela.

Ciberkiosk Cesariny dava a sensação de se mover com muito desembaraço e humor por entre as formas e consistências da portugalidade e da cultura portuguesa. Simultaneamente longe e perto. A julgar pelo Anacronista, o seu humor nestas matérias parece desenvolver ou ficcionar uma afinidade com o que nessa cultura (em sentido antropológico) seria simpática e irremediavelmente chocho. O ser português é a Saudade e o Senhor Figueira de Oliveira?

MAP A saudade não sei o que seja, mas o Señor (com ñ) Oliveira de Figueira é certamente uma expressão autêntica e expedita do ser português, ou do que dele vai penosamente sobrevivendo à voracidade globalizadora. A simpatia que as minhas crónicas de jornal nutrem pelo Señor Oliveira de Figueira, e por outros espécimes congéneres que continuam a habitar as cada vez mais escassas franjas da economia de mercado e da cultura de massas, está, no entanto, ferida do pecado da distância e da soberba. Temo, de facto, que as minhas crónicas se lhes dediquem apenas com a mesma amável e enternecida curiosidade do patologista debruçado sobre uma lamela de dispersa bicharada afadigadamente entregue à enormidade da existência…

A outra face dessa simpatia é o desprezo por outra expressão, igualmente expedita, do ser português: o “sabido”, em especial nas versões “político” e “empreendedor”. E igual desprezo pela imensa e informe caterva de economistas e aparentados, fabricados nos sórdidos lugares universitários onde se estuda e ensina a usura, e de lá saindo convictos de que compreenderam o mundo (meu Deus, e se calhar até compreenderam!). E pela malta da “sociedade da informação”, da gestão cultural e coisas semelhantes. É certo que “tudo isto é Portugal, tudo isto é fado”. Mas não vejo Tintin, que é um coração puro, a dar-se de amizades com gente desta.

Ciberkiosk A cidade do Porto, onde vive, historicamente especialista em identidade sua dela e nossa, é mais cultura portuguesa ou (já) Porto cultural?

MAP A cidade do Porto continua, em boa medida, a ser o “grande aldeão” garrettiano. O Património Mundial propriamente dito não deu trabalho nenhum, já estava feito, era só pegar nele e levá-lo à Unesco. A Capital Cultural, como é para fazer e, principalmente, porque há dinheiro para isso, despertou em tudo o que é empreiteiro e mestre-de-obras irreprimíveis ânsias culturais. A larga fatia orçamental que lhes coube está já em cobrança, e essa cobrança vai espraiar-se pelos próximos tempos em ruas de pantanas e custos de freio nos dentes, multiplicando por aí ucranianos, moldovos, romenos, caboverdeanos e angolanos, que em matéria de salários baixos (“competitividade”, dizem eles) os “empreendedores” da construção civil não têm preconceitos de raça ou de cultura. Paralelamente, algumas dezenas de luzidos exemplares da vária espécie dos “programadores culturais” instalaram-se há meses no orçamento da Sociedade Porto 2001 a produzir organigramas, “projectos” e “iniciativas”. Não me digam que tudo isto não é identidade cultural portuguesa da mais idêntica que há!

Depois da auditoria do Tribunal de Contas, já se sabe que, afinal, a Expo 98 foi um desastre à grande e à portuguesa. O Porto 2001 dos políticos e dos empreiteiros (que, no Porto, não são coisas muito diferentes) é já, em matéria de identidade, Portugal no seu melhor. Sem precisar de auditorias para o provar.

Ciberkiosk Costuma dizer que o jornalismo é para ganhar a vida e a poesia para a salvar. Mas em que medida é a sua uma poesia salvífica? Ou, pelo menos, de salvação? E em que medida poderiam ser as suas invenções de infância a dar(-nos) a salvação?

MAP Menos gloriosamente, costumo falar apenas de tentar salvar a vida. Salvação é uma maneira de dizer (aliás, é tudo uma maneira de dizer). Há um verso de Fernando Lemos onde se explica que (talvez não sejam estas exactamente as palavras) “salvar a vida não é aprender a nadar”. Isso é praticamente tudo o que nos é dado saber sobre o que a salvação da vida seja. Mesmo que aprender a nadar, em certas circunstâncias, possa constituir uma ajuda.

A minha poesia não é, na verdade, salvífica nem de salvação. Uso a expressão em sentido mais corriqueiro, como quando se fala de “salvar” uma relação, ou de “salvar” um casamento. No caso talvez a relação com a minha própria existência.

Também costumo dizer que passava bem sem poesia. No entanto, a minha vida seria, então (acho eu), outra coisa. Talvez, como diz uma psicanalista minha amiga, eu fosse o seu melhor cliente; talvez, sei lá, me tornasse, como o outro, num “serial killer”; ou talvez, mais modestamente, fosse apenas infeliz. Porque, como Bobby Robson disse do futebol, a poesia não é uma questão de vida ou de morte, é muito mais importante que isso…

A infância, em sentido nietzscheano, poderia ser, de facto, uma hipótese de salvação. Mas como ser “infans” e sabê-lo? Com que nenhuma palavra e com que nenhuma lembrança? Não certamente as da literatura infantil…

Ciberkiosk Como vê o panorama actual da nossa poesia?

MAP Três ou quatro muito bons poetas, uma quantidade razoável de bons ou razoáveis poetas no estilo do período e algumas glórias e gloríolas de circunstância, ou nem por isso. E excessiva vozearia… Nada que não tenha sucedido antes nem nada que não vá acontecer depois.

Ciberkiosk Já agora, como se sente guilhotinado por Paulo da Costa Domingos (referimo-nos à recente edição de Judicearias)?

MAP Tinha preferido a fogueira, era mais vistoso.