Nostalgia do futuro

cacto

Viciados em livros são seres perigosos. Publiquei ontem uma selfie em que apareciam livros lá de casa logo atrás da metade da minha cara de quem acabava de correr meia maratona. Pois hoje um amigo me encontra e, sem uma palavra a respeito dos meus méritos de atleta (ah!), diz: “pô, você tem uns exemplares da Cacto 1”. E o pior – ou melhor: eu o compreendi imediatamente, porque partilho da mania de tentar descobrir em toda e qualquer cena quais livros emolduram a cabeça de alguém. Mas neste caso em especial teve uma coincidência a mais: nos últimos meses, semana sim e semana também, tenho encontrado referências à CACTO aqui e ali, não apenas quando se fala das revistas brasileiras de poesia, mas também de poetas que surgiram nela etc. Para quem não conhece, CACTO foi uma revista de poesia que editei comEduardo Sterzi – e uma equipe enorme e incrível de colaboradores, aos quais devemos muito!, além do apoio decisivo de Alpharrabio, Fabricando Ideias, Gráfica Bartira e, no último número, editora Unimarco – entre 2002 e 2004. Os quatro números, juntos, somam 800 páginas de poesia, crítica e tradução de alta intensidade, que reuníamos semestralmente graças à marcação cerrada nos calcanhares daqueles que julgávamos fundamentais para compor um número forte, coeso, denso da revista. Creio que deu certo. Folheando a coleção agora, dá orgulho de ter feito, mas principalmente de imaginar o que os textos ali reunidos viraram nas cabeças dos inimagináveis leitores que cruzaram com algum dos exemplares da revista ao longo de mais de uma década. Não é apenas o orgulho de ter feito a revista lá naquela época, mas o de saber que, ainda hoje, fazê-la, talvez da mesma maneira, seria uma grande coisa – é o que alguns leitores dizem. Volta e meia, Eduardo e eu falamos “bem que podia voltar…”, “quem sabe um número 5…”, “a edição digital dos 4 números…” Talvez porque nossa CACTO ainda continue bela, áspera, intratável, como a imaginamos, talvez porque fazer revistas de poesia seja a missão de todo poeta. Acho que não vamos conseguir – tomara! – escapar dessa missão por muito mais tempo.

PS: para quem não sabe ou lembra, CACTO deve seu nome ao Bandeira:

O CACTO
Manuel Bandeira

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.

Erotização e proteção à infância

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Por sugestão de alguns alunos, vamos debater em sala o tema da erotização da infância. Segundo eles, fala-se bastante do tema por causa de MC Melody – uma “funkeira mirim” de 8 anos que sobe aos palcos com o pai para “causar”. Como sempre faço, procuro algumas notícias sobre o assunto, encaminho para a sala e lá exploramos melhor o tema. Já passamos por temas bem polêmicos, pesados, tensos, mas a pesquisa do material sobre MC Melody me deixou realmente assustado. É triste, muito triste imaginar que MC Melody é apenas a ponta do iceberg da exploração infantil, a sua face mais evidente talvez porque mais grosseira, mais escancarada, mais vulnerável (o pai da MC Melody não tem a rede de proteção da Xuxa, por exemplo). Por trás de fenômenos como este que agora aparece no funk, há um larga fila de abandonos que nossa sociedade tem cometido, para depois poder dizer que “quem tem 16 (ou 14 ou 12 ou 8!) anos sabe muito bem o que faz”. E é assim que vamos dormir satisfeitos por não reconhecer que a transformação das vítimas em réus – tenham a idade que tiverem – é uma obra nossa, muito nossa. Por isso decidi colocar aqui os mesmos links que enviei aos alunos, porque certamente essa é uma discussão que não se encerra, nem pode se encerrar numa sala de aula.

Ministério Público abre inquérito sobre ‘sexualização’ de MC Melody

http://g1.globo.com/musica/noticia/2015/04/ministerio-publico-abre-inquerito-sobre-sexualizacao-de-mc-melody.html

Mc Melody escancara como erotização infantil abre portas para a pedofilia

http://entretenimento.r7.com/blogs/blog-da-db/mc-melody-escancara-como-erotizacao-infantil-abre-portas-para-a-pedofilia-20150422/

Eros precoce: a sexualização da infância e adolescência

http://correiodobrasil.com.br/ultimas/eros-precoce-a-sexualizacao-da-infancia-e-adolescencia/575510/

Mc Melody e o uso de crianças para fins lucrativos

http://www.cartapotiguar.com.br/2015/04/17/mc-melody-e-o-uso-de-criancas-para-fins-lucrativos/

Em nova música, MC Melody pede perdão: “Vou mudar para conquistar seu coração”

http://entretenimento.r7.com/pop/em-nova-musica-mc-melody-pede-perdao-vou-mudar-para-conquistar-seu-coracao-25042015

Sobre poesia, ainda: Lucas Bronzatto

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Meus versos saíram da gaveta já neste tempo de hiperexposição, e não tenho um “antes” para comparar como escritor, o que talvez me limite pra responder a esta provocação. Pra mim tudo sempre caminhou junto, inicialmente usando as redes sociais para difundir o que escrevia no blog e depois usando as redes sociais como via de difusão diretamente. Mas não acho que esta hiperexposição obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer. Percebo que existe sim um interesse por poesia, seja no formato poema tradicional ou em outras formas de expressão. Ainda que nas redes sociais as pessoas leiam tudo de maneira apressada, ainda que tudo que é visual, curto e direto chame mais a atenção e “viralize”, há pessoas menos impacientes que param para ler poemas fora destes padrões, e que se deixam levar pelas sensações ou reflexões que provocam. E não se trata apenas de gente que escreve, o que me parece mais interessante nisso tudo. Sinto que há espaço, ainda que pequeno, neste turbilhão todo.
Por que não se confundem? Tenho um pouco de dificuldade de separar o que é poesia do que não é poesia. Não me preocupo muito com essa distinção, por isso acho que às vezes as duas coisas se confundem um pouco. Às vezes um comentário sobre algum link compartilhado ou sobre uma foto (ou a própria foto), ou um pensamento solto, produzem sensações semelhantes às que os versos de um poema causam e conseguem às vezes parar este tempo acelerado que é a vida real (e que se expressa, também, no modo como muita gente encara e se relaciona com as redes sociais, subindo a descendo alucinadamente a barra de rolagem, sem olhar para os lados, sem respirar direito, procurando sei-lá-o-ques que preencham seus vazios). Se qualquer uma dessas expressões – sejam literárias ou não – conseguem fazer o leitor tirar o olho da tela, seja pra olhar pra cima pra pensar sobre o que leu, seja porque as palavras o fizeram lembrar que há coisas mais importantes além da janela, enfim, se as palavras conseguem jogar o leitor pra fora da tela, para um tempo distinto do tempo das redes e da vida, parece que aí há algo feito pela poesia, há algo para a poesia fazer.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Se a viagem se limitar apenas ao continente da literatura, ao mercado ou ao meio literário, aos espaços tradicionalmente reconhecidos como “da poesia”, aos “casarões e bibliotecas inacessíveis a olho nu e prateleiras de livrarias que crianças não alcançam com os pés descalços” (emprestando do Sérgio Vaz estes lugares frequentados por esta dama triste), a viagem será mesmo um périplo (uma navegação em torno de algo, que por fim volta ao mesmo ponto, uma circum-navegação). E parece que este mundo de máquina hoje já dispõe de roteiros pra quem opta por este périplo.
Mas há outros mares que me atraem mais, nos quais a poesia parece estar mais viva. Falo dos saraus, manifestações e ocupações artísticas/políticas espalhados pelas cidades, nas ruas, espaços públicos, botecos, bibliotecas comunitárias, nas periferias e nos centros. Por estas rotas a navegação pode não ser um périplo. Nestes lugares os poemas ganham novas vidas, nas bocas de quem nunca imaginou que um dia ia ler e/ou escrever poemas, nas bocas de quem grita e resiste às opressões, na soma com outras artes e podem empurrar @s poetas e suas linguagens para novos rumos. Ao se deixarem ser ocupados por outras vozes, outras artes, outros lugares menos “nobres” e às vezes menos silenciosos, ao ocuparem junto, ao descerem do Olimpo e buscarem o caminho dos mortais e não o dos imortais, quem sabe o destino final desta viagem não seja novamente a própria literatura. Mas se de tanto discutir literatura e de lerem seus poemas para outr@s poetas, ficam ocupad@s demais para as ocupações, para as praças e ruas, se passam seu (pouco) tempo disponível procurando o “lugar da poesia” em ambientes assépticos, @s poetas não conseguirão perceber a vida nova que a poesia ganha nestes lugares. Retornarão a si mesm@s, ao lugar de sempre, encastelad@s. Se há algum roteiro pra encontrar este tal lugar da poesia – se é que temos que buscá-lo – estes lugares cheios de vida e luta precisam constar nas cartas de navegação.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Depende de qual dor @ poeta finge. O bombardeio de (des)valores que alguns veículos de comunicação, grupos e pessoas deformadoras de opinião fazem parece ter deixado confusa a percepção de dor de parte das pessoas por aí. A linha entre o que é dor e o que não é dor, o limiar de dor se tornou complexo. O olhar para fatos e situações do cotidiano está orientado por uma série de “filtros”, que acomodam os incômodos de modos muito particulares. Por exemplo, algumas histórias de dor da periferia, semelhantes a outras de moradores de bairros ricos e que geraram comoção nacional, geram apedrejamento ou indiferença coletiva (pra ficar em poucos exemplos recentes, as histórias do Amarildo, da Cláudia Silva Ferreira, do Rafael Braga, do menino Eduardo assassinado pela polícia no Alemão, da Veronica). Há uma diferença de ênfase que a mídia dá, mas há também essa questão dos “filtros” inculcados nas pessoas, que dão legitimidade às explicações que a grande mídia/Estado dá, majoritariamente a partir do olhar/interesses da classe dominante. “Filtros” que parecem deixar o limiar de percepção de dor na sociedade seletivo quanto à classe social, etnia, gênero e orientação sexual. Por isso muitas vezes @ poeta que se propõe a escrever com os pés e mãos imersos nesta realidade acaba sendo um/a fingidor/a, talvez em outro sentido, tendo que fingir que é dor uma dor que deveras sente e que tanta gente finge que não é dor. Dores que deveras sente, severamente deturpadas ou silenciadas por quem detém o poder da informação e que @ poeta pode trazer à tona nesta forma de fingimento, a poesia. E/ou trazer olhares diferentes das explicações mal fingidas e filtradas pelo olhar da classe dominante, que às vezes até os dominados reproduzem e difundem. E talvez se chocar com os tais “filtros”, talvez colocar uma pulga atrás da orelha de quem lê e sente na dor lida a dor que não tem, ou que tinha de um jeito deturpado.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

De contradições, principalmente. Atualmente, as perturbações que me alimentam são os véus colocados pra esconder a essência dos fatos do cotidiano. De novo cai na questão da deformação de opiniões, dos “filtros”, de que falei na pergunta anterior. O capitalismo e as formas de dominação e opressão decorrentes das relações sociais que este sistema cria são sustentados também por uma cadeia de difusão de ideias e de explicações para os fatos que ajudam a dar legitimidade à exploração de uma classe por outra. E aí há um monte de véus, uma sucessão de balelas e de narrativas inventadas pra induzir as pessoas a naturalizarem a exploração, a opressão e a “humilhação demais que não cabe no refrão” que @ “trabalhador/a que corre atrás do pão” sofre todos os dias. Pra mim existe aí uma espécie de trincheira que a arte pode entrar, ajudando a desvelar a essência por trás da aparência dos fatos. Ajudando, com suas múltiplas linguagens, a explicitar como são hipócritas e absurdas certas explicações pintadas nos véus. Minha arte poética de barbárie ultimamente tem sido: “feito um defeito desfeito, deixar transparecer nos versos feitos as causas dos efeitos, como um desilusionista”. Meus poemas atualmente estão nesta trincheira e andam com fome destes véus. Infelizmente, deste alimento há fartura.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

“Da Paz”, do Marcelino Freire, especialmente nesta interpretação da Naruna Costa no Sarau do Binho: https://www.youtube.com/watch?v=2g7DHBABdDI . Sei que o pedido era de um poema, mas acho que esta prosa traz muitas coisas que disse nas perguntas anteriores. Entre outras coisas, é uma interpretação em um desses lugares “cheios de vida e luta”, que pode levar a poesia para caminhos menos repetitivos. Volta e meia este vídeo vem à minha mente, já faz um tempo que faz “todo o sentido” pra mim. Novamente estamos diante de um bombardeio midiático que induz a crer que apenas as manifestações políticas “pacíficas” são legítimas e que as não pacíficas não são de “gente de bem”. “Da Paz” atinge este véu.

Fique esperto

Se há um assunto sobre o qual aprendo muito no fb é feminismo, sempre por força das postagens de algumas amigas (como Daniela e Renata, por exemplo). Nos mais diversos assuntos sobre os quais se manifestam, mais e mais percebo como não tenho (temos?) ideia da extensão da violência contra a mulher na nossa sociedade. E hoje apareceu por aqui uma entrevista da Camille Paglia, que se diz “100% feminista”, mas chega a afirmar, tratando de algo tão sério quanto estupro, que a vestimenta da mulher “indica um nível de disponibilidade sexual” e que as mulheres maduras devem entender que “o mundo da beleza” não lhes pertence… Simples assim. Não dá nem pra linkar a entrevista aqui, porque, como disse a Daniela, trata-se de “um desserviço, ela diz que mães de filhos adotivos não são mães, que casamento igualitário não pode ser chamado de casamento, que mulheres deveriam ser mães para serem mulheres, que mulheres depois dos 50 não deveriam mostrar o corpo, que o feminismo é ódio aos homens”. De fato, a entrevista é catastrófica e quero aproveitá-la apenas para registrar um hábito muito caro ao jornalismo brasileiro: encontrar o ex-comunista que virou anticomunista, o torturado que elogia a ditadura e, agora, a “100% feminista” disposta a aconselhar as mulheres a pararem de “culpar os homens por seus problemas”. É tudo que a grande imprensa gosta: um traidor, um delator, um desertor, um “ex” que vira “anti”, um “radical” que vira “moderado”. Alguém que fala com a autoridade do “eu errei”, do “eu já fui, então posso falar”, do “meninos, eu vi”. Vale para o “ex-assalariado” que está feliz da vida com as vantagens de ser terceirizado, para o ex-grevista que lamenta ser proibido de trabalhar pelos grevistas, enfim, para toda exceção que ajude a deslegitimar a regra. Num momento em que o conservadorismo assalta todas as prateleiras de nossa sociedade, é perfeito encontrar alguém que não identificamos como conservador para ratificar o discurso conservador, reacionário, retrógrado, ou seja, aquele discurso do qual jamais vieram direitos. Pelo contrário: é o discurso de que se valem aqueles que querem negar direitos, avanços, conquistas. Fiquem alertas diante dessa estratégia: quando se dá destaque a quem “desistiu” de uma luta, o que se faz apenas é ensinar o caminho da desistência para quem ainda luta. Ou pior: para quem ainda poderia vir a lutar. E, no noticiário brasileiro, isso nunca é por acaso. Nunca.

Beatles, as crianças e nós

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Estive ontem no show Beatles Para Crianças (BPC), que tem a proposta de ser o primeiro show de rock da criançada. Muito bom. (Recomendo – nas próximas semanas haverá novas apresentações.) Não preciso de estímulos para ir e voltar aos discos dos Beatles, mas o fato é que, desde ontem, contaminado pela alegria das crianças todas que estavam lá (cercadas de mães e pais que entraram logo no clima e deixaram as comportadas cadeiras de lado), minha cabeça está funcionando no ritmo das canções que tomaram aquele teatro. E isto me fez lembrar (como esquecer?) daquele que, na minha opinião, foi o show mais incrível dos Beatles. Deixo claro: perdi todos os shows dos Beatles, mas este é o meu “show imperdível” em particular. Era 30 de janeiro de 1969. Do alto do prédio de sua gravadora em Londres, durante pouco mais de 40 minutos, a banda tocou em público pela última vez. E este “em público” é simplesmente colossal. Se um show para crianças, quase meio século depois do fim da banda, já dá uma pancada na gente, imagina o que passou pela cabeça dessas pessoas que aparecem no vídeo: https://vimeo.com/95681569

Naomi, Adélia e eu

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Vejam como são as coisas: dias atrás, sem pensar muito, publiquei um vídeo lendo um dos poemas (“Retrato n. 1”) de meu livro “Poemas 1999-2014”. Para minha surpresa, muitos amigos (ah, os amigos!) me cumprimentaram pela leitura, dizendo que era legal essa coisa de dar o poema aos ouvidos, o que até mesmo ajudava a abrir portas ao leitor. Pois bem, uma amiga foi além: Adélia Nicolete não apenas gostou da leitura, como teve a ideia de também ler e gravar um outro poema (“Ready-made”), para mostrar como os leitores ouvem o que escrevo, mas também para estimular outros leitores a fazerem o mesmo: fica o convite da Adélia, fica o meu mais sincero agradecimento. Ouçam-leiam como ficou legal:

READY-MADE

Naomi Campbell faz tour gastronômico em SP. Naomi Campbell encontra ginecologista e infectologista em consultório. Naomi Campbell retirou cisto do ovário, segundo amigo brasileiro da top. Para não falar com a imprensa, Naomi Campbell deixou o local de helicóptero. Naomi Campbell almoça com namorado e vai ao médico em SP. Naomi Campbell recebe alta médica em São Paulo. Naomi pode ter sido operada devido a infecção, diz colunista. Naomi manda bloquear telefone e proíbe enfermeiras de entrarem em seu quarto. Médico de Naomi diz que pretende dar alta para a paciente até sábado. Após cirurgia, Naomi Campbell passa bem e descansa. Entenda o problema de saúde da top model Naomi Campbell. Naomi é operada para retirada de cisto, dizem amigos. Mídia internacional destaca internação de Naomi Campbell em SP. Naomi é atrevida e destrói tudo, diz Nany People. Naomi recebe cachê para internacionalizar Carnaval. Naomi Campbell afirma que mundo da moda ainda é muito racista. Naomi Campbell marcou presença no Carnaval de Salvador. Ator teria usado drogas com Naomi Campbell. Jornal especula suposto romance entre Hugo Chávez e Naomi Campbell. Naomi Campbell entrevista o “anjo rebelde” Hugo Chávez. Naomi Campbell visita projeto social em Cuba. Homens-armário vigiavam sala em que Naomi Campbell jantava no Bhudda. Naomi Campbell chega com botas para realizar serviço comunitário. Naomi Campbell vira faxineira. Naomi Campbell confirma presença no GP Brasil. Naomi Campbell fará desfile para ajudar vítimas de inundações. Naomi Campbell reaparece em leilão em Mônaco. Naomi Campbell diz que faxina lhe deu mais determinação. Naomi Campbell agrada em seu primeiro dia como faxineira. Naomi Campbell começa a cumprir pena de limpar chão em NY. Naomi Campbell faz aulas de ioga para controlar raiva. Naomi Campbell diz que combate à cocaína deve focar traficantes. Naomi Campbell defende indústria da moda em debate sobre anorexia. Jornal conta ligação de Naomi com seita brasileira “bizarra”. Naomi Campbell é considerada culpada por agredir empregada. Naomi Campbell admite ter agredido empregada. Naomi Campbell é presa por agressão. Naomi Campbell processa jornal britânico por difamação. Naomi Campbell é acusada de agredir funcionária pela quarta vez. Naomi Campbell paga camareira para evitar processo. Naomi Campbell vai torcer pelo Brasil na Copa. Naomi Campbell quer ser mãe, diz tablóide inglês. Naomi Campbell processa cirurgião francês. Naomi Campbell viverá diabo em filme. Naomi Campbell fará vídeo contra tráfico de mulheres. Naomi Campbell bate em atriz italiana em Roma. Naomi Campbell é acusada de agredir melhor amiga por vestido. Naomi Campbell assume na TV uso de drogas. Naomi Campbell é convidada a presenciar matança de focas. Naomi pode ser multada por abandonar trabalho na Turquia. Naomi Campbell afirma que Nelson Mandela é seu confidente. Modelo Naomi Campbell fará papel de stripper em novo filme. “The Essential Naomi Campbell” vai ao ar no próximo domingo.

Sobre poesia, ainda: Fernando Fábio Fiorese Furtado

Fernando Fiorese

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Não me parece que a poesia possa se confundir com a hiperexposição leviana, desembestada, tagarela e mitômana que, grosso modo e não raro, caracteriza os textos divulgados nas redes sociais. Porque o caráter “fingidor” da poesia está tão próximo do outro e da verdade quanto a mitomania está da felicidade compulsória e da beleza photoshop. Porque a tagarelice – a fala pública, vazia e desenraizada a que refere Heidegger – é a mais alta negação do cuidado da poesia para com a angústia dinâmica de sua gênese, qual seja, a tensão entre silêncio e linguagem. Porque também a pressa e a leviandade desta hiperexposição não se coadunam com a verticalidade e a demora necessárias ao exercício da consciência de linguagem, tarefa maior do poeta.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Não sei se o que há de alegria – no sentido potente desta palavra, léguas distantes do vocábulo “felicidade” – seria tanto e tamanho se os “tristes périplos” dos poetas fossem feitos com roteiros. Afinal, enquanto a existência de tais roteiros talvez pudesse nos poupar do pânico inelutável de quem se debruça sobre um caos, por outro lado impediria que as visitações da poesia nos emprestem algumas alegrias breves e verticais, tal foguetes que, rubricando o céu conflagrado dos “tristes périplos”, fazem com que a vida tenha sabor e seja suportável. “Os mesmos sem roteiro tristes périplos”, repetidos em vão e para sempre, mas com suas numerosas estações no inferno adornadas pela mais alta, nobre e bela alegria da descoberta do poético, que está no mundo, ainda que de maneira secreta, sub-reptícia, marginal.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Sem dúvida. E o “fingimento deveras” da poesia é o mais forte antídoto, como disse antes, contra a mitomania que assola o tempo presente – mitomania feita para a ascese ou para a assepsia da matéria bruta da vida.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Os meus poemas têm fome do outro, da linguagem e do tempo. Uma fome nunca satisfeita, com longos e demorados períodos de digestão no silêncio, com a língua tomando de empréstimo outras vozes, com o “olhar armado” para os pratos mais crus e cruéis do nosso tempo.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Trata-se do poema “Oceano coligido”, de Iacyr Anderson Freitas:

inverte-se enfim a arquitetura,

onde havia pedra

resta agora outra figura:

ruína em que o oceano

se ajoelha e bate,

eternamente bate, mas

onde jamais se apura.

(FREITAS, Iacyr Anderson. Primeiro livro de chuvas. Juiz de Fora : Ed. D’lira, 1991, p. 47.)

Sobre poesia, ainda: Sérgio Cohn

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Outro dia me vi surpreendido com uma tradução do termo “commons”, que tanto se tem pensado nos debates culturais. Ao invés de “comum”, traduziu-se por “baldio”, espaço desocupado. Vejo a poesia que me interessa como uma experiência de linguagem, mas sempre profundamente informada pelas vivências e inquietações do(s) poeta(s). Não me interessa a poesia que seja puramente experimental, como não me interessa o simples registro de vivências. Como dizia o Lawrence Ferlinghetti, para se valer a técnica zen da “primeira ideia, melhor ideia” (muito próxima da linguagem das redes sociais), é preciso uma mente interessante e informada. Entre o registro e a expressão existe toda uma vida. Por isso, vejo a poesia como uma linguagem não comunitária, que erra, deriva e se utiliza desse baldio, desse espaço desocupado, para criar relações sempre renováveis e mundos. Não é uma outra coisa, mas outras coisas.

2. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

A cada tempo, diferentes lugares. Já dizia aquele velho livro que a cada geração os jovens precisam reconquistar sua liberdade. E também sua expressão. A poesia ainda possui vícios, como o de ser excessivamente livresca. Mas estão acontecendo experiências bastante instigantes de outros périplos e lugares para a poesia. E viva os múltiplos roteiros cantados por Oswald no seu manifesto antropófago.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

O poeta pode ter máscaras ou não. Pessoa adorava criar fronteiras. Mas serão elas necessárias?

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

A fome muda. Posso até entrever a fome de ontem, posso tentar abarcar a fome de hoje, mas felizmente só posso estar aberto para a fome de amanhã.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

“A poesia e a matança dos mosquitos”, do Leonardo Fróes, por estar aberto ao espanto e a uma vivência do entorno. Uma poesia que busca habitar o seu território, não simplesmente se adequando a ele, mas a partir do sensível. Que busca uma relação com o entorno, marcada pela abertura ao outro e não a sua dominação:

Cada poema original que escrevo à máquina

contém pelo menos

2 ou 3 cadáveres de mosquitos esfregados no rolo.

Isso porque escrevo muito de madrugada com a luz acesa.

Antes de amanhecer eu apago para espiar

a mutação das cores.

Meu editor um dia vai receber a coleção completa.

Parece que Pablo Neruda colecionava

por sua vez caramujos.

Uma senhora que me visitou outro dia achou que tenho

alma de artista.

Como as pessoas são boas observadoras agora.

Os meus cachorros latem muito de noite quando

estou escrevendo.

Eu acho isso muito chato porque fico tenso.

Às vezes eu penso que vai sair do mato

um macacão enorme.

Verônica

Verônica

Eu queria ver apenas as fotos em que Verônica está linda.

Nunca mais ver Verônica como os homens a quiseram.

Nunca mais ver o homem que os homens arrancaram de Verônica.

O bicho que os homens buscaram dentro de Verônica, nunca mais.

Não suporto as fotos em que Verônica desaparece

sob os escombros em que os homens a transformaram.

Não suporto as fotos, os homens, seus socos impressos em Verônica.

Nunca mais quero ver os olhos, o sangue, as marcas

que os homens acharam detrás dos cílios de Verônica.

Nunca mais quero ver os gritos que os homens estamparam

na cara, nos dentes, no sonho, no globo ocular de Verônica.

Nunca mais quero ver o que os homens fizeram para verem

a si próprios em Verônica, para não se verem em Verônica.

Nunca mais quero ver os cabelos que os homens acharam

sob os cabelos de Verônica, o corpo que espancaram sob as roupas

de Verônica, o monstro que pariram com seus chutes.

Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais.

Sobre poesia, ainda: Carlos Augusto Lima

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1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Outro dia escrevi dizendo que me opunha à ideia de que “a vida na rede” ou “a vida nos sites sociais” funcionavam como uma espécie de simulacro das questões da realidade, dos sujeitos, como um falseamento. Discordo. Pra mim, a “vida na rede” é uma extensão daquilo que chamamos de “vida real” (se é que isso existe). Os comportamentos dessa “realidade”, os embates, as paranoias, indelicadezas, surtos, fascismos, demências acabam vazando para as redes, para a expressividade tão passageira do mundo da internet. As redes sociais são uma extensão de nós: para o bem e para o mal. Como uma extensão do ser , aqui no caso, daquele que escreve, esse sujeito quer ocupar esse espaço. Isso é quase natural, para quem trabalha com a linguagem: ocupar todos os espaços dela. Acho que alguém já tratou disso, aqui nessa série. E, nesse local tumultuado da linguagem, particularmente, já entrei em contato com coisas bizarras, mas, ao mesmo tempo, com coisas maravilhosas, traduções exemplares, contatos com poetas que admiro e nunca me aproximei, contato com novos poetas, um fluxo de informação que, claro, não dou conta, mas está presente e tento catar, aqui e ali, do jeito que posso, selecionar, processar como bem entendo (e não como me dizem que deve ser) tudo o que passa por esse fluxo, por isso que chamou-se aqui de hiperexposição. Eu mesmo me coloco nessa hiperexposição, corro riscos, sou fisgado, atiro, avanço e me retiro. Posso me retirar. E isso é muito bom.

A poesia, por sua vez, não tem, nem deve, nem pode ser obrigada a nada. Se ela se confunde (ou causa confusão) no meio dessa hiperexposição, é uma particularidade da própria linguagem e de quem lê, creio eu, e não creio que caiba ao poeta ou escritor determinar uma forma-formato corret(a)o para se “ler a poesia”. Ao que parece, penso a partir dessa indagação, é que estamos querendo que a poesia seja lida (e mantida) dentro de uma forma e um modelo que é só nosso. Um modelo por demais idealizado e arrogante da recepção do poema: “deve-se procurar um lugar tranquilo, na varanda de uma casa de campo, ou numa portentosa biblioteca, no silêncio, sob a luz de um abajur, à noite….”. Quão românticos somos nós, não? Ora, não preciso repetir que as formas de leitura e recepção se alteram através do tempo, e que eu não saberia dizer, ou mesmo julgar, se aquele que lê o poema numa linha do tempo do Facebook é melhor ou pior leitor do que aquele que lia um poema no séc. XVII ou XVIII, afixado de forma anônima na porta de uma taberna, num poste ou na porta de uma igreja. Um poema num papel manchado, de forma manuscrita, cheio de palavras de fazer corar as senhoras e as moças, salpicado de expressões da língua dos índios e dos negros escravizados. Isso é ler melhor? E o que dizer do rapaz que trabalha o dia todo, vai pra escola (quando vai) à noite, não tem livros em casa, mas recebeu do professor uma cópia num papel ofício com 2 ou 3 poemas de um tal Paulo Leminski ou de um tal Manoel de Barros. E o rapaz faz a viagem de trem, depois de ônibus, depois de metrô, para chegar ao trabalho, sem desgrudar dos poemas. Lê e relê com avidez e encanto. Quem está lendo melhor? Qual o melhor lugar e forma para ler o poema?

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?

Há dois problemas que aparecem a partir da sua pergunta: “o lugar da poesia” e “o lugar do poeta”. E um problema maior que surge por conta do alargamento da distância entre esses polos.  Os “tristes périplos sem roteiro”, tristes e repetitivos périplos dos poetas acredito que venham, ainda, de uma ilusão de um lugar que o poeta possa ter no mundo.  Uma ilusão historicamente construída. Nossa! Como somos clássicos, fazendo poses de contemporâneos. Ainda nos nutrimos da empatia de um público para com a imagem do poeta. Ainda desejamos o louvor sobre nossa “obra” (que palavra estranha), o reconhecimento dos outros poetas. Ainda fazemos questão de montar nossa plêiade, nosso cânone e lutamos a ferro e fogo, para excluir aqueles que nela não se encontram. Ainda, no fundo, sonhamos em ver o nome estampados nos livros didáticos, os terríveis livros didáticos. Falamos mal da academia, da universidade, mas adoramos saber que nossos poemas estarão “analisados” e estamparão a capa de dissertações e teses. Falamos mal do mercado, mas, de minha parte, por exemplo, vivo recebendo e-mail de poetas avisando que seu último livro está disponível para venda na livraria tal. Falamos mal dos concursos, mas recebo, com frequência, telefonemas, e-mails, recados com pedidos de voto no prêmio tal e no concurso ali. Sem falar dos decadentes jornais. Quanto delírio por uma matéria tratando de nosso último livro nas primeiras páginas dos chamados “cadernos de cultura”! Queremos que algumas coisas mudem, para que permaneçam as mesmas. O desespero para se achar “o lugar do poeta” vem da implacável verdade de que “o lugar da poesia” é nulo, é nenhum, é vazio e, por isso mesmo, maior, indomável. A poesia nos elimina, nos dissipa e desesperadamente tentamos…permanecer. O lugar da poesia é o imponderável, o desmedido, o sem sentido. Ainda mais desesperador no nosso tempo, onde as pessoas estão desesperadas pelo Sentido. Num tempo onde as verdades e certezas eram mais ou menos estáveis, a poesia servia como o lugar de encontrar os deuses, as manifestações sobre-humanas, encontrar o delírio, o desequilíbrio, a pulsão destrutiva, a quase morte. Mas o nosso tempo, com sua alienação desesperada de consumo, o bombardeio de imagens, de informações já falseadas, líquidas, por si só, já é o tempo do desequilíbrio. E as pessoas não querem o que é instável, imponderável, absurdo. A realidade já é o absurdo. O absurdo da poesia não consegue competir com o absurdo do real. As pessoas querem as certezas, as respostas. Querem que este seja “o escritor que veio da classe trabalhadora”, “o escritor que é herdeiro da tradição modernista”, “o escritor freudiano”. Como se o discurso viesse, sempre, antes do poema, da pintura, da escultura, da performance. O discurso é uma ilusão de sentido (ou uma “armação” de sentido), pronto, mediado e, por isso, confortável. Se confortável, ele é naturalmente rentável. A arte, hoje, é mediação (ruim) e dinheiro. Equação para dar “um sentido” e anular toda e qualquer experiência de descoberta, desconforto, ressignificação.

No tempo do desespero pelo Sentido, o lugar da poesia é nenhum. Para que poesia, se você tem hoje a clínica e a medicação?

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?

Esse problema colocado por Pessoa, e que vem se arrastando por décadas, ou talvez por séculos antes, mais do que me levar ao pensamento sobre o gesto da escrita, o artifício do poeta na produção, me joga muito mais para pensar a recepção do poema e o desaparecimento do gesto. Paradoxalmente, um desaparecimento onde o poeta ainda se faz presente. E isso me leva imediatamente a um texto de Maurice Blanchot, em “La Part du Feu”, chamado “Kafka e a Literatura”. Blanchot relembra que o único momento de felicidade para Kafka era naquele momento em que escrevia, pois escrever era a forma que ele havia encontrado para tentar dar conta daquilo que ele não conseguia comunicar a um outro no seu cotidiano, às pessoas de seu círculo, amigos, família, chefes etc. Através da literatura, como era possível expressar aquilo que, no espaço da vida, da realidade, lhe parecia impossível de transmitir, no caso, sua infelicidade. Os sentimentos, as sensações são incomunicáveis e, por isso mesmo, tornam-se possíveis no espaço literário. A expressão na literatura tem sua origem na forma paradoxal do incomunicável. O sentimento, aqui, no caso, a dor ou a infelicidade tão indescritíveis, tiveram a sorte de ser representados através de vários artifícios, adornos, imagens, simbologias. Aliás, não é o caso de representar ou expressar a dor, mas, como prefere Blanchot, apresentar a dor, fazê-la “existir de um outro modo”, dar-lhe uma “materialidade que não é do corpo, mas a materialidade das palavras pelas quais é significado o transtorno que a dor pretender ser” . A questão é que, quanto mais eu apresento a minha dor, mais ela se afasta de mim e passa a ser de um “Outro”, numa espécie de anulação de si, consentida e obrigatória, por que passa o escritor. É a passagem que Blanchot assinala como, do “Eu sou infeliz” para o “Ele é infeliz”. O tal do “fingimento” na poesia é esta articulação, creio eu, esse intervalo entre presente-ausência para quem escreve. Estou presente no poema, mas já fui abandonado por ele.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?

Meus poemas tem fome de tudo e de nada. Saio devorando o que experimento, vejo, leio e escuto ao redor. Como um predador. Devoro uma frase que alguém escreveu no seu Facebook, um verso do Cancioneiro da Ajuda, num trabalho de Lygia Clark, na fala do porteiro do meu prédio, no corpo das minhas filhas que crescem, corpos que se alongam, numa mensagem recebida pelo Whatsapp, uma memória (e o esquecimento, claro!), na poesia de Heidegger , na filosofia de Nelson Cavaquinho, e qualquer outra coisa elegante ou barata que me apareça. Tento organizar tudo isso, na forma e no tempo que me convém, sem pressa, sem urgência de nada, apenas no tempo do bate-papo ora tranquilo, ora demasiadamente tenso e exaltado entre mim e a Linguagem para, no fim, não saber onde tudo isso vai dar.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

Um poema visual de Nicanor Parra, ainda do início dos anos 70, ainda fazendo todo o sentido. Deixo o porquê para quem vai ler:

parra

Leitura de “Retrato n. 1”

RETRATO N. 1

A noite cai como sempre caiu

e você, impaciente, fala de um novo homem.

Levanto a cabeça, olho em volta, não o vejo.

Eu peço menos pressa, outro copo,

e me distraio enquanto os homens de sempre,

exibindo sua sede, barriga demais, dentes a menos,

coçam lentamente os membros que ainda sentem

à beira de um rio que há muito os despreza.

De tempos em tempos nos escondemos em nossos telefones,

mesmo que eles não nos chamem, mesmo que nos devorem.

Descemos por entre cores que prometem nos levar além,

e já percebemos que a mutação máxima ao nosso alcance

é apenas uma dificuldade cada vez maior de voltar à tona.

É tarde. Estranho. Quando acorda, se acorda,

você diz que não quer morrer, mas não sabe o que nos prende à vida.

Nem quer saber. Queria outros olhos, um ouvido mais puro,

músculos e sinapses, mas não sabe bem o que faria com eles.

A mesa está cheia, a luz baixa, o rádio já cansado

— mas o novo homem não chega. Na tevê o homem de sempre

mostra suas garras, moendo ao vivo outros homens de sempre.

E você pergunta, como quem não quer resposta, se o novo homem

acaso vai usar seus superpoderes para ser ainda mais superpodre.

Poderíamos rir. Mas guardamos para outro tempo.

Hora de ir. Outro país se esvaiu, mais alguns foram linchados,

seus sonhos foram vendidos. Mais cedo ou mais tarde, a conta viria.

E — pelo corpo, pelo copo — não passou o bastante

para esquecermos que ninguém virá pagar por nós.

Ingrato

Legal é ver gente que fez sua vida inteira, a dos seus filhos, quem sabe a dos seus netos, juntando a parte que lhe sobrava do salário, o quanto recolheu de FGTS, o 1/3 de férias ano após ano, o décimo terceiro salário, a participação nos lucros, o benefício vitalício que recebe do INSS junto com a aposentadoria e a previdência privada que o acordo coletivo fez a empresa subsidiar, tudo isso lhe dando até mesmo a chance de ser “empreendedor” hoje, batendo palmas para a terceirização, para a devastação dos direitos dos trabalhadores. É mais ou menos como alguém que, mais perto da porta de saída do que da entrada da vida, achasse engraçado saber que o mundo que começou a ser construído lá no Congresso vai ser bem pior que o seu. Bonito, né?

Sobre poesia, ainda: Carlos Ávila

carlos ávila (1)

1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?
Poesia é poesia sob qualquer circunstância (inclusive, diante dos novos meios). O que importa é a fatura – o texto bem realizado em forma e conteúdo; com força sintática e semântica.

2. A dificuldade para encontrar o tal lugar da poesia no mundo leva os poetas a “em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos”?
O lugar da poesia é o lugar do poeta, ou seja, a sociedade onde ele vive e a língua na qual se expressa.

3. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um “fingimento deveras”?
O poeta não é apenas aquele “fingidor” pessoano, mas talvez, até mais, um jogador que arrisca e aposta alto na linguagem.

4. “Tenho que dar de comer ao poema./ Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta”. Do que seus poemas têm fome?
Fome de forma.

5. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?
“O artista inconfessável” de João Cabral. Porque “entre fazer e não fazer/ mais vale o inútil do fazer”.