Sobre a reedição de “Mein kampf”

Taí um debate espinhoso: a reedição de “Mein kampf”, daquele cara do bigodinho que queria dominar o mundo e decidir quem era bom o bastante pra conviver no que sobrasse aqui – em resumo, “seus iguais”. Por princípio, quem leva a sério a liberdade de expressão – e sabe da importância que ela tem para uma sociedade democrática – não admite controle sobre o que dizem as pessoas, nos jornais, nos livros, em redes sociais, em qualquer lugar, em qualquer tempo. A regra clássica, nas sociedades democráticas, é: diga o que quiser, mas será responsabilizado pelos danos que causar. Fora disso, por causa da ameaça de algum dano, apenas excepcionalmente se admite restrição (prévia) à liberdade de expressão, em geral fazendo constar da legislação sanções que, no mínimo, desestimulam a expressão de opiniões e informações que ofendam ou possam ofender quem quer que seja. Isto porque admitir restrição à liberdade de expressão (o que inclui, por exemplo, impedir a publicação de livros que difundam o ódio contra este ou aquele grupo social) implica assumir riscos imensos, porque qualquer restrição se basearia numa determinação prévia dos limites do que pode ou não ser expresso, ou melhor, do que é ou não ofensivo e, assim, do que pode e do que não pode ser ofendido.
Não faltam espinhos aí, a começar pelo fato de interpretarmos de modos muito diversos o mundo presente e de sermos ainda mais discordantes quando se trata de dizer como deveria ser o mundo futuro. Não há como definir tais limites sem tomar partido. No caso de “Mein kampf”, no entanto, não é difícil perceber quais são os limites desrespeitados pela obra, que, na verdade, é a base do discurso de ódio colocado em prática por seu autor quando assumiu o poder, com todas as consequências terrivelmente concretas que conhecemos. Não se trata, portanto, da manifestação de um pensamento que ainda não sabemos aonde quer chegar, mas, muito pelo contrário, de um pensamento que já mostrou suas garras e, por isso, foi repudiado expressamente pelos direitos que se erigiram após a Segunda Guerra.
Não falo aqui, é claro, para aqueles que desconfiam dos crimes atribuídos ao nazismo e muito menos para aqueles que concordam com ele. São casos perdidos. Falo, em especial, a quem, como eu, se sente incomodado ao ter que dizer: “este livro não pode gozar de liberdade de expressão como um livro qualquer” – porque liberdades não são defendidas para autorizar discursos de ódio, tampouco a comercialização irresponsável de um discurso que é criminoso, ofensivo da legislação internacional e nacional dos direitos humanos. (Poupo-os de explicar em detalhes porque, por exemplo, a afirmação da superioridade de uma raça sobre todas as demais é incompatível com qualquer noção humanitária.)
Em cada lugar do mundo em que esse livro vier a circular, por óbvio, ele terá um efeito, a depender da forma como a edição for tratada, claro, mas também do ambiente político em que o livro vier a pousar. No Brasil, por exemplo, nas recentes manifestações pelas ruas, compareceram grupos ostentando lemas e símbolos nazistas (pelo que sei, não têm sido punidos); nas redes sociais são encontrados diversos grupos neonazistas pregando o ódio em frontal ofensa à legislação (pelo que sei, também não têm sido punidos); há até mesmo políticos que, no exercício de seus cargos, defendem posições de ódio típicas do nazismo. Tudo isso cria um caldo terrível para a recepção do livro por aqui e, a meu ver, é justamente por isso que se deve cobrar dos editores (como, ademais, de todo o circuito dos livros: livrarias, imprensa etc.) muita seriedade e responsabilidade na forma como o livro chegará ao mercado no Brasil. É muita falta de escrúpulo embarcar nessa onda neonazista e, ainda mais, tentar amplificá-la para vender mais livros, e isso não pode ser menosprezado.
Enfim, é por essas razões que apoio o boicote, proposto por alguns escritores e professores, às editoras brasileiras que já se adiantaram a uma divulgação no mínimo irresponsável do livro por aqui. Embarcar na onda neonazista é neonazismo, seja por convicções ideológicas, seja por interesses comerciais.
Aliás, há um precedente aqui no Brasil, de que vocês devem lembrar, conhecido como Caso Ellwanger, julgado pelo Supremo Tribunal Federal em 2003. O STF, então, tinha que decidir se a edição de livros com teses antissemitas devia ser considerada como estímulo à discriminação dos judeus e, ainda, se valia para o judaísmo a imprescritibilidade que a Constituição prevê para o crime de racismo. Por maioria, o tribunal manteve a condenação do editor gaúcho:
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp…
Nada impede, portanto, que os editores de “Mein kampf”, principalmente aqueles que tratarem desse livro como de um produto qualquer, inofensivo ou a ser interpretado livremente, sem considerar o que já existe de consolidado (juridicamente, ao menos) a seu respeito, venham a ser responsabilizados também. Ódio é sério.

PS 1: para saber sobre o boicote, veja o perfil do Ricardo Lisias no facebook.
PS 2: para saber sobre as edições brasileiras que estão sendo feitas, há uma boa matéria aqui: http://www.suplementopernambuco.com.br/…/1530-em-debate-as-…

Sobre a enquete (Sobre poesia, ainda)

Foi em março de 2015 que comecei com essas entrevistas do SOBRE POESIA, AINDA aqui no blog. Dos cerca de 50 convites que fiz, tive 25 respostas ao longo do ano passado: Dirceu Villa, Eduardo Sterzi, Guilherme Gontijo Flores, Adriano Scandolara, Carlos Felipe Moisés, Paulo Ferraz, Heitor Ferraz Mello, Reynaldo Damazio, Dalila Teles Veras, Sérgio Alcides, Ronald Polito, Carlos Ávila, Carlos Augusto Lima, Sergio Cohn, Fernando Fiorese, Lucas Bronzatto, Helio Neri, Danilo Bueno, Ruy Proença, Pádua Fernandes, André Luiz Pinto, Casé Lontra Marques, Ricardo Aleixo, Prisca Agustoni e Júlia Hansen. Desde o início eu temia que insistir nas mesmas 5 perguntas poderia fechar demais a conversa, mas a cada resposta que chegou pude constatar que o universo de cada um desses poetas era mesmo capaz de levar a enquete para um alcance que eu jamais poderia (ou quereria) prever. Começo 2016 com mais um poeta – Thiago Ponce de Moraes – que estica as possibilidades da enquete e, assim, me faz acreditar que devo continuar com a tarefa: encher a paciência de alguns convidados e convidar outros poetas para a roda, porque a vontade de fazer um livro com essas ideias é cada vez mais forte. Acho que merece.

Sobre poesia, ainda: Thiago Ponce de Moraes

thiago

  1. A hiperexposição de tudo que pensamos, sentimos, imaginamos, no tempo real das redes sociais, blogs etc., obriga a poesia a procurar outra coisa para fazer? Se não, por que a poesia não se confunde com isso? Se sim, que outra coisa seria essa?

Nada obriga a poesia a nada. E, no entanto, parece que a poesia sempre está a procurar outra coisa para fazer. Que está a procurar fazer a mesma coisa outra vez, pela primeira vez, retornando para casa. Uma casa que não se sabe onde está, nem se nela um dia já esteve. Talvez o mais importante dessa passagem seja mesmo o procurar – sendo aí um procurar sem fim, na ambiguidade que qualquer busca em poesia proporciona. Inaugurando o fazer esta coisa, inaugurando o fazer desta coisa sem causa ou casa. A mim parece que a poesia está sempre a caminho, está sempre a alastrar-se, contaminando e contaminando-se de mundo, de outras escritas e formas de vida: numa espécie de viagem para a qual não há mapa possível; numa espécie de mapa no qual não há nada escrito, nada demarcado – e, por isso, há ainda possibilidade para tudo; para buscar, para encontrar, para perder – outra coisa ou a mesma; a si mesma ou ao outro.

Acredito que não haja uma relação de causa e efeito entre a hiperexposição generalizada e o poema. Claro está que o poema pode se valer disso – como pode se valer de toda e qualquer coisa que está aí – tanto quanto pode ignorar veementemente essa, por assim dizer, característica de nossos tempos. Ocorre que não há nada a priori estabelecido para o poema: ele pode muito bem fazer nascer a temporalidade que for, num anacronismo deliberado e riquíssimo que recupere ruínas e as erga em seu esfacelamento frente a nossos olhos. O poema elege seu aqui e seu agora, num gesto de forte coesão histórica, e apresenta sua presença a partir daí. Lembro sempre de Ricardo Reis e de suas odes em pleno século XX. Em uma carta, disse certa vez Fernando Pessoa a esse respeito: “os poemas de Ricardo Reis são em verdade contemporâneos por dentro da idade eterna da Natureza”.

  1. A dificuldade para encontrar o «tal lugar da poesia» no mundo leva os poetas a «em vão e para sempre repeti[rem] os mesmos sem roteiro tristes périplos»?

Costumamos ouvir, numa afirmação genérica bastante difundida, que “não há lugar para a poesia num mundo como esse”; ou, nessa mesma frequência, ouvimos questionamentos sobre o porquê da poesia hoje. Inclusive, esse tipo de discurso movimenta discussões sobre “mercado editorial”, “recepção das obras”, “leitores de poesia” etc. Mesmo Adorno chegou a cogitar sua (da poesia) inviabilidade frente a tanta barbárie – se bem que depois de ler Paul Celan reviu sua posição.

O bom de admitir que não existe o «tal lugar da poesia» é justamente perceber que a poesia pode estar em todo e qualquer lugar. E que, em vez da estabilização – que é tão cara a toda nossa tradição de pensamento –, temos o instável não-lugar da poesia, um lugar a caminho, para o qual não há roteiros, o qual não é possível circunscrever, pois está sempre em ultrapassagem de si próprio – ou a alargar fronteiras que, no desbordarem-se, anexam novos territórios, paisagens e rumos indefiníveis indefinidamente. Lembro das palavras de Celan, mais uma vez: “o poema afirma-se à margem de si próprio; para poder subsistir, evoca-se e recupera-se incessantemente, num movimento que vai do seu Já-não ao seu Ainda-e-sempre”. Eis o seu lugar, o lugar da poesia, esse quase não ser mais si, mas também (estar à beira, diante do abismo da linguagem, em pura vertigem), esse deslocamento no tempo a fundar um espaço – que faz viver com suas palavras e imagens, com seus traços e riscos; com seu ritmo.

  1. O poeta continua a ser um fingidor e a poesia, um «fingimento deveras»?

O poeta é um fingidor que finge com verdade, genuinamente, do contrário não fingiria. O fingimento que o poeta finge ficciona e funda as feições daquilo que chamamos de real; então o poema: que se nos apresenta encenando sua própria presença; que faz nascer em nós sensações que não sabíamos ter; que imita o que não estava lá, fazendo com que agora esteja e seja a partir de sua enunciação. Nesse sentido, o poema, como forma de vida-arte (indiscernível) que é, é um fingimento que não reproduz o visível, mas torna visível, à maneira do que diz Paul Klee. Um «fingimento deveras». Inaugural.

  1. «Tenho que dar de comer ao poema. / Novas perturbações me alimentam:/ Nem tudo o que penso agora/ Posso dizer por papel e tinta». Do que seus poemas têm fome?

De vida, da vida de outros poemas, de outras formas de vida. De algo como a linguagem e suas falhas; da impotência comunicativa da linguagem. De algo como um ribombar, um estremecer qualquer – um som de pronúncia desconhecida, um grito, um súbito estatelar-se.

Com Celan, ainda uma vez mais, o poema é o lugar onde todos os tropos e metáforas querem ser levados ad absurdum. Os poemas têm fome de vida; portanto, de absurdo: de indizível e de ilegível; de impronunciável, de inexprimível. O absurdo que é atravessar tudo, atravessar-se: travessia que não exige saídas ou entradas, roteiros ou acordos prévios – riobaldianamente: “Eu atravesso as coisas — e no meio da travessia não vejo! — só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou (…). O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia…”. O poema tem fome do absurdo que é a vida – essa travessia pelo absurdo real que é o haver vida – já o sabia Cabral: “O que vive choca,/ tem dentes, arestas, é espesso./ O que vive é espesso/ como um cão, como um homem,/ como aquele rio”.

  1. Indique UM poema que lhe parece, hoje, especialmente «fazer todo o sentido». Por quê?

Acredito que precisemos apreciar mais o desconhecimento, o mistério que toda a vida (o poema, os demais objetos de arte, o ordinário dos dias) nos lega; e, mais que isso, buscar estar numa posição de não-domínio sobre as coisas, de perda de controle. Frente ao poema, frente à arte, frente à vida: saber dizer menos sobre, querer dizer menos sobre. Deixar-se atravessar por essas coisas, sem a necessidade de organizá-las, higienizá-las, estabilizá-las.

Escolher apenas um poema é tarefa ingrata, vai na direção contrária das coisas que acabo de dizer (se digo o que penso ter dito, afinal). Muitos poemas me parecem, hoje, «fazer todo o sentido» – porque perfazem diversos sentidos sempre e não somente um. Para efeito do jogo, escolho. Entre os tantos pensados, optei por aquele que mais parece dialogar com cada uma das questões aqui colocadas – e com os caminhos que algumas “respostas” tomaram.

Seja este então o porquê (difuso, necessariamente) de escolher o poema 1052 de Emily Dickinson – poeta que viveu reclusa grande parte de sua vida, tendo publicado apenas alguns poucos poemas, apesar de sua vastíssima obra –, em tradução que fiz há alguns anos:

 

I never saw a Moor –

I never saw the Sea –

Yet know I how the Heather looks

And what a Billow be.

 

I never spoke with God

Nor visited in Heaven –

Yet certain am I of the spot

As if the Checks were given –

 

Eu nunca vi um Urzal –

Eu nunca vi o Mar –

Mas já sei eu como é a Urze –

E o que é um Ondear.

 

Nunca falei com Deus

Nem visitei os Céus –

Mas sei chegar ao sítio Teu

Qual Mapa eu tivesse –

Livros

Não há melhor contato com os livros do que aquele que se dá em bibliotecas e livrarias: pegar o volume, olhar as capas, ler as orelhas, xeretar índices e uma ou outra página. Não resta dúvida de que as lojas virtuais, de fato, encurtam o mundo e, muitas vezes, o preço, mas acredito que são perfeitas apenas para o leitor que sabe exatamente o que quer comprar, deixando muito a desejar para o leitor que faz questão de não saber exatamente o que quer ler. O leitor que gosta de passar pelas prateleiras e ser surpreendido, porque sabe que foi assim que conheceu alguns dos melhores livros da sua vida. Lendo a lista dessa matéria – e a promessa larga que vai no título: “enxergar a América” – não tenho como não pensar na falta que faz uma livraria internacional por aqui (falo de São Paulo, mas acho que é uma deficiência nacional), em que seja possível folhear o que foi lançado há pouco na França, na Alemanha, na Argentina, nos EUA, no Japão, na Itália, na África do Sul, no México, em Portugal e mesmo pelas editoras de outras regiões do Brasil, como as pequenas editoras e as universitárias. Sei que deve haver um infinito de complicações comerciais para isso, mas não deixo de lamentar: uma lista como a do El País, sem livrarias que façam esses livros chegarem aqui para que o leitor folheie antes de comprar, é mais um pequeno índice de nossa grande tragédia. Não acredita? Entre num site qualquer e tente comprar 4 ou 5 dos livros indicados. Os diários do Piglia, por exemplo, lançados pela Anagrama, de Barcelona, que tem um catálogo incrível!, aparece à venda no site da Cultura por 138,90 reais mais frete e chega depois de 11 semanas… Tudo bem: você pode ter dinheiro de sobra e nada de urgência, mas ainda assim deveria perguntar se não é possível existir um esquema melhor para quem quer, apenas, ler um livro que a imprensa tem destacado e, mais que isso, quer ter contato com os livros que a imprensa jamais destacará. Eu acho isso triste. São Paulo e outras capitais daqui se orgulham de filiais das mais requintadas boutiques do planeta – de carros, joias, roupas, eletrônicos etc. –, mas tem livrarias cada vez mais carregadas dos mesmos livros das mesmas grandes editoras nacionais (e das edições importadas dos livros que já fazem sucesso aqui traduzidos), cercados de quinquilharias de todo tipo associadas ao universo dos mesmos livros. No mundo dos best-sellers e blockbusters, em silêncio as poucas livrarias “internacionais” ou importadoras estão sumindo, junto com as livrarias em que circulávamos com mais surpresa que enfado. Será que sou o diferentão que acha tudo isso muito triste?

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/28/cultura/1451342305_456771.html?id_externo_rsoc=FB_CM

A queda do céu

queda do céu

Vou chover no molhado, porque, desde meados do ano passado, vi muita gente boa aplaudindo o lançamento desse livro aqui no Brasil. Mas apenas agora comecei a ler e faço questão de registrar: “A queda do céu” é um livro incrível. Indispensável. Vale muito pelo que ensina sobre os yanomamis, mas vale ainda mais pelo que explica sobre a forma como nós – o “povo da mercadoria” – vivemos.
http://m.oglobo.globo.com/cultura/livros/em-queda-do-ceu-davi-kopenawa-bruce-albert-apresentam-pensamento-yanomami-17264840

Ellen Meiksins Wood (1942-2016)

Ellen_Meiksins_Wood

Soube agora, em post do João Alexandre Peschanski, que Ellen Wood morreu ontem. Que triste, que perda enorme. A professora de Ciência Política do Glendon College (da Universidade de York, Toronto, de 1967 a 1996) está longe da fama de um ídolo pop, mas merecia um dia de Bowie, em que a gente ficasse trocando as ideias dela por aqui, assobiando seus “hits” por aí etc. (Pelo jeito, não terá, porque sequer encontro a notícia no google.) Para mim, é nada menos que a autora de alguns dos mais admiráveis ensaios que li na vida. É dela, por exemplo, a ideia de que mais gosto em minha tese de doutorado, mas ela não tem culpa pelos equívocos que certamente cometi a partir daí… Desde que me caíram nas mãos, leio os textos de Ellen Wood de um jeito até estranho, assentindo com a cabeça a cada linha, mas isso também não é culpa dela. Nas encruzilhadas que a elaboração de uma tese costuma ter, a leitura de Ellen Wood abria caminhos que eu jamais teria aberto sozinho. Além disso, Ellen Wood sempre foi, para mim, a prova de que profundidade e seriedade no debate intelectual pode passar bem longe de se confundir com hermetismo, preciosismo, dogmatismo, principalmente para quem não quer perder de vista o que realmente importa nas lutas sociais. Aqui no Brasil, pelo que conheço, foram lançados os seguintes livros: “Em defesa da história” (coletânea organizada com John B. Foster, Zahar, 1999), “A origem do capitalismo” (Zahar, 2001), “Democracia contra capitalismo” (Boitempo, 2003) e, mais recentemente, “Império do capital” (Boitempo, 2014). É possível ler muitos de seus textos, no original, em publicações como “New Left Review” e “Monthly Review”, na internet. Indico com entusiasmo, por todos, a leitura desse livro brilhante que é “Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico”, reunião de ensaios que, de certo modo, iluminam as principais questões a que Ellen Wood dedicou toda sua vida. A clareza com que enfrenta e supera alguns dos impasses teóricos (internamente ao marxismo ou no confronto com outras correntes) para atacar as questões do nosso tempo sempre foi, para mim, um exemplo a ser seguido. Não tenho dúvida de que continuará viva por aqui. Gratidão, Ellen Wood.

Obama: poder e poesia

Bela dica e tradução do Alberto Pucheu. O peso todo disso dá o que pensar:

“Poesia importa. Como todas as artes, poesia dá forma, textura e profundidade de sentidos às nossas vidas. Ela nos ajuda a conhecer o mundo, ela nos ajuda a nos compreendermos, ela nos ajuda a compreender os outros, suas lutas, suas alegrias, os modos como veem o mundo. Ela nos ajuda a conectar. No começo era o verbo. Penso ser correto dizer que, se não tivéssemos poesia, esse seria um mundo muito limitado; não está mesmo claro se, de fato, sobreviveríamos sem poesia. Como Elizabeth [Alexander] uma vez escreveu: ‘Nós nos encontramos em palavras, palavras/ espinhosas ou macias, sussurradas ou declamadas/ palavras para serem consideradas, reconsideradas’. Esse é o poder da poesia. Há momentos quando temos de ler um poema ou escrever um poema para entendermos algo do que atravessamos, que pensamos ter experenciado. Por isso, frequentemente procuramos a poesia em grandes momentos, quando nos apaixonamos, quando perdemos alguém próximo de nós, quando deixamos para trás uma etapa da vida para entrar em outra. Um bom poema pode fazer momentos difíceis se tornarem mais fáceis de serem sobrevividos e fazer bons momentos se tornarem ainda mais doces. Mas poesia não nos importa apenas como indivíduos; ela nos importa como povo. A grandeza do nosso país não está só no tamanho de seu exército, no tamanho de sua economia ou em quanto território ele controla – ela também é medida pela riqueza de sua cultura. E América é América em parte por causa de nossos poetas, nossos artistas, nossos músicos, todos que compartilharam suas ideias e suas histórias e nos ajudaram a nos fazer o país vibrante, passional, apaixonante e bonito que somos hoje. Não é qualquer nação que produz poetas como Elizabeth ou como Madeleine. Há partes do mundo em que poetas são censurados ou silenciados; não é o que fazemos aqui. Essa é uma das muitas razões pelas quais nós somos um lugar tão especial. Se você quiser entender América, então melhor ler algo de Walt Whitman; se você quiser entender América, você precisa conhecer Langston Hughes. De outro modo, você perderá algo fundamental de quem nós somos”.

Voz de trovão

«Tenho fome de me tornar em tudo que não sou».

 

Reuben da Rocha lembrou hoje dessa ótima entrevista que Adolfo Montejo Navas fez com Waly Salomão (1943-2003), para a “Cult”, em 2001, e que está na íntegra na “Errática”.

Aqui: http://www.erratica.com.br/opus/12/

Lembro com muita alegria e admiração quando comprei um exemplar de “Gigolô de bibelôs” (1983), já em meados dos anos 1990, mas lembro também que só fui aprender a ler sua poesia tempos depois, quando assisti a algumas leituras que fez em São Paulo nos lançamentos de “Algaravias” (1996), “Lábia” (1998) e “Mel do melhor” (2001). Waly teve sua poesia reunida recentemente (“Poesia total”, pela Cia. das Letras, 2014) e eu caminhei por suas páginas, meses atrás, com a mesma surpresa de sempre e podia ouvir, a cada palavra, a voz de um grande poeta. Aliás, aprendi com ele algo que impacta muito na minha forma de ler poesia desde então: nem sempre estamos no tom certo para pegar por inteiro um poema, temos que dar/buscar o tempo do poema. Pode levar anos. Só peguei o tom da poesia de Waly ao ouvir sua leitura com voz de trovão, palavras em avalanche, um ser que se abre. Se descartasse sua poesia antes desse reencontro, o azar teria sido todo meu. E não quero cometer esse erro com nenhum poeta.

Distinções

FDSBC, FDUSP e FACAMP, minhas três casas de estudo e trabalho, estão entre as instituições indicadas pelo Conselho Federal da OAB com o “Selo de Qualidade OAB Recomenda”. Parabenizo a todos os alunos, professores e funcionários e aproveito para sugerir uma reflexão na contramão do que tenho lido quando saem essas listas: ao lançar luz sobre 139 das cerca de 1300 faculdades de Direito do país, a OAB não apenas reconhece os bons trabalhos de uma parte pequena do universo da formação jurídica, mas também nos convoca a fazer o possível para que toda e qualquer faculdade possa atingir um dia níveis de qualidade mais altos, mais dignos, porque não podemos deixar de reconhecer a importância que boas faculdades de Direito têm para a ampliação e consolidação da cidadania num país com tantos problemas como o nosso. Para isso, pensar e realizar a função social desses cursos tem que estar muito acima das preocupações de mercado, cotidianamente. É claro que, do ponto de vista profissional de cada um de nós, o reconhecimento da instituição de que participamos é importantíssimo. Mas, a meu ver, mais importante do que aplaudir os “vencedores” e pedir a cabeça dos “perdedores”, para um país em que é tão comum o desrespeito à Constituição pelo próprio Estado (como vimos ontem nas manifestações de São Paulo, um entre inúmeros exemplos), é agir para que as melhorias sejam as mais largas e sólidas possíveis. Nos últimos anos, não apenas na área jurídica, o Brasil vive um processo rápido de ampliação do acesso ao ensino superior e, claro, isso não seria feito sem problemas, muitos problemas. De todo modo, sou otimista com relação aos efeitos dessa ampliação no longo prazo, talvez para os filhos e netos dessas gerações que, agora, são as primeiras em suas famílias a entrar numa faculdade. Destaco: as primeiras gerações de muitas famílias a entrar numa faculdade! Portanto, mesmo diante de um quadro tão complicado, não acredito que a solução seja extirpar as faculdades que não atingem os índices atualmente exigidos e, assim, fechar novamente as portas do ensino superior para uma parcela imensa da população que nunca havia chegado até elas. Há oportunistas e tudo mais nesse jogo, bem sei, mas puni-los não pode ser também (mais) uma punição para os brasileiros. Pensemos nisso.

http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI232437,81042-OAB+certifica+139+cursos+de+Direito+com+selo+de+qualidade

Outras antenas

O artigo do prof. Oswaldo Giacoia Jr. (link abaixo), entre outros méritos, tem o de nos levar a essas duas belas passagens de Nietzsche e Guimarães Rosa. Sempre me chamou atenção, nos grandes filósofos e escritores, a forma como se sentem cercados por grandes perturbações muito antes de ganharem evidência para a maioria da sociedade. Nietzsche falando de pessoas que almoçam olhando para o relógio e boletins da bolsa. Rosa acusando a vida de ser uma doideira. Falam de seu tempo, mas talvez mais ainda do nosso e, de alguma maneira, confirmam que são (ou têm) antenas mais sensíveis, de longo alcance, entre os seus contemporâneos. Só isso já justificaria a leitura atenta, mas sempre tem mais.

 

Nietzsche: “Há uma selvageria pele vermelha, própria do sangue indígena, no modo como os americanos buscam o outro. E a asfixiante pressa com que trabalham – o vício peculiar ao Novo Mundo – já contamina a velha Europa, tornando-a selvagem e sobre ela espalhando uma singular ausência de espírito. As pessoas já se envergonham do descanso. A reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa. Vivem como alguém que a todo instante poderia ‘perder algo’. ‘Melhor fazer qualquer coisa do que nada’. Esse princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior”.

 

Guimarães Rosa: “Ser dono definitivo de mim, era o que eu queria, queria. Existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem –, mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. A gente quer se afastar de si próprio… pra isso é que o muito se fala. O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais”.

 

Ansiedade sem aplicativo

http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,ansiedade-sem-aplicativo,1714488

Uma oficina de oficinas

POESIA TEM CONSERTO?

uma conversa sobre “ensinar a ensinar a escrever poesia”

Com Tarso de Melo

Qualquer curso costuma ter, no mínimo, as seguintes características: um objeto delimitado, uma metodologia preestabelecida, objetivos a serem alcançados e uma forma de avaliação. No entanto, quando o objeto do curso é “escrever poesia”, fica muito difícil chamar o curso de curso e ainda mais tentar delimitá-lo, estabelecer uma metodologia, fixar um objetivo válido para todos os “alunos” (se não há “curso”, como falar em “alunos”?) e avaliar o desempenho de cada participante.

Todas essas palavras, que podem fazer todo o sentido num curso de idiomas (por exemplo!), são bastante estranhas quando o assunto é poesia. Ao menos para mim. E é por isso que sempre começo as oficinas fazendo esta confissão aos participantes. Diante dela, eles se dividem: quem veio buscar uma “aula de poesia”, de que resulte a capacidade imediata de escrever poemas, sai da sala e não volta mais; quem veio ouvir e falar sobre poesia (e as outras coisas de que a poesia se faz), como parte de uma busca maior que ninguém consegue controlar (porque é pessoal, intransferível, imprevisível e, não raro, torturante), acaba aproveitando as horas que passamos juntos. E mais cedo ou mais tarde acha seus poemas por aí, bem longe da “sala de aula”.

Desta vez, no entanto, o desafio é de outro grau – uma oficina sobre oficinas de poesia –, mas talvez sofra das mesmas limitações: se ainda não tenho (temos?) resposta pacífica para a questão “é possível ensinar a escrever poesia?”, certamente é ainda mais inquietante a sua versão duplicada: “é possível ensinar a ensinar a escrever poesia?”. Veremos…

É este o desafio a que fui convocado pelo Coletivo Tantas Letras!, composto por aquela turma que nunca se assustou com a sinceridade da confissão acima, que agora me pediu para pensar uma “oficina de oficinas”, a partir da qual os participantes devem criar as suas oficinas de poesia daqui em diante. Não deve ser mais do que uma conversa (sobre nossas experiências de “professor” e “aluno” em outras tantas oficinas), mas das conversas com eles sempre saíram coisas incríveis. Que assim continue.

Livraria Alpharrabio, 13.02.2016, sábado, das 10h às 13h

(Rua Eduardo Monteiro, 151, Santo André/SP – tel. 4438.4358)

Do fb

[10/1] Estou começando a ler o livro novo do prof. Jessé de Souza (e já sei que nele há inúmeras questões teóricas que exigem cuidado), mas desde já – pelo pouco que li e por essa entrevista – recomendo o livro pela forma corajosa como enfrenta algumas das mais intocáveis opiniões sobre o Brasil.

http://m.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/01/1727369-a-quem-serve-a-classe-media-indignada.shtml

 

[10/1] Círculos de Leitura: http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,a-sublime-linguagem-te-ensinaram,10000006597

 

[11/1] Na última sexta, Bowie fez 69 anos e presenteou o mundo com um novo álbum, “Blackstar”. Desde então, eu o ouvia e conversava sobre a grandiosidade da obra (toda) e do momento dele. A primeira notícia de hoje foi a sua morte. E não há nada melhor a fazer do que voltar ao disco como uma forma de ouvir – com tristeza, mas com muita reverência e gratidão – seu genial adeus.

PS: acabo de rolar a página do fb e, de cara, vejo 20 ou 30 publicações seguidas lamentando a morte e agradecendo a obra de Bowie. Dias tristes têm lá sua alegria.

https://www.youtube.com/watch?v=kszLwBaC4Sw&feature=youtu.be

 

[12/1] (A tomar por ontem, com essa chuva linda da arte de David Bowie em todos os recantos, penso que não seria ruim a gente combinar diariamente a morte fictícia de um desses gênios que, em verdade, não morrem [ou seja, pouco importa de que época sejam], apenas para passarmos o dia cercados de algo assim tão bonito, tão bom, tão necessário. Não são poucos, para nossa sorte, mas estranhamente costumamos gastar mais energia com coisas bem menos interessantes do que suas obras. Bowie nos deixou, de quebra, esta lição: hoje foi um dia bonito, porque ele colocou todo mundo para dançar, mais uma vez. Fica a dica.)

 

[12/1] Tiro, porrada e bomba nos manifestantes, como sempre. Mas algo me diz que os remédios de costume não vão acalmar os ânimos de 2016. Nem com dose extra.

 

[13/1] 75 anos da morte de Joyce: faça como a Marilyn – leia.

marilyn joyce

Disciplina é liberdade

miyagi 1

«ano novo/ anos buscando/ um ânimo novo» (Paulo Leminski)

 

(Perdoem-me por algumas confissões que só em janeiro talvez caibam.)

O grande barato do fim/início de ano deve ser mesmo fazer resoluções: vou fazer isso, nunca mais fazer aquilo. Normalmente, as tais resoluções para o ano novo são críticas com relação ao ano (pessoal) que termina – e isso é sempre bom – e apostas na capacidade de agir melhor em diversos setores da vida: relacionamentos, trabalho, estudos, alimentação, atividade física etc. Li muitas resoluções interessantes aqui, algumas estranhas, outras engraçadas, várias impossíveis. E todas elas me fizeram lembrar uma coisa ainda mais esquisita: gosto de filmes sobre guerreiros, principalmente antigos (os guerreiros, nem tanto os filmes), mais especificamente samurais. Hein?

Seguram-me acordado pela madrugada, sem esforço, os infinitos samurais da trilogia “Musashi” ou dos clássicos de Akira Kurosawa, mas também as versões mais heterodoxas possíveis do cinema norte-americano (com Keanu Reeves, Tom Cruise e outros). Pensando bem, mais do que a energia e a obstinação dos guerreiros, acho que o que mais me prende a esses filmes é a figura dos “mestres”: seja o Senhor Miyagi (de “Karate Kid”) ou o Mestre Yoda (de “Star Wars”), Pai Mei (de “Kill Bill”) ou o Mestre Shifu (de “Kung Fu Panda”), vejo sempre o guerreiro, em seus momentos mais impressionantes, como a projeção de uma força que vem do mestre, com seu invariável jeitão sábio, desprendido, muitas vezes com aparência frágil.

O que isso tem a ver com as resoluções de ano novo? Ora, os mestres desses filmes e de tantos outros são, quase sempre, a realização do conjunto das resoluções de que mais gosto (e pouco cumpro!): estão sempre calmos, serenos, falam pouco, ouvem tudo, dominam sua arte, agem com precisão, sabem a melhor solução para problemas imensos ou sabem exatamente como buscá-la. Ou até mais: sabem também conviver com os problemas que não têm solução, sem deixar que se alastrem criando problemas em todos os lados da vida. Qualquer mestre tem um pouco disso tudo: tem as armas, sabe usá-las, sabe a hora de usá-las. No fundo, aparecem na tela como os mais livres dos seres, porque são solitários e desprendidos, mas fundamentalmente porque são disciplinados. “Disciplina é liberdade”, lembram?

Rios de tinta já foram gastos – na filosofia, nas religiões, no exército, na autoajuda, em todo canto – para definir e defender a importância da disciplina para a vida. Gastaram a palavra, concordo, talvez porque normalmente mascaram sob o aspecto de decisão pessoal o que, na verdade, é a imposição de regras definidas por superiores, na medida de seus interesses. Os mestres dos filmes, claro, têm um pouco ou muito disso, mas nada nos impede de tentar pensar sobre disciplina como uma capacidade de agir nos estritos limites do que consideramos correto, justo, necessário, porque daí pode vir, por exemplo, uma clareza maior para criticar o que nos é imposto, cobrado, “dado”.

Pois bem, em tempos de tamanha dispersão, em que nossa atenção é arrastada para lá e para cá pelas telas de que estamos cercados, não me parece desprezível buscar agir de acordo com suas próprias decisões. Não ignoro que a margem de manobra é mínima, ou seja, que o campo do que nos compete decidir, em meio aos entrelaçamentos profundos da vida social, é bastante reduzido, frágil, precário. Em outras palavras: a maior parte do que afeta nossas vidas não nos compete decidir, mas nem por isso podemos dizer que não há nada que possamos fazer, em nível algum, para mudar a forma como vivemos. Vale para cada um de nós, vale ainda mais para todos nós juntos – eu creio. Os mestres dos filmes que citei, como metáforas, mostram bem o que estou tentando dizer aqui. Como metáforas, friso, porque não é o caso de buscar um mestre lá fora ou uma doutrina a que se aferrar, porque daí normalmente vai vir outra dominação.

Não lembro quando começou essa minha admiração por figuras como o Senhor Miyagi e seus pares, nem entendo com perfeição porque acho que ali está a chave do que acho que deveria fazer nos 1440 minutos do dia. Uma noite dessas, justamente vendo um filme, imaginei que foram os anos de imersão na obra do Leminski (e é por isso que o coloquei na epígrafe) que criaram terreno para que essas figuras caíssem na minha mente com algum sentido para além do que representam nos filmes. Foi Leminski quem me convenceu que poesia (e vida) tem algo a ver com “a ternura que vai/ no fio da lâmina samurai” e que escrever poemas (e viver) é uma espécie de artesanato que exige um permanente estado de atenção ao singelo, ao fugaz, ao frágil, porque é ali que pode se revelar o que verdadeiramente buscamos. Ou não.

Nunca me livrei muito (nem pretendo) dessas convicções lá da adolescência, até porque, em grande medida, desde então reencontro, nos poetas todos que mais admiro, muitos traços em comum com o Bashô retratado por Leminski, com o próprio Leminski e com esses mestres do cinema – sábios, pacientes, dedicados, a vida inteira aperfeiçoando os mesmos gestos, porque é neles que a vida inteira se encontra. Por mais que seus jardins sejam diversos em aparência, todos esses jardineiros dão a mesma lição – seguir cumprindo, por décadas, as tarefas que ninguém lhes impôs. Pelo contrário, cumprem as tarefas que impuseram a si próprios (mesmo entre tantas outras tarefas) porque nelas se realizam, nelas realmente sentem estar vivos, nelas são livres. Nelas está seu “ânimo novo”, sempre e sempre.

Acho que disciplina bem pode ser isso. E é dela que o sucesso de quaisquer resoluções de ano novo depende. Se a resolução é a grande decisão que tomamos uma vez por ano, a disciplina é a pequena-imensa decisão que devemos tomar a cada gesto, porque é sobre ela que qualquer grande tarefa vai se sustentar. Isso é difícil, mas não é à toa que a vida dos mestres dos filmes é sempre marcada por exigências mentais e físicas radicais. Só nas distorções mais graves alguém usa “zen” para dizer “à toa”… O caminho é árduo e este não é um privilégio de 2015 ou de 2016 – é a vida como costuma ser.

(Eu comecei o texto pedindo perdão, né? Se alguém chegou até aqui, reitero.)

Ricardo Emilio Piglia Renzi

“Uno escribe porque está desajustado con la vida”

piglia

Artigo muito interessante sobre o primeiro volume (de 3) dos diários que Ricardo Piglia está escrevendo:

http://cultura.elpais.com/cultura/2015/12/14/babelia/1450103490_379984.html

 

Aqui há trechos do diário:

http://cultura.elpais.com/cultura/2015/08/26/babelia/1440585634_435105.html

 

Na Piaui de dezembro saiu um artigo do Pedro Meira Monteiro sobre ele:

http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/cenas-de-leitura/

 

E uma seleção de trechos feita pelo Leandro Sarmatz:

http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/o-rio-subterraneo/