Excelência

A criança morreu. O juiz, no entanto, quando chamado de “você”, exige o “vossa excelência”. Ele nunca teve tempo para receber a advogada. Você aí pode até achar que, com aquele auxilião gostoso, ele tem mais motivos para ficar em casa do que no fórum. Mas a nota dos magistrados esclarece: ele é dos mais produtivos, como o CNJ adora. Por isso quer que a advogada seja apenas técnica, não se envolva, não chore. Não venha lembrar que crianças morrem, que crianças apanham e morrem, morrem porque apanham e, por isso, não conseguem esperar juízes muito ocupados com suas metas. O que se espera do advogado, diante disso, é que transforme o “você” que a criança grita em um “vossa excelência” entre tantos que vão esperar pacientemente a atenção — técnica — do juiz dentro de um processo quietinho. Do contrário, o advogado se queima, providências serão tomadas, broncas serão dadas… se a advogada ousou colocar-se diante da excelência com a emoção de uma criança que foge da surra e da morte, será tratada como essa criança “imatura e ingênua”, debaixo de vara, até parar de gritar. A técnica sempre vence. Às vezes, uma criança morre.

https://www.jota.info/justica/juiz-diz-em-audiencia-que-advogada-e-desqualificada-imatura-e-ingenua-26022018

Poesia e política no SESC

Curso sobre poesia e política que darei no SESC entre 8/3 e 5/4, cinco quintas-feiras, das 15h às 17h, para ler poesia contemporânea, pensar sobre como as diversas questões políticas de nossa época aparecem nos poemas, ler o que tem sido escrito sobre esses poemas e essas questões por ensaístas de várias áreas. Vamos lá!

http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/poeticas-do-politico-politicas-da-poesia

Vem aí!

Livro novo de poemas chegando na Luna Parque, na coleção de duplas. Dois camaradas de longa data, dois mil e quatrocentos quilômetros entre eles, vinte e dois poemas e uma editora espetacular. Já vai estar à venda na Desvairada, a feira de livros de poesia que acontece em São Paulo em 9 e 10 de março, na Aldeia 445 (rua Lisboa, 445). Acompanhe pelo site da editora: http://www.lunaparque.com.br/. 🙂

2400 km

Oficina de poesia crossfit

pilha livros

Fiquei olhando hoje uns alunos de crossfit (aquela turma que levanta pneu de caminhão etc.) na rua logo cedo e tive uma ideia: uma oficina de poesia crossfit. A gente invade umas bibliotecas boas, sai lendo tudo, subindo e descendo escadas, grita os poemas da janela, carrega pilhas de livro pra lá e pra cá, joga os livros de mão em mão, vai pra rua recitar os poemas como se fossem aquelas músicas de corrida do exército. Entre um exercício e outro, toma uns litrões de cerveja. Mais ou menos como já fazemos. Vai ser sucesso.

Vozes Versos 2018

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O primeiro VOZES VERSOS de 2018, ontem, foi uma grande alegria, dando sequência à alegria que têm sido todos os encontros até aqui e, mais que tudo, dando força para um ano que está só começando. A Tapera Taperá lotada, bem lotada mesmo!, e, do vidro para fora, quase a mesma quantidade de pessoas ouvindo, pelos alto-falantes, a leitura de poemas e a conversa incrível entre Joana Barossi, Marília Garcia e Paulo Ferraz, à sombra da figura espantosa de Nicanor Parra, nosso homenageado de ontem. Quanta força em tudo que foi lido ali ontem! (E ainda ficou no ar essa espécie de abraço que demos na coincidência de Joana e Marília, ambas, estarem vivendo ali entre o sexto e o sétimo mês de suas gestações nada metafóricas!) As plaquetes lindas da Editora Quelônio esgotaram, vi um monte de rostos amigos que não cheguei a cumprimentar, teve a visita-leitura de Marcelo Labes com seu “enclave”, os que vieram pela primeira vez e prometeram voltar sempre, os que vieram desde o início e se espantaram com tantos ouvidos abertos para as vozes e os versos numa manhã ensolarada de sábado no centro de São Paulo. Aliás, a primeira coisa que Heitor me disse quando acabou: “o que aconteceu?” Não sei, não sabemos, mas vamos seguir tocando o barco, porque com esse apoio todo é bem mais fácil navegar. Muito obrigado!

 

Notícias do front

24086458

ex-alunos percorrem os corredores com seus rifles
o som dos disparos assustou até os alunos que estavam armados
mesmo debaixo das carteiras enquanto o agressor se aproxima
consigo ouvir o hino da maior nação do mundo
nossas armas são a garantia de nossa propriedade
nossas propriedades são a garantia de nossa liberdade
nossas liberdades são a garantia de nossa democracia
e por isso somos a maior democracia do mundo
e entre nossas propriedades estão infinitas armas
metade das armas particulares do mundo estão aqui
há 88 armas para cada 100 cidadãos nos Estados Unidos
a sensação de segurança que temos é das mais altas
ainda morremos mais em suicídios mas também matamos os outros
uma igreja vai benzer fuzis em nome da Paz Mundial
professores aprendem a esconder seus alunos quando ouvirem os primeiros tiros
se nada der certo devem instruir as crianças a lançarem livros contra o agressor
em breve os professores poderão deixar armas ao lado de seus tablets
os alunos poderão trajar coletes balísticos sob o blusão do colégio
os corpos podem ajudar a travar as portas e proteger os sobreviventes
não cai bem falar mal de armas no Congresso
mesmo debaixo das carteiras enquanto o agressor se aproxima
não cai bem falar mal de armas em nossas ruas
mesmo debaixo das carteiras enquanto o agressor se aproxima
não cai bem dizer o que devemos fazer com nossas armas
mesmo debaixo das carteiras enquanto o agressor se aproxima

Uma tradução

morabito

SIEMPRE ME PIDEN POEMAS INÉDITOS

Fábio Morábito

 

Siempre me piden poemas inéditos.

Nadie lee poesía

pero me piden poemas inéditos.

Para la revista, el periódico, el performance,

el encuentro, el homenaje, la velada:

un poema, por favor, pero inédito.

Como si supieran de memoria lo que he escrito.

Como si estuvieran colmados de mi poesía

y ahora necesitaran algo inédito.

La poesía siempre es inédita, dijo el poeta en un poema,

pero ellos lo ignoran porque no leen poesía,

sólo piden poemas inéditos.

 

 

SEMPRE ME PEDEM POEMAS INÉDITOS

 

Sempre me pedem poemas inéditos.

Ninguém lê poesia

mas me pedem poemas inéditos.

Para a revista, o jornal, a performance,

o encontro, a homenagem, o sarau:

um poema, por favor, mas inédito.

Como se soubessem de cor tudo que escrevi.

Como se estivessem fartos da minha poesia

e agora precisassem de algo inédito.

A poesia sempre é inédita, disse o poeta num poema,

mas eles o ignoram porque não leem poesia,

apenas pedem poemas inéditos.

 

[trad. Tarso de Melo]

Do fb pra cá (fevereiro 2018)

[1] Já está nas ruas a Grampo Canoa #4, em que tive a alegria de publicar um depoimento sobre uma das minhas paixões: Racionais. Para comprar, procurem a Luna Parque Edições. Para a trilha sonora, sugiro: https://youtu.be/6SBXjwBBkYs. Sobe o som.

racionais

[2] CONCERTO PARA VOZ E VIOLÊNCIA

sem trabalho [não proteste] sem teto [não ocupe] sem terra [não lute] sem educação [não reclame] sem comida [não toque] sem saúde [não grite] sem voz [nem pense] deixe o trabalho [para os meus] deixe o teto [para meu luxo] deixe a terra [para meu golfe] deixe a educação [para meu lustro] deixe a comida [para que me farte] deixe a saúde [para minha prole] deixe a voz [para que te cale]

concerto

[2] EU MORO E VOCÊS PAGAM? O juiz que dizem que salvará o Brasil recebe acima do teto constitucional (de acordo com a lei, claro, porque quem diz o que está de acordo com a lei é alguém que também recebe acima do teto constitucional). O juiz que dizem que salvará o Brasil recebe auxílio para morar em sua própria casa (de acordo com a lei, claro, porque quem diz o que está de acordo com a lei é alguém que também recebe auxílio para morar em sua própria casa). O juiz que dizem que salvará o Brasil disse que “O auxílio-moradia é pago indistintamente a todos os magistrados e, embora discutível, compensa a falta de reajuste dos vencimentos desde 1º de janeiro de 2015 e que, pela lei, deveriam ser anualmente reajustados”, porque o juiz que dizem que salvará o Brasil não vê problema em admitir que recebe dinheiro público para finalidade diferente daquela a que se destina por lei (porque quem pode fazê-lo devolver é alguém que também teria que devolver). O juiz que dizem que salvará o Brasil não se constrange de receber um auxílio “discutível”, mas ai de quem não é da sua turma e é acusado de algo “discutível”. Com heróis assim, vai ser difícil o Brasil se salvar.

 

[5] Tive coragem de entrar no site do Governo Federal para ver as propagandas (sim, não passam de propagandas) sobre a “reforma” da Previdência. Toda a estética é uma afronta ao debate sério sobre o tema e, mais que tudo, a confirmação de que não sobra nada mais do que mistificação nas mãos de Temer para convencer a população de que sua “reforma” vai proteger os mais pobres e atingir os privilégios de “políticos” e “altos funcionários públicos”, termos usados sempre com bastante abstração para não sabermos nunca do que se trata efetivamente (do contrário, poderia fazer com que nos questionássemos a respeito da relação entre a tal “reforma” e as notícias atuais sobre os privilégios dos magistrados, por exemplo…). Sob o slogan “contra os privilégios e a favor da igualdade”, os rostos fotografados alternam-se entre expressões de esperança (o queixo levemente erguido e os olhos perdidos no horizonte) e de extrema preocupação (rugas em destaque e uma luz meio tristonha), encenando uma população que apoia a “reforma” e, assim, teria em Temer uma espécie de herói contra as injustiças da Previdência… Lamentável, no mínimo, ver toda essa desfaçatez de um governo que, bem sabemos, trabalha pesado para que não tenhamos pela frente nada parecido com um Estado capaz de honrar seus compromissos sociais, quanto menos garantir uma previdência social sólida. Juntando essas peças publicitárias e a campanha de Temer nos programas de televisão, só nos resta concluir que seus aliados estão cobrando caro para votar a favor da “reforma”: “convence o povão aí, faz bastante propaganda, daí a gente vê se a poeira baixa e vota isso logo”. A conversa entre eles deve ser assim. E a nossa?

Confiram lá: http://brasil.gov.br/reformadaprevidencia

 

[7] Quatro poemas no Literatura.br:

http://www.literaturabr.com/2018/02/07/poesia-de-tarso-de-melo/

 

[8] Ó aí, gente: curso que darei no CPF/SESC entre 8/3 e 5/4. Cinco encontros, às quintas, das 15h às 18h, para pensar um pouco sobre as políticas da/na poesia contemporânea: ler poemas, ler sobre os poemas, ler sobre o que os poemas leem. Vai ser divertido. Apareçam e, claro, ajudem a divulgar. Obrigado.

http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/poeticas-do-politico-politicas-da-poesia

 

[9] Já faz alguns anos que a Luzia Maninha fotografa uma janela (ou duas?) de um prédio perto de sua casa. E cada vez mais parece que essas imagens querem contar alguma história. Quase sem personagens, uns poucos objetos preenchem essa moldura de vida. Ou algo parecido com isso. O mais vivo dos museus. Enfim, roubei as fotos e vou tentando contar a história que elas sugerem. Vamos ver no que dá.

janelas

[15] Recado do Paulo Caetano: “Para quem se interessa pelas relações entre Literatura e Direito, poesia brasileira contemporânea, e pelo caso do Rafael Braga, vou deixar no 1º comentário o link de um ensaio recém saído do forno que escrevi com Clarissa Verçosa sobre ‘Toda sentença é um antipoema’, de Tarso de Melo. O texto fará parte de um livro organizado por Andityas Moura (Direito-UFMG). Agradeço a Vivian Vallory pela revisão. Quem não conseguir baixar sinalize que envio in box.”

https://ufmg.academia.edu/PauloCaetano/Drafts

 

[18] «Isaac Bábel disse» – é o que leio nesse livro interessantíssimo de James Wood, “A coisa mais próxima da vida” – «que ele poderia escrever a história de uma mulher se visse o conteúdo de sua bolsa». Gosto de pensar que isso é verdade, gosto de pensar que vale também para as bolsas (e bolsos) de homens. Que história sua bolsa conta?

 

[19] O general responsável pela intervenção militar no Rio de Janeiro declarou que é necessário dar aos militares “garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade”. Some-se a isso a informação sobre mandados genéricos, coletivos e prévios a qualquer investigação. Quando começamos a chamar de GOLPE a derrubada da presidenta eleita, o debate parecia dizer respeito ao que acontecia naquele momento: se o processo era legítimo ou apenas um artifício. Mas era claro que ia bem além disso: não se tratava apenas de “dar o golpe”, mas do “que fazer com o golpe”, dos objetivos que justificavam tomar o poder de modo tão escancaradamente antidemocrático. E, quanto a isso, também não resta mais dúvida: o golpe veio para tomar direitos sociais, livrar a cara de alguns políticos, deformar o Estado e seus compromissos constitucionais e, de quebra, retomar e/ou aprofundar as medidas de exceção que nunca deixaram de nos caracterizar, mesmo durante esses 30 anos de Constituição, mas que andavam, digamos, um pouco envergonhadas. Com a declaração do general, a vergonha acabou.

Do fb pra cá (janeiro 2018)

[3] CONVÉM DIZER

 

se eu tivesse um cachorro

o nome dele seria Uai Fai

 

[3] Pouco mais de uma década atrás, Roberto Jefferson era notícia ao abrir a caixa preta dos esquemas do “Mensalão”. Uns meses atrás, a filha de Roberto Jefferson, Cristiane Brasil, era notícia porque apareceu nas delações da Lava Jato reclamando da câmera instalada na sala em que, segundo o delator, recebeu 200 mil reais em dinheiro. Hoje, a notícia é bem diferente: Cristiane será ministra de Temer, indicada pelo pai, que, assim, pretende “resgatar o nome da família”. Não que isso assuste: a nova ministra estará completamente ambientada entre os diversos ministros de Temer que já foram delatados, denunciados, processados, presos etc. Tudo em casa, tudo deles. Não haverá protesto, não haverá nada parecido com a reação à famigerada nomeação de Lula como ministro de Dilma. Mas, a cada piada sem graça de Temer, uma coisa fica ainda mais evidente: o golpe não foi apenas dado em prol da corrupção, mas contando com a encenação empolgada de uma grande parcela da população brasileira que não liga, nem um pouquinho, para corrupção. Nunca ligou, não liga, não ligará. Quando pode – e muitas vezes pode – tirar proveito da corrupção, tira. Sem remorso. Mas, apesar disso, essa parcela fez as vezes de indignada com a camiseta da insuspeita CBF para dizer que o país estava sendo… passado a limpo. Entre eles, a deputada Cristiane Brasil, que foi votar pelo impeachment de Dilma com a camiseta da CBF, pouco depois de ter feito campanha para Aécio (chegou a ser detida em boca de urna) e pouco antes de votar a favor de Temer nas denúncias feitas pela JBS… enfim, pacote completo: Cristiane tem todas as credenciais de indignada contra a corrupção. Não é por acaso que, hoje, o nome do país se confunde com o sobrenome da filha de Roberto Jefferson.

 

[4] Escrevi ontem sobre a nomeação da nova ministra de Temer mais ou menos no mesmo clima de outros textos que faço aqui: para não engasgar com as notícias. Tão logo publiquei, fui assistir uma série gravada na Islândia, cheia de corrupção, morte e violências. Igual ao Brasil, mas com roteiro mais inteligente e, claro, neve por cima. Dormi com frio só de olhar tanta neve na tela. Hoje acordei e vi que meu textinho sobre a filha de Roberto Jefferson estava circulando bastante por aí.

Agradeço as curtidas e compartilhamentos, porque preciso mesmo desse ânimo para continuar ajudando na tarefa de entender e, se possível, enfraquecer essas figuras que ocupam posições de poder no Brasil. Não é absurdo almejar isso: se todos que se indignam tiverem coragem de romper – no discurso e na prática – com a lógica de que essas figuras se beneficiam, algum enfraquecimento da posição deles pode vir daí.

Não se trata apenas do jogo eleitoral, obviamente, mas há algo curioso aí: Cristiane Brasil foi eleita vereadora 3 vezes no Rio de Janeiro e, na eleição para o primeiro mandato como deputada federal, já em 2014, teve 81.817 votos. Quem são essas pessoas? Não sei, mas elas estão por aí (ou por aqui, já que, segundo dizem, mais da metade dos brasileiros tem facebook!). Bem sei que a máquina que elege os políticos é bem blindada contra as poucas armas “democráticas” que temos ao nosso alcance, mas temos que continuar tirando leite de pedra: buscando se informar da melhor maneira, escrevendo aqui, xingando ali, denunciando acolá, debatendo onde for possível.

Muita gente compartilhou meu texto dizendo “só mesmo no Brasil”, “este país não tem salvação”… mas estamos longe de ser exceção. O que vemos na política em todo o mundo não é mais do que diferentes configurações (institucionais, culturais etc.) para a mesma tentativa de lidar com a força do capital e seus caprichos. Às vezes fede mais, às vezes fede menos, mas é sempre bastante podre. Sob sol ou neve, aqui ou na Islândia, quem ganha o jogo é sempre o mesmo time, bem restrito, que não mora nem aqui nem lá, porque flutua pelo mundo corrompendo bem mais do que figuras como Michel Temer, Roberto Jefferson e Cristiane Brasil. Temos que lidar com aqueles, temos que lidar com estes. Temos que aproveitar a energia desses desejos de início de ano para lutar da melhor maneira possível contra aqueles e contra estes. Enquanto desejamos, bastante desconfiados, que nossos amigos tenham um 2018 feliz, essa turma toma medidas muito concretas para garantir um 2118 ou até um 2218 igualmente privilegiado para “os seus”, sem ligar muito para o que sobrará do mundo até lá. Não devemos aprender com eles: devemos fazer com que aprendam conosco. Mãos à obra.

 

[6] Temer vai mudar a Constituição para pedalar impunemente (lembram quando “pedaladas fiscais” eram imperdoáveis?). É mais um indicativo de que, neste ano decisivo, Temer, Maia e seus sócios vão bater todos os recordes de descaramento para blindar tudo que fizeram até aqui e, claro, o que pretendem continuar fazendo. Hoje ainda é 6 de janeiro e o noticiário de Brasília já tem tanta sujeira que não resta dúvida: o grande voto de ano novo para 2018 devia ter sido “Feliz ano novo e um estômago de aço”. Tim tim.

 

[8] (Escrever a partir do ponto em que se fundem a tensão da reportagem, o vigor do testemunho, a potência da filosofia e o salto da poesia. Não saber exatamente: explorar. Não definir: expor. Estranhar, entranhar. Escrever para desentranhar. Escrever.)

 

[9] Há Silvas e Silvas, bem sabemos. Há o Luís Inácio, mas apareceu aqui agora, para minha infelicidade, um tal de Aguinaldo, “telenovelista”. Ele aproveitou o Dia do Livro (?) para perguntar ao mundo se “alguma vez na vida ele leu algum livro?”. Adivinhem a quem Aguinaldo, do alto dos livros que deve ter lido, se refere? Ao outro Silva, o Luís Inácio, claro, que ele reconhece ser o “favorito nas pesquisas”. Nem vou entrar nessa discussão sobre identificar a leitura de livros com uma espécie de virtude (algumas das pessoas mais admiráveis que conheço leram muito, mas talvez menos do que alguns dos maiores escrotos que conheço). Só quero fazer um registro: entre os tantos méritos de Lula, que nenhuma sentença tem conseguido manchar, um dos mais destacados é o de fazer Aguinaldos perderem toda a compostura e gritarem seus preconceitos aos quatro cantos. “Quantos livros ele leu?”, pergunta Aguinaldo ao público que ele cativou não com livros, mas com telenovelas… para quê? Vocês sabem: para dizer que o lugar de quem não lê livros, seja Lula ou o telespectador da novela das 8, deve ser sempre subalterno no campo político. Da boca de Aguinaldo sai a voz de quem nunca foi subalterno ou, se foi, já engoliu este papel na triste novela que é a política brasileira. Simples assim. Faz 40 anos que Lula é notícia, aqui e no mundo. De uns 15 anos pra cá, sua figura se tornou ainda mais central, por força tanto de seus admiradores quanto de seus detratores, mas principalmente por força de sua atuação política. O que transtorna completamente os Aguinaldos é o fato de que Lula, depois de tanto trabalho midiático, judicial, político etc. para demoli-lo, chegue a 2018 com tanta força, como, nas palavras de Aguinaldo, “favorito nas pesquisas para futuro Presidente do Brasil”, depois de sair vencedor nas últimas quatro eleições… Por isso, o ano apenas começou e todas as esperanças dos Aguinaldos são antidemocráticas: que um processo judicial deixe na urna apenas os nomes dos candidatos de que Aguinaldos gostam. Vamos ver. Como não tem plena certeza dessa hipótese, Aguinaldo já aproveita para requentar os preconceitos que nunca diminuíram Lula (alguém já votou ou deixou de votar em Lula por causa dos livros que ele leu ou deixou de ler?). Enfim, alguns Silvas não apenas escrevem bons roteiros, mas fazem História com H maiúsculo. É o que veremos nos próximos capítulos.

 

[20] UM ROTEIRO

 

cruzar a linha do tempo no fio da navalha

 

entre os assuntos sobre os quais não tenho nada a dizer

e os assuntos sobre os quais passo bem sem dizer nada

entre as informações de que certamente não preciso

e as informações de que provavelmente não preciso

 

sair vivo e, quem sabe?, mais vivo

 

[20] (Os diários de Ricardo Emilio Piglia Renzi são melhor lidos como um livro de poemas, em que os poemas se encadeassem como as partes de um romance, mas fossem suficientes como diversos contos sobre o mesmo personagem ou vários textos críticos sobre o mesmo livro ou o diário de um crítico sobre os poemas que não consegue entender.)

 

[23] Dizem que Parra se foi. Parra nunca vai. Parra era foda. Continua sendo e será. Morreu aos 103 anos e, na saída, fez com que o algoritmo do facebook reunisse quase vinte postagens seguidas lamentando sua morte na linha do tempo deste seu leitor, na hora do almoço numa cidade da América Latina. Deve ter sido seu primeiro antipoema póstumo. O primeiro de muitos, infinitos. Viva Parra.

 

[23] A gente não sabia que ele pensava em fugir antes, mas o fato é que já estava no forno o primeiro VOZES VERSOS de 2018, tendo como homenageado justamente… Nicanor Parra! A Editora 34 lançará em breve uma antologia de poemas de Parra. Convidamos, então, a Joana Barossi para ler na Tapera Taperá algumas de suas versões para poemas de Parra, ao lado dos poetas Marília Garcia e Paulo Ferraz, que lerão seus poemas e, quem sabe?, traduções de outros poetas. Não bastasse tudo isso, devo lembrar que teremos, como de costume, as arquicobiçadas plaquetes artesanais da Editora Quelônio, desta vez com Parra/Joana, Marília e Paulo. Vai ser no dia 24/2, a partir das 11h. Já achou a agenda aí?

 

[23] ceifadeira, isso não se faz:

o parra podia ficar mais!

mas se precisar de poetas

para ajudar nas suas metas

temer e sarney cá estão

e falta, você sabe, não farão

 

[24] Aconteça o que acontecer, a luta continua. Deve continuar. O ano não acaba hoje, nem o Lula nem a história. Aliás, Lula e a história já “acabaram” tantas vezes… e não acabaram! Quem insiste nessa narrativa do “Dia D de Lula” é justamente quem quer que Lula acabe hoje, ou melhor, quem queria que Lula nem tivesse existido. Nunca, nunquinha. E, infelizmente, quem apoia Lula – e também quem sabe que está em jogo nesses processos bem mais do que Lula – embarca na polarização que, hoje, só deu mais um passo e que, creio eu, está longe de ser o último. Vamos seguir. Não nascem abacates nos pés de laranja… então é mesmo difícil que o Judiciário venha a ser a garantia da democracia, do povo, de tudo que não é o próprio Judiciário, sua (falta de) lógica e seus compromissos de classe. Mas isso também já não importa muito, porque ninguém mais acredita nesse processo enquanto questão puramente judicial. É política desde o início e foi se tornando cada vez mais escancaradamente política, a pior política, a mais rebaixada. Pergunte ao seu amiguinho que quer ver Lula condenado: não tem nada a ver com os atos cometidos até aqui. Seu desejo de punição olha para o futuro, para a eleição deste ano e para as próximas e para bem mais do que eleições. A imprensa fez e faz um esforço gigantesco para que a cara de Lula seja identificada apenas e tão-somente com crimes, corrupção etc., mas não colou e não parece que vai colar. Tanto é que foram precisos tantos processos judiciais para chegar até aqui, até a possibilidade de uma eleição sem a imensa sombra de Lula. Para a maioria dos candidatos, uma notinha de rodapé no jornal é o suficiente para desmontar qualquer pretensão eleitoral. No caso de Lula, a dose tem que ser gigantesca. E a cada mandato dos seus adversários, tantos são os ataques que cometem aos interesses do país e do povo, parece que Lula sai ainda maior. Temos que ir além de Lula, temos que construir outra esquerda, outras lutas, mas a bola da vez ainda é ele. Gostemos ou não.

 

[24] Vejo os amigos aqui, os “não jurídicos”, chocados com o baixo nível da linguagem, dos argumentos, do raciocínio no teatro judicial do dia. Sinto em informar, mas, dada a repercussão desse espetáculo, todos ali estão até caprichando. Podem crer. No dia a dia, a máquina tritura sem tanta cerimônia e num nível muito mais baixo do que todos estão vendo hoje.

 

[24] Quando o Corinthians perde, às vezes me dou ao trabalho de assistir à reapresentação do jogo para ver se sai um resultado diferente e chego a vibrar à espera de um gol nas jogadas que sei que, horas antes, deram errado. Pois bem, depois de ler que a Bandeirantes noticiou às 10h18 da manhã de hoje o resultado do julgamento de Lula, fico pensando se vale a pena continuar perdendo tempo com esse jogo…

 

[24] Às 10h18, a Bandeirantes divulgou o resultado do “julgamento”: 3 a 0. Agora, às 17h40, o terceiro desembargador confirma a manchete. Como sabíamos, desde o início, essa imprensa e várias instituições trabalham juntas na condenação de Lula. Venceram mais uma etapa, mas a luta — que não é “a favor de Lula”, mas contra o arbítrio daqueles que na imprensa e nas instituições defendem sem trégua e pudores os interesses dominantes e antidemocráticos — continua. Nas ruas. Sempre.

 

[25] Tudo tem um lado bom. O facebook, por exemplo, tem o botão “desfazer amizade”.

 

[26] O curioso caso dos militantes que acham que a filósofa deveria conversar com o fascistinha de meia tigela, mas não conseguem dialogar sem romper nem mesmo dentro do campo mais restrito a que pertencem… mais um indício, entre tantos desta semana, de que nós, da ampla esquerda, de vez em quando até saímos juntos à rua para lutar contra os inimigos, mas gostamos mesmo é de brigar dentro de casa. O fascistinha agradece, enquanto seus sócios ocupam posições de poder, perseguem as ideias alheias e aniquilam seus adversários. Sem dó, sem diálogo, sem trégua.

 

[27] Não foi só o Roberto Jefferson que conseguiu um emprego para a filha no “governo” Temer. Lembram do deputado Wladimir Costa, aquele que tatuou o nome de Temer no ombro, entre outras estripulias (confetes, desvios de verbas, nudes etc.)? Pois bem, o filho dele, Yorran Christie, estudante de 22 anos, acaba de ser nomeado gestor da Secretaria Nacional do Desenvolvimento Agrário. Vai ganhar uns 10 mil reais para cuidar de um orçamento na casa dos 100 milhões. Duvido que uma tatuagem de henna já tenha rendido tanto assim aos verões de vocês…

 

[29] Manhã de segunda-feira e já temos a grande notícia da semana ou do ano! Preciso estudar os detalhes, mas está aí um movimento muito significativo de correção dos estragos do neoliberalismo num dos seus principais laboratórios. Depois de tornar o ensino superior inviável para a maior parte dos chilenos e endividar uma boa parte das famílias, o Chile recorre à universalização do ensino superior público e gratuito. É muito importante refletir sobre isso tendo em mente os rumos que a educação superior (e também a saúde) tomou por aqui nos últimos anos, inchando a parcela privada e sufocando a pública. Um dia vamos ter que desfazer seus estragos também…

 

[29] Escárnio. Num só dia, somos expostos à radiação do vídeo do presidente num programa de auditório fazendo piada com dinheiro enquanto defende o desmanche da Previdência; do vídeo da ministra do trabalho desse mesmo presidente atacando a Justiça do Trabalho ao lado de amigos empresários num iate; e do deboche de um juiz que conseguiu no próprio Judiciário (ora bolas!) garantir o recebimento de dois auxílios-moradia (um seu e um de sua esposa, também juíza, num total de R$ 8.000,00 mensais) para morar na casa que é deles! Eu sei que a coisa por aqui sempre foi bagunçada, mas num dia assim a cota de desesperança bate recordes. E a luz no fim do túnel parece ser cada vez mais um trem vindo na nossa direção. Sem freio.

 

[30] Lembro sempre da biografia da Elza Soares: “Cantando para não enlouquecer”. Quando leio as manchetes dos jornais, as palavras grudam na minha cabeça: chacina epidemia corrupção acusação prisão doença abandono aumento crise eliminação ataque bomba demissão denúncia discriminação mal desconfiança dívida febre injustiça tensão ofensiva inflação vítima terror absurdo atentado boato morte guerra facção tiro infarto tiro ódio tiro. E você, que não canta como a Elza, o que tem feito?

 

[30] A contraofensiva de comunicação de Temer, definitivamente, vai passar pelo SBT. Temer foi ao show de calouros do Silvio Santos. Foi também ao programa do Ratinho. Se ainda existir a Banheira do Gugu, por favor, me protejam dessa informação.

 

[31] É normal essa euforia, à direita e à esquerda, dos “cenários sem Lula” para a eleição presidencial, mas é cedo demais para dizer que Lula está fora da eleição de outubro. Os tribunais podem até decidir qual será seu papel direto na eleição, mas não podem conter sua influência, que se dá não apenas na forma da chamada “transferência de voto”, porque se soma a outras reações populares ao descalabro que o país enfrenta e deve se agravar daqui até outubro. Na verdade, chego a crer que, dependendo do que acontecer nos tribunais e do que Temer conseguir destruir daqui até lá, a influência de Lula pode se tornar maior ainda. As pesquisas de hoje indicam que Lula, em diversos cenários, cresceu ou se manteve consistente depois da decisão do TRF. Também é cedo para dar peso demais a essas pesquisas, mas o fato é que Lula está longe de cair no abismo que tantos – há tanto tempo – cavam para ele.

 

[31] CANÇÃO DO AMOR ACADÊMICO

[para o Heitor, entre coisas imediatas]

 

rasguei o Lattes, meu amor

que já andava bem chinfrim

briguei na Capes, perdi o rumo

errei a ABNT do início ao fim

na minha cabeça nada de Qualis

até você voltar pra mim

Do fb pra cá (dezembro 2017)

[1] VAGÃO

 

mais alguém (com sua voz

rouca nos esgana) alguém mais

 

é qualidade na validade

leva três prestígio dois reais

é o fone samsung pra acabar

testa na hora só cinco reais

mais alguém alguém mais

 

só delícia é o poeme da ferrero

a novidade é o couro sintético

pode tacar fogo na carteirinha

dois reais é a unidade baixou

se você não levar o guarda leva

 

mais alguém (a mão invisível

do mercado) alguém mais

 

[2] MARIDO

 

num pode tê dinheiro

que fica virado no diabo

 

[3] como é que vou

dar de comer à tristeza

com tanto carinho?

 

[4] Ó, passei o domingo de aniversário preparando a ressaca da segunda (e prudentemente longe dos aparelhos eletrônicos), mas vou ler as mensagens todas. Muito obrigado mesmo pela amizade, pelo carinho, enfim, pelos combustíveis de que precisamos para seguir na luta. Beijabraços!

 

[5] Produtivismo. Um dos vetores da destruição da universidade no Brasil, em especial das ciências que já foram humanas. Espécie de inimigo íntimo, porque destrói talentos, inteligências, vocações e paixões numa velocidade impressionante. Somem-se aí a precarização estrutural do ensino público e a concentração acelerada no campo privado. Sinuca de bico.

 

[6] Dessas coisas incríveis que acontecem com os poemas. “Somália” foi escrito de supetão, num domingo à noite, e publicado aqui com uma imensa sequência de números, apontando uma a uma as mortes ocorridas em Mogadíscio naquele dia (e no dia seguinte outras tantas mortes foram confirmadas): contra nossa indiferença.

Na manhã seguinte, Luzia o transformou numa pequena plaquete-dobradura. À tarde, ele estava já circulando também na Modo De Usar & Co. e no whatsapp dos amigos, quando chegou até a Alice, que o incluiu na antologia “50 poemas de revolta”, lançada nesta semana pela Cia. das Letras.

E hoje recebi mais uma notícia incrível a seu respeito: “Somália” foi lido a várias vozes numa cervejaria em Florianópolis, no programa de rádio “Quinta Maldita”, comandado pelo Demétrio Panarotto. As vozes se sobrepondo, os ruídos ao fundo, uma barulheira linda para dar força ao poema. Gostei demais! O programa tem pouco mais de uma hora e vale a pena ouvir tudo; meu poema começa aos 48m30s.

Muito obrigado, Demétrio e todas as outras vozes de Desterro.

https://www.mixcloud.com/desterrocultural/quinta-maldita-13-di-versificar-ao-vivo/

 

[6] Agora foi na UFMG: a Polícia Federal levou, em condução coercitiva, os atuais reitor e vice-reitora, além de professores ligados às gestões anteriores, sob acusação de desvios nas obras do Museu da Anistia Política. Provado ou não qualquer desvio, o estardalhaço já atinge seus objetivos, como sempre. E simbolicamente manchando a reputação de um museu dedicado à luta pela democracia e, claro, da universidade pública. Já virou padrão: o espetáculo da perseguição policial antecipando desmanches, desmontes, desmandos… Toda denúncia, mais do que apontar que há problemas na universidade pública (e pode haver, claro), vem sempre tentando nos convencer que o problema é a universidade ser pública. Nós bem sabemos a quem isso interessa… e a luta para salvá-la, agora que seus inimigos estão no poder, nunca foi tão difícil. Venho repetindo mentalmente há alguns dias: as eleições de 2018 estão tão longe! Tão longe! “Por que meus amigos estão brigando por isso?”. Enquanto 2014 ainda se arrasta, como o marco de uma ruptura com as conquistas e promessas da Constituição de 1988. Não existe meio golpe.

 

[9] Terça, 12/12, a partir das 19h, teremos o último VOZES VERSOS de 2017. Faz exatamente um ano que Heitor e eu começamos a organizar essas leituras na Galeria Metrópole.

Nos 3 primeiros encontros, ainda na Setzer, participaram os poetas Fabio Weintraub, Jeanne Callegari, Júlia De Carvalho Hansen e Reuben Da Rocha; Iago Passos, Julia de Souza e Ruy Proença; Dalila Teles Veras, Renan Nuernberger e Lilian Aquino. De lá pra cá, depois da mudança para a Tapera Taperá, recebemos Annita Costa Malufe, Fabiano Calixto e Rita Barros; Cide Piquet, Júlia Studart e Manoel Ricardo de Lima; Alberto Bresciani, Ana Estaregui e Marceli Becker. Dá muito orgulho desse time, a que se juntam agora Marcos Siscar, Micheliny Verunschk e Thiago Ponce de Moraes.

E a lista de poetas que gostaríamos de trazer é imensa, porque cada encontro tem sido a confirmação de que precisamos de algo simples assim: ouvir a voz dos poetas, ouvir o que a poesia tem conseguido dizer em tempos tão duros. Ouvir.

Esperamos que em 2018 possamos multiplicar ainda mais essas vozes e esses versos, com a acolhida da Tapera Taperá e a parceria incrível da Editora Quelônio, que chegou com suas lindas plaquetes para que os versos encontrem outras vozes e outros ouvidos por aí.

Terça é dia de encher a casa: para comemorar nosso primeiro ano e dar força para o que virá. É só chegar.

 

[11] VOCÊ NÃO DEVIA ESTAR AQUI. Uma das coisas mais legais das redes sociais é ler textos que falam sobre como deveríamos ter uma vida longe das redes sociais. São os meus prediletos, ombro a ombro com as piadas sem sentido e as grandes explicações do Brasil e do sentido da vida. Mas a espécie de lição de moral embutida na crítica ao que os computadores fizeram conosco, sem dúvida, é das coisas que mais me interessam. O nível de contradição em que nos coloca chega a ser, digamos, tão engraçado e constrangedor quanto piadas sem sentido, o Brasil e o sentido da vida. Na semana passada mesmo circulou bastante aqui uma entrevista falando que “o celular é o novo cigarro” (palavras da socióloga Amber Case, que li na tela do celular). Eu – que não fumo, vocês já sabem – gostei do efeito dessa frase, ainda que veja aí um elogio que os celulares não fazem por merecer… Em resumo, o que nos dizem esses textos é que não deveríamos, nem mesmo, lê-los. “Você não devia estar aqui, agora, lendo isso”: é a máxima dos textões contra o universo em que os textões se disseminaram. Um livro sobre a importância da leitura? Até faz sentido. Um livro sobre os perigos de ficar demais na internet? Impertinente, mas faz algum sentido. Um post sobre os males dos posts? Aí já é sacanagem, principalmente quando o texto é bom e não apenas acusa a internet, mas também consegue nos lembrar de tudo que perdemos quando estamos com os olhos vidrados nas telas multicoloridas do smartphone e do notebook. Já cheguei a ler alguns desses textos escondido embaixo da mesa e outros tantos me fizeram remoer a vontade de enviar para os amigos. Chamá-los para ler quando acredito que viveriam melhor longe dos aparelhinhos eletrônicos? Sacanagem (como, provavelmente, devo estar fazendo agora…). E dezembro talvez seja o início da pior época para fazer isso com os amigos. Agora, por exemplo, entramos na época das férias. Segundo o Instituto DataTarso, nesta época há um aumento de 80% na circulação de fotos de praias e montanhas no facebook (o Instituto DataTarso não tem Instagram). É uma época sofrida para trabalhar, mas ainda mais sofrida para ficar à toa nas redes sociais. As distorções do algoritmo fazem parecer que todo mundo está tomando drinques no Caribe ou subindo o Everest. Você está ali, mofando, e vem uma enxurrada de “vida” na sua tela. Parece um comercial de previdência privada. Para minha desgraça pessoal, moro bem perto de uma loja gigante de equipamentos esportivos. Mesmo durante o ano, um dos meus esportes prediletos é andar pelos seus corredores assoviando “Ouro de tolo”. Aqueles caiaques lindos, barracas gigantes e roupas para equitação formam o melhor cenário para cantar “eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”. Junte a isso a euforia do Natal, o trânsito enlouquecedor e o cansaço do ano pesando sobre as costas, não é raro ter vontade de sair dali com um kit de montanhismo completo ou uma bicicleta preparada para cruzar a América Latina. Vontade, apenas. Então logo volto para o apartamento e troco de faixa o disco do Raul Seixas. Se essas lojas aceitassem o celular usado como forma de pagamento, seria o casamento perfeito. Enquanto não aceitam, ficamos assim, à mercê do cara que percebeu que “curtir a vida” podia ser transformado em “curtir as fotos da vida”. Esse cara, sim, era um grande sacana. Eu só quero o bem de vocês.

 

[12] Tem gente que já decretou o fim do ano, mas Michel Temer, para dar o exemplo de que a nação precisa, continua trabalhando: está sangrando os cofres públicos em mais alguns bilhões para fazer passar a “reforma” da Previdência, além de fazer acordos com o empresariado e deputados para que votem ainda em 2017. Um presidente que sabe ser inesquecível.

 

[12] Seria fácil encaixar na prateleira dos dramas um filme sobre um jovem de 21 anos que, de uma hora para outra, descobre que vai perder a visão dentro de poucos meses. Mais fácil ainda se você tiver acesso amplo ao tal jovem e às complicações de sua nova rotina. Mas Mariana Sousa não passou perto do caminho mais fácil no curta-documentário que apresentou como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo na PUC/SP, hoje à tarde.

A metáfora que mais me ocorreu durante aqueles 13 intensos minutos foi a de uma metamorfose. Mariana tinha tudo para ficar presa à história (que já seria muito bonita) da amizade entre Nana (que é como Nícolas a chama) e Ni (que é como ela o chama), mas embarcou no desafio de filmar uma transformação, trazendo pra tela apenas o mínimo necessário de passado e de futuro para que a metamorfose fosse vivida com toda intensidade pela sua plateia.

Na história de Nícolas não há lado de fora. E Mariana soube converter isso numa decisão estética, porque todas as tensões que se sucedem desde o diagnóstico reaparecem como tensões durante as cenas rápidas e embaçadas.

O filme começa com a imagem do céu e a voz de Nícolas explicando que tudo de repente perdeu a nitidez, que os contornos entre as cores passaram a ser a sua maneira de distinguir tudo aquilo que antes era puro detalhe diante dos olhos agudos de um estudante de cinema. Tudo foi perdendo a forma conhecida, não só o que antes era visto, mas também tudo que era vivido. E essa foi a grande sacada de Mariana: se nada mais tem a forma conhecida diante dos olhos, se nada mais na vida tem a mesma forma, não esperem desse filme a forma já conhecida dos filmes sobre doenças (daí também a perfeição do título escolhido!). Nada impede que seja feito um filme explicando a doença ou ajudando a viver depois dela, mas Mariana não foi por aí: fez um filme-abraço, um filme de alguém que queria apenas estar por perto (e com a câmera ligada) do Nícolas durante os redemoinhos que enfrenta há cerca de um ano e meio. Pode não ser a decisão mais fácil, mas certamente é a mais admirável e afetiva.

A força que conseguiu atingir com essa metamorfose na tela é impressionante. Nós todos ali choramos um pouco, mas saímos renovados também. Longe de ser triste, o filme de Mariana Sousa é uma festa para quem sabe que a vida não se dobra a projetos.

No fim da seção, depois das tentativas da banca de lidar com aquele abraço vivo e multiforme, Nícolas disse: “em dezembro passado eu dirigia”. Neste dezembro, no entanto, a começar pela sua amiga Mariana, não vai faltar quem queira estar ao seu lado nos caminhos que decidir seguir.

 

[13] VOZES VERSOS, 7 encontros e 22 poetas depois, foi uma grande festa! Ideal para encerrar um ano de tantas leituras, tantas conversas, tantas parcerias generosas (algum pernil & drinques, que nem só de vozes e versos vivemos!). Muito obrigado ao Heitor, parceiro de maluquice, e todo mundo que viabiliza esses encontros: Antonio e a equipe da Tapera Taperá; aos amigos Bruno e Silvia, pelo luxo chamado Editora Quelônio! Muito obrigado aos poetas todos que passaram por lá e, claro, ao público, que a cada encontro foi maior, mais vibrante, mais variado (inclusive com ilustres visitas interestaduais!). Que 2018 seja assim, abraçando mais gente ainda nessa coisa maluca que é fabricar alegria, inteligência e sensibilidade neste mundo. Beijabraços!

 

[13] Se quem tem os poderes de juiz pode adiantar o julgamento pra influenciar nas eleições, será que quem tem os poderes de eleitor (que, nesse joguinho da democracia, dizem que são os poderes todos) não poderia adiantar a eleição para atropelar qualquer julgamento que não seja o do povo?

 

[13] Ó, por ocasião do lançamento da antologia “50 poemas de revolta”, que já está à venda por aí, escrevi um pequeno texto sobre poesia e política para o blog da Companhia das Letras. Passem por lá, passeiem pela antologia.

http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Poeticas-do-politico-politicas-da-poesia

 

[14]  “Somália”:

http://cultura.estadao.com.br/blogs/bibliotecavertical/3-poemas-protesto-para-o-brasil-de-ontem-e-hoje/

 

[14] DUAS NOTAS E UMA TALVEZ PROMESSA

 

Para quem anda tentando pensar as diversas faces da relação entre poesia e política, saíram há pouco dois livros que não nos deixam cair no equívoco de que essa é, digamos, uma conversa indireta: “Poesias de luta na América Latina” (org. e trad. Jeff Vasques) e “Cantos à nossa posição: a poesia de Roque Dalton” (org. e trad. Jeff Vasques e Lucas Bronzatto) são um soco no estômago, porque reúnem a poesia escrita no calor da luta, no meio da militância, da guerrilha, das ameaças mais reais possíveis à integridade física de quem assina os versos. Não sou de me espantar com minha ignorância (porque sou fiel a ela!), mas, ao folhear esses livros, fiquei besta diante da quantidade de poetas de que sequer tinha ouvido falar. Poetas da Costa Rica, do Panamá, do Equador… mas também do país em que vivo e dos países de que temos mais notícias no continente. O trabalho de Jeff e Lucas coloca em cima da mesa um banquete que, muitas vezes, o debate sobre poesia rejeita. E não poderia haver momento mais propício, em que toda a América Latina se convulsiona com lutas e transformações parecidas com aquelas que esses poetas enfrentaram, para colocar essa pólvora toda em nosso caminho. Se quiserem os livros, entrem em contato com eles.

 

*

 

“O poema/ vem enquanto faço a barba/ ou lavo a louça/ ou afio a faca/ para o preparo do animal abatido”. Quando vi o nome de Daniel Francoy entre os vencedores do Jabuti deste ano não conhecia seus poemas, mas vi que o livro – “Identidade” – era da Editora Urutau, que só tem lançado coisas boas, e pensei: “deve merecer estar logo atrás de Simone Brantes e Luci Collin e à frente de tantos outros grandes livros que concorreram”. E era bem por aí mesmo. Nascido em 1979 em Ribeirão Preto, onde vive, Francoy escreveu um livro muito forte, muito bonito. Ainda não sei dizer por que acho isso, mas por enquanto me contento em dizer que gostei muito de seus poemas. Tem lá um tom mais elevado num ou noutro verso, mas tem também a rua, muita rua nos poemas. Tem o atrito entre esse cara que lê os grandes poetas e, de repente, se vê no meio da rua: Kaváfis na cabeça e os pés na lama. Acho que é disso que gostei.

 

*

 

(Ao fazer as notas acima, olhando outros tantos livros que estão aqui me chamando, pensei em prometer para 2018 escrever mais sistematicamente sobre os livros de poesia que têm saído. Digo: dar notícia desses livros todos, da parte dessa avalanche de livros que chegam por aqui, principalmente os de editoras pequenas, edições de autor etc. A ideia é simples: usar mais o blog, anotando impressões ligeiras sobre o contato com esses livros, sem a responsabilidade da crítica nem da resenha, mas ajudando de alguma forma a evitar que tudo isso se amontoe como uma outra forma de silêncio ao meu/nosso redor. Não sei se a vida vai deixar fazer, mas me parece uma tarefa urgente e importante. Assim como acontece nas nossas mesas e estantes, a sucessão veloz de livros tem um efeito terrível: o livro novo que chega ao mundo torna mais penosa e até improvável a leitura do anterior, porque coloca um peso ainda maior sobre as costas do leitor, que pode ser heroico, mas é finito. Nesse ambiente, até ficamos sabendo que saiu algo bom aqui ou ali, mas logo a informação é atropelada por outra e outra e outra. Deve haver algo que jogue luz sobre a singularidade de cada esforço poético/editorial desses. Não vai ser, é claro, apenas a minha modesta contribuição que dará conta disso, mas somando esforços aqui e ali a gente pode evitar que tantos autores e editores vejam com desgosto seu trabalho ir para o esquecimento. E tem muita gente fazendo coisas que merecem mesmo nossa atenção. Enfim: talvez eu prometa, talvez eu cumpra. Mas quem sabe algum ou alguns amigos assumam a tarefa por mim e/ou comigo… hehehe!)

 

[25] Demorei quase 5 anos para ver o filme sobre Hannah Arendt, mas acho que vi num bom momento. A fusão entre rigor intelectual e vigor político, a obstinação de repórter, a relação com os editores da New Yorker, os atritos com seu círculo mais próximo de amigos, as múltiplas perseguições, a acusação de antissemitismo… parei o filme algumas vezes para ler partes dos seus livros, talvez com mais admiração do que antes. Arendt se formou e escreveu em tempos sombrios. O filme mostra que, em sua vida, tempos sombrios não foram apenas os da Europa, fugindo do nazismo. E é incrível como a perseguição a Arendt depois da publicação dos artigos sobre o julgamento de Eichmann – vinda de vizinhos, amigos, colegas de universidade, leitores (e não-leitores) da revista, autoridades de Israel etc. – lembra nossos tempos e suas sombras pesadas. E lembra também o peso das tarefas que intelectuais têm à frente em tempos assim. No mínimo, a Arendt do filme e, claro, dos livros segue como um grande exemplo.

 

[27] o grande projeto 2018 : tirar o violão do saco : fazer o bichinho cantar : tá ali, parece um latifúndio improdutivo : cheio de sons e quieto : pura potência sem ato : pra botar umas notas no ar : pra fazer o som dançar em volta das outras ideias : e de ideia nenhuma

https://www.youtube.com/watch?v=9OlOUoHxbU0

 

[27] A Estante Virtual já havia acabado com um dos prazeres de ir ao sebo: o lema dos ratos de sebo sempre foi “o livro certo no lugar errado”. E isso porque era ali, garimpando na poeira mais improvável, que você encontrava livros incríveis por preços irrisórios. Desde que a Estante Virtual chegou, a coisa mais comum era o sebo virtual fixar seus preços pela média cada vez mais assustadora do mercado, um puxando o outro para cima, e, de outro lado, o sebo ainda físico (com ou sem conta da Estante Virtual) não colocar preços nos livros e fazer a cotação ali, na cara do leitor, consultando a internet e meio que adivinhando o tipo de sacrifício a que o pobre coitado do leitor está disposto (lembrando um velho sebo em São Paulo, que tinha o acervo mais completo e as práticas mais cruéis: o preço era definido de acordo com a fissura que o cliente demonstrava diante dos olhos espertos do vendedor). Agora iremos para outra fase, em que a sorte do leitor dependerá do quanto essas empresas gigantes (Cultura e Amazon) estiverem dispostas a derrubar o preço para concorrer entre si. Quem será estrangulada, obviamente, é toda a rede de que os livros dependem, a começar pelo autor e terminar no leitor, passando por editores, tradutores, revisores, gráficas etc. Tudo indica que a mão invisível do mercado vai deixar manchas nos livros.

 

[28] Feliz aqui revendo o que ajudei a colocar no papel, com tantos amigos envolvidos, como um rastro bom do ano que termina. 2018 pede mais. E já vem vindo.

livros

 

[28] TEMP(L)O

 

longe

de ser

o monge

que

admiro

 

perto

de saber

o certo

:

respiro

 

[29] “Carpe diem” na Escamandro:

https://escamandro.wordpress.com/2017/12/29/carpe-diem-28-versoes-2-por-matheus-mavericco/

 

[30] Mané me manda um áudio de Júlia cantando e eu pergunto quem fez aquela coisa tão bonita. “Rodrigo Campos, ouça esse menino”. Obediente, corro pra ouvir. E descubro que já o ouvia em Criolo, Emicida, Elza Soares… e eu vim aqui só pra repetir pra vocês o conselho de Mané: ouçam esse menino. Reouçam.

 

[30] Se eu ganhar a Mega da Virada, vou presentear 100 amigos. Metade com esteiras ergométricas, metade com bicicletas ergométricas. Torçam por mim.

 

[31] SALUT

 

brindar sem beber

dez anos sem temer

 

beber sem brindar

dez anos sem gilmar

 

ou melhor

 

SALUT

 

brindar sem beber

dez anos de temer

 

beber sem brindar

dez anos de gilmar

Do fb pra cá (novembro 2017)

[1] O som do lápis no papel: música.

 

[2] Descondecorações

(com a Dalila: contra)

 

aos ilustríssimos canalhas

e seu séquito decrépito

do fundo do meu fígado

dedico tudo isso:

antitítulo de descidadão

desonra ao demérito

contramedalha de desdouro

menção desonrosa

votos de profundo desprezo

e respeito algum

 

[3] Muito legal esse conceito de transparência: “A Transparência não divulga os nomes, alegando sigilo”. E segue a luta de Temer contra a corrupção, ops, contra a investigação da corrupção…

 

[7] “Judith Butler vá para o inferno” num cartaz para protestar contra sua vinda ao Brasil é, neste contexto, bem contraditório. O inferno é aqui (não só aqui). O inferno da intolerância, da ignorância, do fascismo. O inferno dos ouvidos tapados e das bocas ligeiras. E, se deixarmos, essa turma da bíblia & bumbo aprofundará o triste inferno que tem sido este país. Há pouco tempo seria inimaginável um protesto público contra uma palestra de filosofia, seja de que tema for, simplesmente porque, em regra, se despreza a contribuição da filosofia, mesmo em circuitos acadêmicos mais amplos. Mas de uns tempos para cá o inimaginável tem sido estampado nos jornais todo dia. O inimaginável está na nossa testa. Há pouco, não havia o risco de alguém juntar sua turma numa terça de manhã para protestar contra alguma programação do SESC, muito menos contra as ideias de filósofos normalmente citados em círculos muito restritos, especializados e, não raro, herméticos. Essa parecia ser uma fronteira que se sustentava, infelizmente, pelas diversas razões do afastamento entre a produção intelectual e a maioria da população no Brasil. Se, na melhor das perspectivas, lutávamos e lutamos para acabar com esse abismo, sempre foi acreditando que a ponte inevitável seria democratizar o acesso a essas ideias, com muita leitura, debate etc., para fortalecê-las e, com isso, avançar concretamente nas políticas públicas. Mas, aqui no inferno, demos um salto sobre o abismo: a disputa em torno dessas ideias se dá entre um grupo que as conhece (ainda não que não as defenda, coisa natural no – e apenas no – campo democrático) e um que as despreza, na linha do “não vi, não gostei e tenho raiva de quem viu e/ou gosta”. Com essa barricada de ignorância se erguendo nas ruas, confesso, é cada vez mais difícil enxergar algum aspecto positivo. Aliás, como disse Judith Butler numa entrevista recente: “Me sinto muito triste com tudo isso, já que a postura de ódio e censura está baseada no medo, medo das mudanças, medo de deixar os outros viverem de uma maneira diferente da sua. Porém, é essa habilidade de viver com a diferença entre todos nós o que irá nos sustentar a longo prazo”. Ou seja: apesar de tantos pesares, temos que seguir. Não temos opção.

 

[9] Sonhei que tinha um canal na TV em que assistíamos, 24 horas por dia, a tudo – TUDO! – que não vai ao ar na Globo.

 

[9] “Coisa de preto”, aliás, só faz sentido como ofensa na cabeça de gente muito ignorante, porque grande parte das “coisas” mais admiráveis que conhecemos são, por assim dizer, “de preto”. E não estou falando de artes e esportes, porque aí já seria humilhação.

 

[10] SONETO-ABORTO

(ou 18 razões para você entender

que nem tudo deve vir à luz)

 

Antônio Jácome (Podemos-RN)

Diego Garcia (PHS-PR)

Eros Biondini (PROS-MG)

Evandro Gussi (PV-SP)

 

Flavinho (PSB-SP)

Gilberto Nascimento (PSC-SP)

Jefferson Campos (PSD-SP)

João Campos (PRB-GO)

 

Joaquim Passarinho (PSD-PA)

Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP)

Leonardo Quintão (PMDB-MG)

 

Marcos Soares (DEM-RJ)

Pastor Eurico (PHS-PE)

Paulo Freire (PR-SP)

 

CODA:

 

Alan Rick (DEM-AC)

Givaldo Carimbão (PHS-AL)

Mauro Pereira (PMDB-RS)

Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ)

 

[11] uen iu gat nafin

iu gat nafin tu luze

 

[11] 《Pelo bem do País, Lula deve morrer.》Eu não sei quem é esse Mario Vitor Rodrigues, tampouco deveria divulgar sua demonstração constrangedora de desespero (muito menos o nível de escrotidão a que essa revista está disposta para vender mais alguns exemplares). Mas ainda acho que, toda vez que a imprensa consegue ser mais podre que as piores conversas de bar, temos o dever de acusar. Além disso, me parece haver uma espécie de elogio às avessas e declaração de amor ao Lula num texto assim. Se eu fosse o Lula, pediria para o Mario Vitor praguejar mais. “Pragueja, Mario Vitor, pragueja, mas não morre, não, pra ver como sua opinião (não) importa”.

 

[12] Gente, vou insistir nisso aqui… comprem, leiam e divulguem o livro. São 60 reais, mas tem quase 700 páginas repletas de reflexões sobre cada aspecto da legislação trabalhista (individual, coletiva, processual) atacada pela “reforma”. Como digo no texto da orelha do livro, “não é um livro para ser lido e colocado na estante, longe dos novos conflitos que os trabalhadores enfrentarão a partir de agora. É um livro vivo, um livro para ser lido e relido e carregado para todos os lados. Um livro a ser reescrito pelos seus leitores diante de cada ofensa aos direitos dos trabalhadores. Um livro para ser multiplicado pela ação combativa de todos aqueles e todas aquelas que entendem a importância dos direitos sociais.”

https://expressaopopular.com.br/loja/produto/resistencia-aportes-teoricos-contra-o-retrocesso-trabalhista/

 

[12] E ontem também nasceu outro livrão vermelho fundamental para o nosso tempo: “Golpe: antologia-manifesto”. Grande-grande trabalho de Ana Rüsche, Carla Kinzo, Lilian Aquino, Lubi Prates e Stefani Marion, reunindo trabalhos de mais de 100 autores, com apresentação de Marcia Tiburi e orelha de ninguém menos que Dilma Rousseff. Para comprar, procure a nosotros, editorial.

 

[12] Vocês repararam que CRIME cometido por amigo do Gilmar Mendes é sempre um ERRO (do amigo dele ou, principalmente, de quem o acusa)? Bonito isso.

 

[13] Li a notícia sobre a doença (profissional?) de Alexandre Frota e já ia fazer piada… mas não se brinca com essas coisas. Frota não pode mais endurecer as críticas, levantar suas bandeiras, erguer-se contra injustiças. Sem ele, o poder de penetração do MBL é bem menor. Não dá pra fazer piada.

 

[14] O STF decidiu hoje que quem é acusado de crimes junto com Aécio Neves não apenas tem direito à prisão domiciliar gourmet, mas também tem foro privilegiado top/vip. Por quê? Porque tem. Segundo esse entendimento, nenhum juiz de camisa preta em Curitiba poderia julgar ninguém que cometeu crimes em conexão com quem tem foro privilegiado no STF? Não. Por quê? Porque sim. Bom feriado.

 

[16] Noite perfeita para o Corinthians é aquela em que quase tudo dá errado. O Grêmio bate o São Paulo e faz a alegria de todos que, com o campeonato 99% definido, ainda assim queriam o adiamento do título para outra rodada. O Fluminense entra em campo e faz um gol no primeiro lance do jogo, diante de 45 mil corintianos, jogando água na cerveja sem álcool da moçada. E todo o primeiro tempo se arrasta sem outro gol, para alegria dos comentaristas que ficaram lembrando as limitações do time para criar, atacar, reagir etc. Mas começa o segundo tempo e é um outro time que vem dos vestiários, capaz de sufocar quem parecia que ia estragar a festa. Parecia. E, no fim da noite, toda aquela possibilidade de dar errado foi engolida pelo grito enlouquecido de quem não sabe nem quer explicar o que sente por esse time, pelo único Timão.

 

[17] Imagina que louco se toda, toda, toda prisão ou qualquer punição tivesse que ser confirmada pelos brothers do acusado? Pois é…

 

[18] CONTRA(GANDRA)

 

(não sou) negro

(não sou) homossexual

(não sou) índio

(não sou) assaltante

(não sou) guerrilheiro

(não sou) sem terras

 

como faço para não

morrer (viver?) no Brasil

nos dias atuais?

 

[18] “Canto” em catalão, por Joan Navarro:

 

CANTO

 

com os pés descalços sobre o país em que nasci

arrasto ideias como correntes de um canto a outro do território

que cabe em minha mente e caio caio caio

arrasto o peito nas inscrições que o passado deixou em cada pedra

espalho o sangue dos ancestrais que desconheço

escrevo inscrevo gravo guardo os segundos nas mangas de mágico

da camisa intocável que resiste ao arrasto

pela geografia desses solavancos em que meu canto quieto pasto

 

Tarso de Melo, “Íntimo desabrigo”, Dobra Editorial & Alpharrabio Edições, 2017.

 

CANT

 

amb els peus descalços sobre el país on vaig nàixer

arrossego idees com corrents d’un costat a l’altre del territori

que cap en la meva ment i caic caic caic

arrossego el pit per les inscripcions que el passat deixà en cada pedra

escampo la sang dels avantpassats que desconec

escric inscric gravo guardo els segons en les mànigues del mag

de la camisa intocable que resisteix al ròssec

per la geografia d’aquestes sotragades on el meu cant quiet pasturo

 

[20] Nunca imaginei estar no mesmo volume dos poetas que estão em “50 poemas de revolta”, mas agora em dezembro terei um poema atrás dessa capa: se não tiver outra razão, revolta tem de sobra.

https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14437

 

[21] O comando da Polícia Federal foi definido não apenas por Michel Temer e Romero Jucá, que bem deveriam estar do outro lado da relação polícia/ladrão. Além deles, o chefão da PF teve o aval de José Sarney. Sim, Sarney, aquele poeta que dá suas ordens em Brasília desde 1955. Ponte para o futuro.

 

[22] Três poemas na revista Gueto:

https://revistagueto.com/2017/11/22/tres-poemas-28/

 

[22] Liquidação. Não se assuste se Temer aproveitar a black friday para pechinchar uns deputados e passar a “reforma” da Previdência.

 

[22] (Pensando à toa com meus botões… seria muito interessante se as fotos dos autores, nas capas ou dentro dos livros, fossem da época em que os livros foram escritos. Mario Quintana, por exemplo, que escreveu e publicou desde muito novo, aparece nos livros, normalmente, com a figura do velhinho poeta: não duvido que, por causa das fotos, exista quem imagine que toda a obra de Quintana foi escrita por aquele velhinho simpático e chegue a ouvir a voz do velho Quintana em cada poema da juventude e de outras fases da sua longa vida. Outro exemplo: Marx e Engels escreveram o “Manifesto Comunista” quando não tinham nem 30 anos, mas na maioria das edições vem em destaque a imagem dos dois barbudos já com mais de 50, 60 anos. Com vários outros autores tem sido assim. Acho curioso isso, cria algum estranhamento: “ele é o autor desse livro?”… Mas deixem pra lá, avisei que estava pensando à toa… boa noite!)

 

[23] Governos mentem. Propagandas, em geral, mentem. Sempre mentiram, continuarão mentindo. Não foi Temer quem inventou. Mas a propaganda do “governo Temer” sobre a “modernização trabalhista” e o “fim dos privilégios na Previdência” é um soco no estômago. Seu discurso sobre as vantagens dessas medidas — lá, gerar mais e melhores empregos; aqui, sobrar mais dinheiro para investir em saúde e educação — é tão distante da realidade que… faltam palavras! Quem está atento e honesto sabe que: (1) não, não virão empregos melhores daí; (2) nenhum verdadeiro privilégio será atingido com esses cortes na Previdência; e (3) nada disso afetará os compromissos desse “governo” quanto ao sucateamento da saúde e da educação públicas. É contra essas constatações que se esforça a propaganda de Temer, Maia et caterva. É a partir delas que devemos julgá-los: canalhas.

 

[23] Quando o Estadão alcança o absurdo de divulgar, na manchete, os números da aprovação do apresentador Luciano Huck como se fossem números de sua aprovação como candidato à presidência, não é apenas uma forma marota e escrota de fazer jornalismo. É a expressão de um desejo profundo de que a imagem construída no programa de tevê passe diretamente para as urnas, sem qualquer questionamento a respeito da capacidade e, principalmente, dos compromissos políticos e empresariais que a candidatura de Huck representa. Não é conveniente lembrar que Huck, muito mais do que o cara que coloca dinheiro em cima de um pau de sebo para que endividados tentem alcançar para pagar seus boletos vencidos exibidos ao vivo na tevê, é o parça de Cabral, Aécio e, claro, agente da própria Globo. Não resisto: loucura, loucura, loucura! O jornalismo dessas manchetes, bem sabemos, é porco. Não há surpresa nisso. Mas já é também o indicativo dos níveis de mistificação a que essas empresas de comunicação continuam dispostas e, claro, explorarão doentiamente em 2018, em favor de seus candidatos de estimação. Deu certo com Doria, mas campanha e mandato estão bem longe de ser a mesma coisa (aliás, alguém viu o Doria vestido de gari nos últimos meses?). É a partir da análise do mandato de Doria, por exemplo, que podemos começar a crítica do projeto político que é defendido por famílias como as do Estadão e da Globo. Se souberem de algo que eles defendem que não sejam seus próprios interesses, talvez exista algum motivo para respeitar as opiniões que emitem (enquanto omitem tantas outras…), com mais ou menos maquiagem de notícia. Sabem?

 

[24] Alucinação: o programa do PMDB diz que o “governo Temer” já conseguiu deixar mais barato “viver, comer e morar”. Na sequência, entra o programa do Solidariedade e Paulinho da Força critica a “reforma” da Previdência “em defesa do povo”. Se existisse detector de mentira para comercial, o aparelho explodia.

 

[28] se o fogo comesse

todos seus livros

qual seria o primeiro

da nova coleção?

 

[28] Ritmo

 

morar no mato

da mente

rolar nos rios

do corpo subir

o morro

da alma ver tudo

lá de cima

 

[29] Todo ano tem a festa dos livros na USP: uma espécie de cracolândia para os biblioadictos. Durante dois, três dias, ficamos como zumbis disputando ombro a ombro (literalmente) aquelas pilhas de livros, sem ligar para nada: para quem nos olha com desprezo e parece perguntar “vai ler tudo isso?”, para a realidade dos extratos bancários e das faturas de cartão de crédito, para o suor intenso, para as cotoveladas nas costelas, para a fome, a sede, o cansaço. Quase todo bom senso e quase toda dignidade sucumbem diante daquelas bancas. Não duvido, aliás, que naquele tempo e espaço se concentrem as principais atividades físicas realizadas por estudantes, pesquisadores e professores durante todo o ano: caminhadas extenuantes e halterofilismo com obstáculos, práticas raras na vida ociosa dos leitores. De uns anos pra cá, talvez porque olhe com algum desgosto para livros bestas que comprei lá na empolgação, cheguei até a faltar numa ou outra edição. Na do ano passado, se bem me lembro, comprei apenas 2 livros. Voltei de lá com a sensação de que era possível ser senhor do próprio desejo no meio daquelas tentações todas. Mesmo quando encontrei aquele amigo que, abrindo um pouco a sacola abarrotada, mostrou um livro e perguntou com voz de aliciador: “comprou esse aqui? tá 10 reais!” Dureza. Enfim, prometi não ir em 2017. Não pretendo descumprir a promessa, mas vocês ficam postando fotos das pilhas de livros que compraram… vocês não prestam!

 

[29] Dias atrás, quando soube que o poesia.net estava completando 15 anos, escrevi uma mensagem para o Carlos Machado (abaixo): mais que parabenizar, eu agradecia pelos serviços prestados. Além da alegria de ter lido seus boletins durante todo esse tempo, tive outra: ter poemas publicados no boletim 31, em 2003. E, para minha surpresa, hoje tive mais uma: o boletim 390 de poesia.net traz novamente a carinhosa atenção de Machadinho com 5 poemas meus. Entre 2003 e 2017, só aumentou a honra de contar com a amizade de um leitor e poeta tão especial – e especialmente generoso. Visitem:

http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet390.htm

 

PS: «Machado: é bem provável que eu conheça o poesia.net desde o primeiro número. Estou puxando aqui da memória e acho que seu trabalho vem junto com meus primeiros momentos de utilização cotidiana do e-mail. Desde aquela época, já era normal contar com o ouro dos poemas bem selecionados e apresentados por você caindo na tela junto com a infinidade de outras mensagens, correntes e propagandas que migravam para o mundo eletrônico. E tanta coisa se sobrepôs de lá pra cá: chegaram as redes sociais, os computadores foram parar dentro do bolso, a quantidade de informação que chega é cada vez mais uma avalanche… e ainda assim o poesia.net resiste como um oásis de qualidade e confiança na edição carinhosa que você faz. Exemplifico: vira e mexe, procuro poemas na internet para enviar a alguém, usar em oficinas, republicar aqui e ali… A maior parte do que encontro nas primeiras buscas vem cheia de erros… mas, quando me deparo com esse poema publicado por você, acabou imediatamente a busca: sei que ali está a versão mais cuidadosa do poema. Parece pouco, mas é para mim o indicativo da importância do trabalho que você tem feito com distinção nesses 15 anos. Há muita gente embalando no (e amplificando o) barulho da internet com poemas (e isso vale para muitas outras coisas), mas meus heróis são aqueles que conseguem aproveitar o ritmo e as facilidades da internet sem abrir mão do carinho, do cuidado, da precisão editorial que a leitura dos poemas exige. Muita gratidão e desejos de vida longa ao poesia.net!»

— para ler outros depoimentos de leitores do poesia.net, entre aqui: http://www.algumapoesia.com.br/15anos/leitores1.htm

 

[30] BIBLIO. Alguém me contou do amigo que arrancava páginas do João Cabral em papel-bíblia para fumar um baseado. Pirei. Não era o papel, muito menos a “bíblia”, mas o aguilhão do eterno retorno aos poemas adorados: como faz pra viver, um dia que seja, sem as pedras de Cabral perto da mão? E esse nó só se apertou desde então: os livros, não por eles, mas pelo que, neles, nos leva além deles, cada vez mais além. Falei outro dia aqui sobre incêndio de livros e recomeçar a biblioteca pessoal. Falei ontem da tara pelos livros com desconto. Fiquei pensando na reação dos amigos e caí para dentro da memória. Anos 1990. Já tinha ouvido falar desse lance de poesia, mas o papo agora chega de outro jeito. Sem aula, sem prova, sem prosa. Curtir os poemas. Ponto. Ler e, ao final, dizer: foda! Juntar as peças de um quebra-cabeça infinito, sem bordas, sem moldura. A fome era grande e a receita era simples: correr atrás. E correr para todos os lados. Passar todas as horas livres dentro de sebos, livrarias e bibliotecas, tirar xerox dos livros que os amigos carregavam, encomendar os livros de que ouviu falar. Ter sempre uma fita cassete para pedir a alguém que gravasse aquela poesia toda de que lançava fragmentos no ar. Pegar o vírus sem cura do preciso-ler-ver-ouvir-isso. Feliz-triste condenação. Transformar os bares, cafés, restaurantes em salas de aula da universidade desconhecida. Ficar famoso na porta dos lugares em que havia livros. Louco do bairro. Ver nos sebos, livrarias e bibliotecas um parque de diversões difícil de explicar aos demais (mergulhar, por exemplo, durante semanas, no porão da hemeroteca pública para copiar todas as resenhas que Leminski assinou numa revista que ainda hoje, por trás do mesmo nome, se arrasta com cheiro de podre). Querer conhecer os livros de que as pessoas falavam. Querer conhecer as pessoas de que os livros falavam. Tudo que ler, ver, ouvir, viver, fazer: tudo passa a ser parte de uma espécie de treinamento maluco para ler de modo mais completo e livre. Completo porque livre. E vice-versa. Ficar uma madrugada tentando entender porque alguém disse que tudo existe para acabar num livro. Ficar outra madrugada pensando que, na verdade, tudo parece ter começado num livro. E, depois, passar todas as outras madrugadas acreditando que nem livro nem nada começa nem termina. Que tudo existe. E vai passando. Os livros e a vida. Uns para a outra. E vice-versa. Sempre. Cada vez mais apaixonado por livros. Cada vez menos bibliófilo.

Do fb pra cá (outubro 2017)

[2] Soube agora que István Mészáros (1930-2017) morreu ontem. É sempre uma péssima notícia quando uma inteligência militante desse tamanho nos abandona (ainda mais quando precisamos tanto de inteligências militantes!), mas Mészáros vai continuar merecendo mais aplausos que lágrimas de todos aqueles que passaram as últimas décadas e passarão ainda muito tempo aprendendo com seus textos e, mais que tudo, sendo instigados a pensar radicalmente sobre a barbárie de nosso tempo e a atuar para a construção de uma sociedade, como ele diria, para além do capital. Seus tantos livros ficarão por aqui ainda como ferramentas fundamentais para as gerações que se defrontam, cada vez mais urgentemente, com a pergunta que inspirou um de seus últimos trabalhos: “quanto tempo pode a perversa normalidade de uma ordem socioeconômica e política antagônica, com sua irreprimível tendência de afirmação global de seu domínio, manter sua dominação sem destruir a própria humanidade?” (“A montanha que devemos conquistar”, Boitempo, 2015).

 

[4] Já está no ar o Suplemento Pernambuco de outubro. Escrevi sobre a antologia “Dádiva devolvida”, do Carlos Felipe Moisés, pensando um pouco sobre a poesia que nos deixou. No site você consegue baixar o pdf integral, com muita coisa boa para ler, como sempre.

http://www.suplementopernambuco.com.br/artigos/1967-carlos-felipe-mois%C3%A9s-e-seus-poemas-d%C3%A1diva.html

 

[5] Já perto do final desse filme incrível que é “O filho da noiva”, a cena em que Rafael Belvedere (Ricardo Darín), numa loja do Burger King, lê o poema que sua filha escreveu e pergunta a si mesmo, baixinho, “por que não li isso antes?”: parece-me que essa é a pergunta que todo poema gostaria de estourar na cabeça do seu leitor.

 

[6] O único mérito dos inimigos é nos lembrar do que defender. Cada alvo que eles escolhem ganha o aviso indisfarçável da importância que aquilo tem para nós. Os direitos de quem trabalha, a terra para quem trabalha, a casa de quem não tem, a proteção aos mais frágeis, a escola e a universidade públicas, os hospitais e o serviços públicos. As ruas, as praças, o transporte: públicos. A vida sem taxas, sem carimbos, sem credenciais. A arte mais difícil de engolir, as ideias mais difíceis de engomar. As imagens mais incômodas, os sons mais insuportáveis, as palavras mais indigestas. O que é justo, o que é livre, o que é torto. É simples: quando os inimigos atacam, dizem a seu modo escroto que devemos cuidar daquilo. Nosso erro é esperar que eles ataquem, deixar que eles ataquem, tentar convencê-los – com os mais lindos e profundos argumentos – que não deveriam nos atacar. Nossa experiência recente não deixa dúvida: eles riem dos nossos gritos. Mais do que tentar convencê-los da importância disso ou daquilo, devemos nos antecipar a seus ataques, reconhecendo o que é realmente importante para a sociedade que gostaríamos de construir e criar formas de proteger quem está no mesmo lado dessa trincheira. Tem gente por aí que já faz isso há mais tempo. Temos que nos juntar a eles, aprender com eles, crescer junto com eles. É um chamado antigo, mas tem sido mais e mais urgente. Vamos.

 

[6] Amanhã: sábado. A previsão do tempo fala em calor, sol, nuvens, talvez um pouco de chuva à tarde. Nada que desanime. A praça Dom José Gaspar é uma pequena maravilha no centro da cidade: fácil de chegar, fácil de ir dali pra qualquer canto. Tem a Tapera Taperá no segundo andar da Galeria Metrópole. Tem a feijoada e o pagode, tem outros comes e bebes, tem tudo ali por perto. Não bastassem essas credenciais para convidá-los para o “Vozes, Versos” de amanhã, tem a presença de Cide Piquet, Júlia Studart e Manoel Ricardo de Lima. Tem a poesia deles no ar, na voz dos próprios poetas, e tem também as plaquetes da Editora Quelônio pra levar pra casa. E são de graça as 40 primeiras! Isso mesmo: grátis, gratuitas, no vasco, na faixa, francas, free, só pegar. E 11 horas não é tão cedo assim, vai?

 

[8] Ontem, quando acordei e vi aquela chuva toda, pensei que o “Vozes, Versos” iria literalmente por água abaixo. Mas, assim como o tempo em SP, a poesia e os amigos sempre têm algo de imprevisível. E tivemos um encontro incrível na Tapera Taperá, com um montão de gente ouvindo os poemas, rindo com o pequeno Teo, se encantando com as plaquetes da Editora Quelônio, com tudo. Foi lindo. Muito obrigado a todos.

 

[9] Muito bacana essa matéria (em duas partes). A música é linda, com ou sem fé, e José Hamilton Ribeiro submete Renato Teixeira às perguntas que o poeta mais teme: o que você quis dizer com isso? O que significa essa palavra? Em qual desses significados você estava pensando? Mas a perseguição dos versos pelos caminhos dos romeiros é bonita demais. Neste país de tristezas colossais, nossa música realmente é uma alegria sem fim.

http://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2017/10/globo-rural-conta-historia-da-musica-romaria-de-renato-teixeira.html

 

[10] (No campo político, do Brasil e do mundo, não temos mais motivo para subestimar nada do que se apresenta do lado direito. A grande tarefa é tornar concretamente insubestimável toda ideia, toda ação, toda força que venha da esquerda. Da esquerda mesmo.)

 

[14] “Lavoura” na revista Lavoura:

https://www.yumpu.com/pt/document/view/59473745/revista-lavoura-n2

 

[15] «Não deixes que nenhum pensamento passe por ti incógnito, e usa o teu bloco de notas com o mesmo rigor com que os serviços oficiais fazem o registo de estrangeiros. […] A fala conquista o pensamento, mas a escrita domina-o.» [Walter Benjamin, “Rua de Sentido Único”, trad. João Barrento]

 

[16] Poesia é coisa curiosa. Chegou aqui “Trapaça” (Oito e Meio, 2016), livro do Marcelo Labes. Subi no elevador lendo os poemas e segui correndo pelas páginas para encontrar uma voz que fala com peso sobre o passado, uma voz que se compõe de palavras cheias de crostas. Cruzei poemas que falam de uma vida que é dura, crua, cercada de mortos, mas também de muitas vidas. Poemas que nos levam a enterros ou nos chamam para ver fotografias não batidas. Colhi noites frias, janelas fechadas, pés gelados. Marcelo nasceu em 1984. Sei que isso não tem nada a ver, não quer dizer grande coisa. Mas voltei pelo livro procurando esse jovem poeta escondido atrás daquela voz que parecia me aconselhar desde um tempo em que o mundo, como ele diz, não era assim tão grande. Uma voz tão à vontade na sua tarefa, senhora dessas ferramentas da linguagem e do olhar que tentamos afiar dia após dia, que consegue nos levar para dar uma volta na sua Blumenau numa segunda-feira à noite, numa cidade que talvez não esteja lá, com alguém que pode nunca ter existido, mas que passam a nos falar de perto como um lugar cheio de afeto, como um amigo dos mais antigos. Belo livro.

 

[16] Luzia Maninha, a editora mais rápida do Velho Oeste, leu ontem meu poema “Somália” (escrevi quando se falava em 231 mortos, mas agora já se fala em mais de 300). De pronto, ela imaginou e criou o objeto perfeito para o poema não se perder aqui entre infinitas postagens e notícias que amanhã não nos dirão nada. Sou grato demais. Mas ela disse que só fará 3 exemplares…

 

[16] Nosso querido presidente, que assina leis e cheques enquanto corre da polícia arrastando malas de dinheiro, deu hoje duas tacadas que deveriam tirar o sono não apenas daqueles 97% dos brasileiros que reprovam seu “governo”: de um lado, transferiu para a Justiça Militar a competência para julgar militares que matarem civis e, de outro, transformou em realidade o sonho da bancada ruralista em termos de trabalho escravo, isto é, a impossibilidade de fiscalizá-lo e puni-lo. Como de costume, Temer vai distribuindo dinheiro e leis para se manter no cargo. E isso não parece ter limites, mesmo se todos os órgãos internacionais gritarem ao mesmo tempo. Aliás, se alguém pensava em se agarrar ao STF como esperança contras essas e tantas outras medidas inconstitucionais, é bom lembrar que hoje mesmo, enquanto o presidente atendia esses favores, o ministro tucano foi sorteado para julgar seu colega de partido… Se o mundo é pequeno, o dos golpistas é minúsculo. E, ao que tudo indica, os muros ao seu redor serão cada vez mais altos.

 

[17] ESTANTE. Tem uns meninos e umas meninas chegando por aqui que sabem ser tristes. Não correm da dor. Enquanto tantos lutam e gritam por alegria, eles torcem o nariz, pegam a tristeza no colo, acariciam, convivem, deixam a tristeza em paz. Quando cantam, é apenas para lembrar baixinho os versos antigos: “Tire o seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com a minha dor”. Não vão em bando. Andam sós e apenas em lugares e ritmos em que possam ouvir seus passos, ou melhor, o que cada um de seus passos esmaga enquanto seguem suas trilhas. E tenho a impressão de que são os únicos que sabem para onde ir. Sigo-os.

 

[17] “Somália” na Modo de Usar:

http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2017/10/somalia-poema-inedito-de-tarso-de-melo.html

 

[17] Vou parar de falar de direito, política, essas tristezas. A partir de agora só falarei de futebol. Lá vai. O STF cruzou na medida e o Senado cabeceou sem chance de defesa. Gol do Aécio.

 

[18] DE BOA. Tudo normal, tudo bem natural. Jornais e autoridades falando abertamente em atentar contra a democracia. Manchetes e ministros dando mais vida ao trabalho escravo. Um presidente pagando a céu aberto, com grana e leis, a condescendência do Legislativo com seus crimes. Deputados e senadores negociando tudo, tudo, tudo para salvar a própria pele das acusações que se amontoam. A cúpula do Judiciário disposta a avalizar todos esses negócios. Malas de dinheiro para cá, delações para lá, vídeos comprometedores que não comprometem, bombas que não explodem. A lenga-lenga sem fim da Lava Jato: agora pegamos, agora vai, não tem escapatória, mas sempre tem, especialmente para alguns. Não importa mais o “conjunto da obra” (tampouco a carreira…), não importa mais a crise, não importa mais a aclamada moralidade. O desmanche das universidades, o corte do orçamento social, a privatização da fatia boa, os retrocessos se sobrepondo: tudo feito à luz do sol. Eis o novo normal neste país que se arrasta sem rumo. Essas são as notícias que, a cada dia, sem susto, passam naturalmente diante da nossa cara pálida.

 

[19] Gilmar Mendes. Certamente, há milhões de outras coisas que deviam ocupar meu tempo e que são mais dignas, mais inteligentes, mais gentis, mais bonitas, mais honestas do que Gilmar Mendes. Podia, por exemplo, ler os livros que me indicam ou olhar para o sol lá fora. Mas escrever, para mim, tem sido uma forma de nadar até a superfície para respirar e voltar pra luta no fundo desse mar de tristeza. Pois bem, escrevo. Do alto de seu supremo poder, o melhor que Gilmar Mendes encontrou para fazer diante do debate sobre trabalho escravo foi uma piada: “Eu, por exemplo, me submeto a um trabalho exaustivo, mas com prazer. Eu não acho que faço trabalho escravo”. Não pensem que é uma piada qualquer. É um ataque. É uma forma muito eficiente de avacalhar toda a luta por condições dignas de trabalho neste país em que a escravidão não é novidade nem exceção. Gilmar sabe que, com suas piadas, vai adiantando o clima de um futuro posicionamento do STF sobre a matéria, vai minando o conhecimento em que se baseia a fiscalização do trabalho escravo, vai contaminando a opinião pública com sua insensibilidade diante das questões sociais que este país arrasta há séculos, vai abrindo campo para atender a seus compromissos com o outro lado. Aliás, ele próprio é de uma família de fazendeiros. É a partir dessa condição que a voz de Gilmar deve ser ouvida: de seus interesses de classe. Rir das piadas de Gilmar ou deixar que elas influenciem os rumos do país é, de certo modo, rir de tudo que a classe a que ele pertence já fez, faz e está disposta a continuar fazendo com quem, de fato, se submete a trabalho exaustivo, sem o salário, a aposentadoria, as garantias, os privilégios, as mordomias, os assessores, o ar condicionado, os carros oficiais, os voos exclusivos, os auxílios isso e aquilo, que um ministro como ele recebe. Gilmar não tem graça.

 

[20] Bia Abramo por perto de “O livro das listas”:

http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Renato-Russo-Um-cara-que-me-ensinou-algumas-coisas-que-eu-sei

 

[22] Notícia 1: Luciano Huck leva a sério o projeto de ser presidente da República. Notícia 2: o dono da Riachuelo denuncia que uma revolução comunista, sim, comunista está em curso no Brasil. Bem que podia ser mentira (1), bem que podia ser verdade (2).

 

[23] “Íntimo desabrigo” por André Luiz Pinto:

https://revistacult.uol.com.br/home/ler-e-agir/

 

[24] Não é surpresa para ninguém que lá pelas bandas de Minas Gerais tem atuado intensamente um cara que vem dando novo alento à leitura da poesia contemporânea: Gustavo Silveira Ribeiro. Já disse por aí que Gustavo circula com tanta desenvoltura entre as inquietações da poesia que, em sua figura, é difícil identificar os trejeitos de quem olha para a poesia como seu “objeto de pesquisa”. Digo isso para registrar que hoje nasceu mais um dos seus incríveis trabalhos: “A extração dos dias: poesia brasileira agora”, um livro digital gratuito, a cargo da escamandro, em que Gustavo reuniu os poemas que partilham dessa “música mínima” que ele ouviu enquanto lia os livros todos que têm saído por aqui. Coisa fina.

https://escamandro.wordpress.com/2017/10/24/antologia-a-extracao-dos-dias-poesia-brasileira-agora-org-gustavo-silveira-ribeiro/

 

[26] “A verdade venceu. […] A normalidade no país nunca foi afetada e agora prossegue ainda mais forte”, disse Temer.

 

[27] Do Gilmar nunca esperei nada. Um dos mais destacados canalhas neste país com tantos. Mas o Barroso, nem com Chico Buarque e batendo no Gilmar, dá pra engolir. Cada vez mais age no STF como se estivesse na Suprema Corte dos EUA; dá mais valor à Constituição e à teoria jurídica norte-americanas do que aos incêndios que tem sobre sua mesa. Só brigou com o Gilmar porque sentiu algum orgulho ferido, alguma fagulha caindo sobre sua vaidade. O que está em jogo, no bate-boca desses dois, não é a defesa do país, das instituições, de nada disso. É uma briga de condomínio: um reclamando da qualidade da música que o outro ouve em festas para as quais, como sempre, não fomos convidados. Aliás, na canção do Chico citada pelo Barroso, ambos os ministros se encontram do mesmo lado, com a “gente ordeira e virtuosa que apela/ pra polícia despachar de volta/ o populacho pra favela/ ou pra Benguela ou pra Guiné”. Não nos enganemos pela farpa eventual. A culpa deve ser do sol.

 

[27] Uma rede de lanchonetes (que inclui Bob´s e Spoleto) divulga “vagas” para “trabalho intermitente”, isto é, R$ 4,45 por hora para jornadas de 5 horas aos sábados e domingos. Trocando em miúdos: o trabalhador ganha R$ 22,25 por dia. No mês, se correr tudo bem, ele recebe R$ 178,00. Mais nada. O patrão, no anúncio, ainda é exigente: pede currículo. Fiquei lembrando daquele aviso que encontramos por aí dizendo que não devemos dar esmola. Parecem dois mundos, mas são um só, cada vez mais. Alguém que consiga receber R$ 6,00 de moedas por dia, nos 30 dias do mês, não tem razão financeira para aceitar o emprego no shopping. De longe, alguém pode até achar que ganhar dinheiro dessa ou daquela forma é diferente porque é “mais digno trabalhar do que pedir”, mas algo me diz que, do balcão pra dentro, o patrão dos R$ 4,45 vai derrubar essa ilusão.

 

[27] Encontrei um bando de poetas numa esquina ontem e eles tinham essas joias nas mãos: 17 vozes ganhando corpo dentro dessas plaquetes. Muito legal ver a turma do CLIPE criando seus próprios voos a partir das conversas que cruzam as salas da Casa das Rosas e as mesas do Monte Carlo.

 

[28] (A doce arte de inventar coisas que vão dar algum trabalho, talvez dor de cabeça, quem sabe trazer ou levar uns trocados, mas vão multiplicar pontes, fortalecer algumas ideias, abraçar alguém lá longe: dominá-la-emos. É o melhor que resta.)

 

[30] O SONHO DE ZÉ CELSO DEVIA SER O PESADELO DE SILVIO SANTOS. Demorei para entrar no link do vídeo da reunião entre Zé Celso e Silvio Santos. Doria e Suplicy estavam lá. É um vídeo histórico, porque Silvio Santos esconde mal suas armas. Ou melhor: sequer esconde. E suas armas são as armas dos donos da cidade, do Estado, do país. Homem de tevê e de negócios (e, no Brasil, essas duas coisas nunca se separam), Silvio conduz tudo como seus patéticos programas de auditório. Ele começa a conversa fazendo piada com o poncho de Zé Celso (significativamente, uma roupa típica dos povos que são atropelados pelos interesses de homens como Silvio Santos), depois fala sem rodeios que é muito rico, entrega o artifício da especulação imobiliária de “colocar a cracolândia lá” para inviabilizar o teatro e justificar que a prefeitura aja em seu favor e, diversas vezes, faz caretas enquanto diz que Zé Celso é sonhador. Sim, Silvio Santos despreza o sonho e ordena: ‘não sonha, pô!”. Depois desordena, diante da menção a um parque com tendas, carregando ainda mais no desprezo: “tá bom, Zé, pode sonhar, não é proibido sonhar”. É sempre Silvio quem vai dizer o que é proibido e o que é permitido, como nas gincanas que apresenta ao vivo na tevê. Pouco antes de dizer a Zé Celso que, se ele não deu sorte de ficar rico, é “problema teu”, arrancando risada de todos ali. O que o vídeo não diz é que, por trás de cada sonho de Zé Celso, há alguns direitos. Ou deveria haver. Por trás de cada risada de Silvio Santos, há as pessoas todas que vivem nesta cidade sem poder decidir como ela será, porque Silvio e seus sócios decidem. O prefeito, tal qual um despachante (bilíngue, of course) dos interesses de Silvio Santos, tenta colocar a conversa nos eixos fazendo piada também: “amores à parte, vamos tentar encontrar um bom caminho”. Mas Silvio não quer saber: “não é justo alguém pagar por um terreno e não poder ficar com ele, mesmo que não seja para fazer nada. Isso aqui é uma democracia ou o que que é? É um regime totalitário?” Está aí sua base “teórica”: só é “justo” e “democrático” se ricos puderem comprar e manter terrenos mesmo que não seja para fazer nada. Mesmo que não seja para fazer nada além de especulação. Se não for assim, é regime totalitário vir com esses “sonhos” ou falar em função social da propriedade, direito à cidade, direito à cultura, coisas que existiam quando tínhamos uma Constituição, antes de seus artigos mais importantes se esfumaçarem na “democracia” de Temer. É diante dessas ideias de Silvio Santos que tudo que, de fato, seja democrático não passa de uma piada: o poncho é uma piada, o dinheiro é a credencial que importa, dependentes químicos podem ser removidos de acordo com seus interesses patrimoniais e, enfim, direitos – que não o da propriedade privada – são sonhos. Simples assim. E o prefeito diz: “relax, relax, relax”, antes de desfilar um monte de outros termos em inglês… Silvio Santos termina a reunião rindo e ameaçando: “você vai se ferrar, rarara, você vai ver, rarara”. E decreta: “tchau, Zé, vai com Deus”. Claro, homens como Silvio Santos adoram ver zés irem embora com Deus, para bem longe da cidade real em que possam criar obstáculos para seus interesses. Vamos ver o que vem por aí. Silvio Santos não é obrigado a sonhar, é claro, deitado em cima dos milhões de reais que tem, mas nós também não somos obrigados a dormir enquanto ele transforma a cidade em pesadelo.

 

[30] O prefeito de SBC mandou a guarda municipal fechar o acesso à ocupação do MTST para que os equipamentos de som para o show de Caetano Veloso não entrem. Se Caetano aparecer e colocar 15 mil pessoas para cantarem juntas, sem caixas de som, pode ser ainda mais bonito e forte o ato de apoio. Caetano tem muitas canções que todos ali sabem cantar e o povo, em coro, pode ensinar ao prefeito o que significa “é proibido proibir”.

 

[30] A pressa do prefeito, do promotor e da juíza para impedir o show de Caetano Veloso apenas prova o acerto político da ocupação em SBC e das estratégias de apoio às famílias que lá estão. É o sucesso da ocupação que faz as autoridades correrem assim para tentar tirar a força do movimento. Normalmente, isso não funciona, apenas atrasa um ou outro passo, mas fortalece quem está dentro, chama atenção de quem está fora e convoca novos apoios. Que assim seja. A juíza, ao fixar multa com o mesmo valor da dívida de IPTU (500 mil reais) que pesa sobre os proprietários, escarnece dos direitos de todos os ocupantes do terreno e dos ideais de seus apoiadores. Mas, já sabemos, embaixo da lona sempre houve e haverá atitudes mais dignas. Hoje não foi diferente: eles cortaram a música, mas, de hoje em diante, toda vez que tocar uma música do Caetano, do Criolo, do Emicida por aí, alguém lembrará que deve continuar lutando.

 

PS: ô Chico Buarque, já sabe o caminho de São Bernardo.

 

[30] Gente, lá vai uma lição. Na frase “a decisão é de uma juíza que já esteve afastada por ligações com o PCC”, a parte espantosa é “esteve afastada”. Isso é que é difícil de acontecer.

 

[30] Até para Caetano, que já passou por tantas coisas nos palcos e fora deles, o dia hoje foi especial. Se fosse eu e meu violão, as autoridades nem ligariam. Caetano foi lembrado de sua força, da força que sua arte pode ter, de que meia hora de sua vida sobre aquele palco poderia significar (e, mesmo sem música, acabou significando) mais força para aquela luta popular do que os inimigos estão acostumados a suportar. Espero que tenha acendido essa chama em outros artistas que podem dar contribuição parecida. Quando um gigante vai ali juntar suas obras-primas com as barracas precárias de quem luta por teto, quando junta sua voz admirável às vozes roucas de quem tenta sobreviver, faz com que o grito coletivo seja ouvido com mais força e clareza pelos ouvidos mais distantes. Tenho certeza que mais alguns ouvidos se abriram hoje para as palavras do Povo sem Medo. (Caetano já veio. O Chico já convidei. E se eu fosse o Gil, viria também. E com a van lotada: Elza Soares, Paulinho da Viola, Djavan, Mano Brown, Maria Bethânia, Gal Costa, Marisa Monte, Milton Nascimento, a trupe toda. Traria a turma toda do quintal do Zeca Pagodinho. E traria também o João Gilberto, só pra reclamar da acústica.)

 

[31] Todo esse imbróglio de ontem, com uma decisão que elogia Caetano para impedi-lo de cantar em apoio à ocupação do MTST, me fez lembrar bastante de uma decisão de 1995, numa ação do DNER contra o MST que caiu na mão de um juiz que levava a sério seu compromisso com a Constituição. Era 1995… eu ia separar alguns trechos, mas acho que vale a pena colocá-la para circular novamente na íntegra. Está tudo aí.

 

«Várias famílias (aproximadamente 300 – fls. 10) invadiram uma faixa de domínio ao lado da Rodovia BR 116, na altura do km 405,3, lá construindo barracos de plástico preto, alguns de adobe, e agora o DNER quer expulsá-los do local.

“Os réus são indigentes”, reconhece a autarquia, que pede reintegração liminar na posse do imóvel.

E aqui estou eu, com o destino de centenas de miseráveis nas mãos. São os excluídos, de que nos fala a Campanha da Fraternidade deste ano.

Repito, isto não é ficção. É um processo. Não estou lendo Graciliano Ramos, José Lins do Rego ou José do Patrocínio.

Os personagens existem de fato. E incomodam muita gente, embora deles nem se saiba direito o nome. É Valdico, José Maria, Gilmar, João Leite (João Leite???). Só isso para identificá-los. Mais nada. Profissão, estado civil (CPC, artigo 282, II) para quê, se indigentes já é qualificação bastante?

Ora, é muita inocência do DNER se pensa que eu vou desalojar este pessoal, com a ajuda da polícia, de seu moquiços, em nome de uma mal arrevesada segurança nas vias públicas. O autor esclarece que quer proteger a vida dos próprios invasores, sujeitos a atropelamento.

Grande opção! Livra-os da morte sob as rodas de uma carreta e arroja-os para a morte sob o relento e as forças da natureza.

Não seria pelo menos mais digno – e menos falaz – deixar que eles mesmos escolhessem a maneira de morrer, já que não lhes foi dado optar pela forma de vida?

O Município foge à responsabilidade “por falta de recursos e meios de acomodações” (fls. 16 v). Daí, esta brilhante solução: aplicar a lei.

Só que, quando a lei regula as ações possessórias, mandando defenestrar os invasores (artigos 920 e seguintes do CPC), ela – COMO TODA LEI – tem em mira o homem comum, o cidadão médio, que, no caso, tendo outras opções de vida e de moradia diante de si, prefere assenhorar-se do que não é dele, por esperteza, conveniência, ou qualquer outro motivo que mereça a censura da lei e, sobretudo, repugne a consciência e o sentido do justo que os da mesma espécie possuem.

Mas este não é o caso no presente processo. Não estamos diante de pessoas comuns, que tivessem recebido do Poder Público razoáveis oportunidades de trabalho e de sobrevivência digna (v. fotografias).

Não. Os “invasores” (propositadamente entre aspas) definitivamente não são pessoas comuns, como não são milhares de outras que “habitam” as pontes, viadutos e até redes de esgoto de nossas cidades. São párias da sociedade (hoje chamados excluídos, ontem de descamisados), resultado do perverso modelo econômico adotado pelo país.

Contra este exército de excluídos, o Estado (aqui, através do DNER) não pode exigir a rigorosa aplicação da lei (no caso, reintegração de posse), enquanto ele próprio – o Estado – não se desincumbir, pelo menos razoavelmente, da tarefa que lhe reservou a Lei Maior.

Ou seja, enquanto não construir – ou pelo menos esboçar – “uma sociedade livre, justa e solidária” (CF, artigo 3º, I), erradicando “a pobreza e a marginalização” (n. III), promovendo “a dignidade da pessoa humana” (artigo 1º, III), assegurando “a todos existência digna, conforme os ditames da Justiça Social” (artigo 170), emprestando à propriedade sua “função social” (art. 5º, XXIII, e 170, III), dando à família, base da sociedade, “especial proteção” (art. 226), e colocando a criança e o adolescente “a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, maldade e opressão” (art. 227), enquanto não fizer isso, elevando os marginalizados à condição de cidadãos comuns, pessoas normais, aptas a exercerem sua cidadania, o Estado não tem autoridade para deles exigir – diretamente ou pelo braço da Justiça – o reto cumprimento da lei.

Num dos braços a Justiça empunha a espada, é verdade, o que serviu de estímulo a que o Estado viesse hoje a pedir a reintegração. Só que, no outro, ela sustenta a balança, em que pesa o direito. E as duas – lembrou Rudolf Von Ihering há mais de 200 anos – hão de trabalhar em harmonia: “A espada sem a balança é força brutal; a balança sem a espada é a impotência do direito. Uma não pode avançar sem a outra, nem haverá ordem jurídica perfeita sem que a energia com que a justiça aplica a espada seja igual à habilidade com que maneja a balança”.

Não é demais observar que o compromisso do Estado para com o cidadão funda-se em princípios, que têm matriz constitucional. Verdadeiros dogmas, de cuja fiel observância dependem a eficácia e a exigibilidade das leis menores.

Se assim é – vou repetir o raciocínio – enquanto o Estado não cumprir a sua parte (e não é por falta de tributos que deixará de fazê-lo), dando ao cidadão condições de cumprir a lei, feita para o homem comum, não pode de forma alguma exigir que ela seja observada, muito menos pelo homem “incomum”.

Mais do que deslealdade, trata-se de pretensão moral e juridicamente impossível, a conduzir – quando feita perante o Judiciário – ao indeferimento da inicial e extinção do processo, o que ora decreto nos moldes dos artigos 267, I e VI; 295, I, e parágrafo único, III, do Código de Processo Civil, atento à recomendação do artigo 5º da LICCB e olhos postos no artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que proclama: “Todo ser humano tem direito a um nível de vida adequado, que lhe assegure, assim como à sua família, a saúde e o bem estar e, em especial, a alimentação, o vestuário e a moradia”.

Quanto ao risco de acidentes na área, parece-me oportuno que o DNER sinalize convenientemente a rodovia, nas imediações. Devendo ainda exercer um policiamento preventivo a fim de evitar novas “invasões”.»

(Proc. nº 95.0003154-0 – Ação de reintegração de posse – 8ª Vara Federal da Seção Judiciária de Minas Gerais – Juiz Antônio Francisco Pereira).

 

[31] Quatro poemas no “Janelas em rotação”:

https://cidadeverde.com/janelasemrotacao/87519/tarso-de-melo-poemas-do-livro-intimo-desabrigo

 

[31] Imagine um país normal, em que “as instituições estão funcionando normalmente”. Imagine que, num dia qualquer neste país, o ministro da Justiça dê uma entrevista dizendo que o comando da PM é definido num “acerto com deputado estadual e o crime organizado” e que os “comandantes de batalhão são sócios do crime organizado”. E que, na mesma entrevista, ele afirme que um coronel “foi executado [num] acerto de contas” com os próprios policiais. Por fim, que ele diga que qualquer solução para isso depende de “outro presidente e outro governador”, porque “com o atual governo […] não será possível”. Imagine que “outro presidente” signifique “alguém que não o meu chefe”. Só imagine.

 

[31] Sérgio Cabral, em audiência, para explicar que não lavava dinheiro na compra de joias, falou da família do juiz, que trabalha com bijuterias. O juiz entendeu que a menção à sua família podia ser uma ameaça velada e o MP pediu a transferência de Cabral com base nisso. Pois bem, caiu na mesa do Gilmar e ele disse que Cabral não ameaçou ninguém: “O fato de o preso demonstrar conhecimento de uma informação espontaneamente levada a público pela família do magistrado não representa ameaça, ainda que velada. Dessa forma, nada vejo de relevante na menção à atividade da família do julgador”. Podemos concordar com Gilmar, mas apenas se esse seu entendimento for respeitado quando outros presos, em audiência, fizerem menções parecidas às famílias dos juízes ou algum réu, sob julgamento no STF, recorrer à biografia do próprio Gilmar para tentar explicar que o que faz não é crime. Imagina a cena: “doutor, o sr. também dá telefonemas suspeitíssimos e não pega nada”.

Do fb pra cá (setembro 2017)

[1] DATA VENIA. O direito é a “ciência do veja bem”. Diante de qualquer aberração, vem algum “jurista” dizer “veja bem” e justificar com o inciso do parágrafo do artigo da lei qualquer que aquilo é daquele jeito. No direito tem gente que ainda acredita que foi a petição da Janaina que tirou a Dilma do cargo. Gente que acredita que o Rafael Braga está preso porque o depoimento dos policiais foi irrefutável e que ele não tem direito à prisão domiciliar porque é perigoso. Gente que acredita que as decisões do Moro e do Gilmar são imparciais. Gente que defende que o juiz que soltou o tarado do busão seguiu a “letra da lei”. Enfim, gente disposta a tapar o sol da realidade com a peneira da legislação. Talvez porque seja fácil demais se formar em direito. E muito difícil admitir que a realidade é cruel.

 

[1] Ainda nesse debate sobre o tarado do ônibus, toda vez que escrevem “punitivismo”, leio “punhetivismo”. Melhor descansar um pouco.

 

[4] Ainda bem que vem um feriadão pela frente pra gente tentar entender essa frase do José Arthur Giannotti, parça do FHC: “O PSDB morreu. Quer que eu fale de defuntos? O PSDB não é mais um partido. Funcionava como um partido quando as decisões eram tomadas em bons restaurantes e todos estavam de acordo. Agora isso não há mais. E não existe alguém como Lula para aglutinar todos.”

 

[4] DÉJÀ VU. Hoje encontrei uma petição online contra a nomeação de Alexandre de Moraes para o STF. Revi as campanhas em que dizíamos “não vai ter golpe”. Já faz mais de um ano que falamos “fora Temer”. Os ministros de Temer, enlameados como o patrão, continuam atuando normalmente. Já faz tempo que falamos que não aceitaríamos a destruição dos direitos trabalhistas, da previdência social, das universidades públicas, do SUS, dos programas sociais, da Amazônia, das empresas públicas… mas o trator passa sem dificuldades. É a centésima vez que acreditamos que a casa caiu para o Gilmar Mendes. É a milésima delação bombástica que se revela, na prática, um traque. É a infinitésima vez, em tão pouco tempo, em que o governo golpista e seus parceiros tomam decisões sem o nosso consentimento, contra os nossos interesses, em favor de seus aliados, que terão efeitos para nós, nossos filhos, nossos netos, se eles saírem do projeto. O povo tem perdido todas? A democracia tem apanhado de 7 a 1? Toda vez que tomamos uma porrada, nossa reação parece ser sempre algo já visto: mais uma petição online com milhares de assinaturas, uma centena de textos que mostram os prejuízos que o povo terá e, dependendo do tema, um vídeo em preto e branco com atores famosos dizendo “basta”. Mas nunca basta. Temos que buscar, juntos, formas de vencer essa repetição que só tem interessado aos inimigos. Formas de combate novas. Acho que é o Terry Eagleton que diz que, para Marx, a questão nunca foi pensar num futuro ideal, mas sim atacar as contradições do presente que impedem um futuro melhor. Para nossa sorte, elas estão todas bem escancaradas diante dos nossos narizes. E fedem.

 

[5] “Gomapseumnida” na revista gueto:
https://revistagueto.com/2017/09/05/gomapseumnida/

 

[5] O legado do partido que morreu, segundo o filósofo que acha que apenas “um Lula” salvaria o PSDB, é um Doria que se travestiu de “João trabalhador”, o prefeito que não era político, mas sim um grande “gestor” e agora acha que pode cuidar de SP pelo whatsapp enquanto viaja pelo Brasil fazendo campanha nos salões e “bons restaurantes” ou pelo mundo fazendo compras e tomando toco de celebridades da política. E, agora, um Alckmin que já se fez de Geraldo para fingir que sabe ou liga para o que acontece fora do palácio, e agora aparece dizendo: “Eu quero ser o presidente do povo brasileiro, dos empresários que geram emprego, do trabalhador sacrificado do Brasil”. E, claro, em terra de ninguém, João e Geraldo já se engalfinham para ver quem é o tucano que esconde melhor suas plumas. Preparem-se: 2018 vai ser de virar o estômago. Na melhor hipótese, 2019 também.

 

[5] (De vez em quando, publico umas coisas aqui e aparece “Alice Ruiz curtiu” ou “Lygia Azeredo curtiu”. Eu sempre acho que é igual o dia em que a Orides Fontela e o Kant pediram pra ser meus amigos no facebook. Só podia ser mentira. Faz uns 25 anos que os poemas de amor feitos para Alice e Lygia me ensinaram um pouco sobre poesia e amor. Faz 25 anos que acumulo rimas para Alice e Lygia. Quando eu ouvia falar em musa, era nelas que eu pensava lá na minha adolescência: a musa do Leminski, a musa do Augusto. E poeta não sabe bem como lidar com a musa quando ela sai dos poemas e aparece, assim, no mundo mesmo. Poeta fica besta.)

 

[5] Um parecer do Ministério da Fazenda propõe demitir servidores, fechar cursos e até extinguir a UERJ. Era óbvio que o estrangulamento da UERJ tinha esse objetivo. E não só isso: a UERJ é laboratório do desmanche que vai chegar a outras universidades públicas e também a outros cantos do serviço público. Portanto, olhemos para a UERJ, lutemos pela UERJ. Por ela e para além dela. Pelo que a UERJ significa e pelo que seu desmanche significa.

 

[6] A vida entre tantas linhas

http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/A-vida-entre-tantas-linhas

 

[6] Meu “Paterson” em catalão, por Joan Navarro:

 

PATERSON

 

el gos que esquinça

el teu quadern inèdit

és el teu editor més cruel

però així i tot és el teu editor

i d’aquí cap enrere (early poems,

només paraules, paper capolat)

no hi ha més que una ombra

densa que travesses

mentre escoltes – sense saber d’on,

sense saber de qui – una veu

que ordena:

continua

 

[7] Até os inimigos concordam que, bem além de policial e judicial, a Lava Jato é uma operação política e midiática, muito midiática, o que talvez explique que um de seus pontos altos seja virar um “filme” e transformar autoridades em celebridades. Lendo as notícias dos últimos dias, reparei numa característica da linguagem das decisões e das notícias da Lava Jato. Não sei se alguém já falou e está estudando isso, mas valeria a pena ver como a linguagem das decisões (e de pronunciamentos das autoridades envolvidas) e das notícias, ou seja, a fala dos autos (juízes, procuradores etc.) e a fala dos jornais se fundem. Se destacarmos qualquer frase, ninguém saberá dizer se veio do processo judicial ou do Jornal Nacional. Até nos depoimentos, os candidatos a delatores já falam na “linguagem da Lava Jato”. O Palocci falando ao Moro, ontem, parecia ter um roteiro (e tinha…) escrito na “linguagem da Lava Jato”: denúncias prêt-à-porter. Há todo um jargão que automatiza o encaixe das “verdades” produzidas a cada depoimento nas outras “verdades” em que se alicerça toda a operação. E esse jargão não é o famigerado “juridiquês”. Aliás, o juridiquês – a linguagem cifrada e elitista do direito – tem justamente a pretensão de afastar os “leigos” e bloquear o acesso aos sentidos (muitas vezes sem sentido) do que se faz nas entrelinhas e nos salões do direito. Tanto é que o papel da imprensa, diante da forma truncada como a linguagem jurídica opera, normalmente era colocar em termos compreensíveis para mais gente (o auge disso, a meu ver, estava nas manchetes do Notícias Populares, que expunha o noticiário policial com termos mais do que claros para quem passasse em frente à banca de jornal). Tudo bem, durante a Lava Jato, ainda passamos um tempo ouvindo a imprensa explicar alguns termos jurídicos, mas isso foi malhado e incorporado tão rapidamente que o “neojuridiquês” da Lava Jato se espalhou para todos os lados. É uma impressão ainda, mas, para quem tiver mais estômago, taí um provável objeto de pesquisa. De minha parte, vou curtir as verdades do sol lá fora.

 

[7] Pra quem se assustou com os 51 milhões do Geddel, gostaria de lembrar: é apenas uma comissão sobre um valor bem maior; pode ser apenas uma parcela da propina; e não vai acabar assim. A grana continua girando suja por aí.

 

[10] É claro que pode ser um acaso ou não ter nada demais, é claro que Janot pode usar suas tardes de sábado para tomar uma breja com um amigo no fundo do bar, mas esse encontro entre o Procurador Geral da República e o advogado de Joesley na véspera de sua prisão é, no mínimo, curioso. A gente acredita em “cordialidade no plano das relações pessoais”, mas, no momento em que Fachin analisava a relação promíscua de um outro (ex) procurador (cuja prisão não foi decretada, aliás) com Joesley, acho que podíamos ficar sem essa pulga colossal atrás de nossa imensa orelha.

 

[10] Falando sobre “O livro das listas” na rádio CBN:
http://m.cbn.globoradio.globo.com/media/audio/119265/renato-russo-era-fanatico-por-listas-desde-muito-n.htm

 

[12] Perambulação urbana e criação poética, no SESC:

http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/perambulacao-urbana-e-criacao-poetica-passos-vastos-versos

 

[13] Rafael Braga vai para casa, em prisão domiciliar autorizada por causa de sua saúde. Antes tarde do que nunca, mas acaba aí meu otimismo. Da primeira vez que foi solto, após a prisão por “porte de pinho sol”, voltou para casa com tornozeleira eletrônica; não demorou para ser abordado numa viela e enquadrado por tráfico, com base no porte de alguns gramas e no depoimento exclusivo dos policiais. Desta vez, ele volta com tuberculose e com a condenação por tráfico nas costas, para tentar sobreviver no mesmo lugar que outro juiz considerou para ligá-lo ao Comando Vermelho e condená-lo a 11 anos de prisão. Enfim, Rafael Braga continua sob perigo. A lógica da criminalização muitas vezes usa a “liberdade” para atingir seus objetivos. Já foi assim com ele uma vez; espero que não seja de novo.

 

[13] 400%

 

Você teria coragem

de levar seus filhos

numa exposição

das taxas de juros

do cartão de crédito?

 

[17] O vice da PGR é primo de Agripino. O primeiro procurador que a PGR afastou é o que investigava Agripino. Impossível não lembrar das reuniões da PGR “fora da agenda” (Joesley’style) com Temer e sua nomeção apesar de não ser a mais votada. Tudo indica que, nas próximas semanas, assistiremos aos próximos capítulos do “grande acordo nacional” (by Jucá).

 

[18] A NOSSOS PÉS: antologia de poemas em diálogo com Ana Cristina César (lançada antes pela Editora da Casa, em 2008, e agora bastante ampliada para edição pela 7Letras), organizada por Manoel Ricardo de Lima, ganhou esse vídeo com os autores falando seus poemas. Tem um grande time e nele estão vários amigos daqui, como Carlos Henrique Schroeder, Marília Garcia, Júlia Studart, Eduardo Jorge, Josoaldo Lima Rêgo, Onça Verunschk, Cristiano Moreira, Ruy Proença, Renan Nuernberger, Veronica Stigger, Heyk Pimenta, Mariano Marovatto, Carlos Augusto Lima, Rob Packer, Eduardo Sterzi, Heitor Ferraz Mello, Francesca Cricelli, Ricardo Rizzo, Rafael Zacca e Reynaldo Damazio. Dê – olhos e – ouvidos.

https://www.youtube.com/watch?v=BHY18Z5UrOs

 

[18] MÃO ESQUERDA. O juiz que permite tratar homossexualidade como doença. O juiz que absolve o pai que espancou a filha por ter perdido a virgindade. O juiz que acolhe pedidos de censura contra obras de arte. O juiz que cria regras de acordo com os objetivos que quer atingir em cada processo. Com todo o respeito, só se assusta com eles quem não faz ideia do que costuma ser ideologicamente o Judiciário e, mais ainda, todo o contato com o direito desde as primeiras horas da formação jurídica. Por mais que leve a fama de ser “a mais alta norma”, é bem verdade que esses seus apelidos grandiosos sempre conviveram com outra realidade, em que a Constituição é uma espécie de “patinho feio”, cheio de boas intenções, mas infelizmente “distante demais da realidade”. Se está na moda agora dizer que a Constituição não é aceita na igreja e não cabe na economia, é ainda mais verdade dizer que a “mão esquerda” da Constituição nunca coube muito bem nem mesmo dentro dos cursos de direito e muito menos dentro das instituições que a deveriam respeitar. O caminho entre o “não concordo com a Constituição” e o “vou dar um jeito de não aplicar” sempre foi curto demais com os mapas que o próprio direito fornece. O direito sempre fatiou a Constituição para relativizar a força de seu projeto para o país, fazendo-a dizer apenas o que interessa aos grupos dominantes. E não será agora, com essa onda conservadora toda saidinha (no governo, no congresso, nas redes, nas ruas), que esses mesmos grupos perderão a oportunidade de amputar de vez aquela “mão esquerda”, se assim deixarmos. Teremos que lutar muito por ela.

 

[20] Socos, xingamentos, spray de pimenta dentro da cela da delegacia, espancamento com muleta, um aborto causado pelas agressões, suspeita de intimidação no curso do processo, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo não viu, na ação dos policiais, tortura ou algo mais grave, porque não ficou provado que isso foi feito para que as vítimas das agressões confessassem algo. Foram apenas “alguns excessos” ou talvez abuso de autoridade, mas nada que justifique a punição. É a “nova normalidade” se instalando.

 

[21] Vinha pensando que nossas condições de criação, reflexão, intervenção etc. dependem de como está nossa cabeça, mas também dependem muito de como está nosso corpo, nosso coração, nosso bolso, nossa agenda. Portanto, desocupar-se para atacar as tarefas literárias exige um arranjo rigoroso dessas outras coisas todas de que a vida também é feita. E dei de cara com essa dica do Heitor: Adília Lopes dizendo que “Sem tempo livre não há poemas, nem se lê nem se escrevem”. Concordo demais, e não apenas quanto a poemas. (Ainda que hoje me agrade muito pensar em poemas – e outros textos – escritos em condições adversas…) E mais à frente ela acusa as dificuldades de se dedicar à literatura: “um beco sem saída”. Adília tira leite de pedra – e nos fartamos dele. Sad but true. Que bela entrevista.

 

[21] Fundos do poço… quando discute laicidade, Gilmar Mendes argumenta que, se for afastar a influência religiosa do Estado, teríamos que mudar até o nome dos Estados: “São Paulo passaria a se chamar Paulo? Santa Catarina passaria a se chamar Catarina? Espírito Santo poderia se pensar em Espírito de Porco ou qualquer outra coisa”. Alto nível. Em calhordice.

 

[22] Quanto Temer vai pagar desta vez aos deputados pela rejeição das denúncias? Vai ser mais caro ou não vai ser, porque Rodrigo Maia já deu início ao golpe dentro do golpe, abrindo terreno para tomar o Executivo em 2018.

 

[22] ACORDA, AMOR. Lá no alto, em Brasília, os golpistas cuidam de seus negócios e garantem que, em 2018, não haverá surpresa. Aqui embaixo, a toda hora, chegam notícias de opressão. A gente vai ficar esperando o “fim da democracia” – um fim amplo, geral e irrestrito… – para se mexer? Com um pouquinho de atenção, dá para ver que, a cada dia, a democracia tem acabado para um aqui, outro ali, outros acolá. Nos tribunais, nos legislativos, nos executivos, nas ruas, nas redes, nas galerias, nas escolas. Talvez nem precise vir sua “versão sem cortes”. Para quem é preso por se manifestar contra o governo, a democracia acabou ali. E não é problema só dele. Para quem não consegue ter acesso a um Judiciário que garanta seus direitos (pelo contrário…), o Estado democrático de direito acabou ali. Para quem trabalha sem direitos (pejotas, frilas, diaristas etc.), os direitos trabalhistas já deixaram de existir. Enquanto estivermos – ou acharmos que estamos – na fatia ainda não atingida, acharemos que não é problema nosso? Ou que não é tão grave assim? Lembro daquela frase do “Manifesto”: “Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós”. E um bom começo de conversa pode ser mesmo lembrar do “Manifesto”…

 

[25] Tiros na Rocinha. Fogo na Bocaina. Terremotos no México. Nazistas eleitos na Alemanha. Trump brincando de guerra no twitter. As tretas de Temer e os golpes do golpe. A gente fica até com vergonha de desejar bom dia.

 

[25] DO CONTRA

 

desça

decresça

desmereça

desaprenda

desempreenda

desarrependa

desconsidere

desoriente

desapegue

desapareça

 

deseje

 

[26] Hoje o STF decidiu que Aécio Neves não pode mais exercer o cargo de senador nem sair de casa à noite. Só não foi preso “completamente” porque é senador. Há menos de 3 anos, ele quase se tornou presidente da República. Diziam que era a salvação do país. Não ganhou a eleição e, desde então, um dos grandes momentos de sua carreira foi a posse de Temer pós-golpe, além das fotos com seus amigos.

 

[27] Num país em que a política sempre esteve à venda, não é estranho que empresários queiram comprá-la, nos porões da madrugada ou à luz do sol, para impor novas derrotas a quem não tem “fundo cívico” para financiar candidatos que serão caninamente leais a seus patrões. Não esqueça: você pode até achar que eles já têm tudo, mas esses caras sempre querem mais.

 

[27] Se religiões podem dar aula,

mas a escola não tem partido,

pastor não pode ser político

nem padre dar palpite em lei?