Coletiva: Age de Carvalho

O poeta Age de Carvalho (divulgação).

O leitor já deve ter reparado que Grande sertão: veredas começa com um travessão. Essa lembrança, que me veio a partir de outro travessão de Rosa citado na entrevista a seguir, diz muito sobre o que o poeta Age de Carvalho tem exigido de seus leitores desde seu livro de estreia: uma atenção capaz de enfrentar “palavra a palavra, cada sílaba, o esquartejamento de um vocábulo, o uso ou ausência de sinais ortográficos, todos os seus espacejamentos e reentrâncias”. Despontando nos anos 1980 como uma espécie de parceiro-herdeiro de uma geração brilhante reunida em – e lançada ao mundo a partir de – Belém, de que podemos destacar o filósofo Benedito Nunes e os poetas Mário Faustino e Max Martins, Age é o dono de uma voz que, como pouquíssimas outras na poesia brasileira de sua geração, pode carregar o adjetivo inconfundível.

Nascido em Belém, em 1958, Age de Carvalho vive na Europa desde os anos 1980, atualmente em Viena, trabalhando como designer gráfico. Seus livros de poemas são Arquitetura dos ossos (1980), A fala entre parêntesis (em parceria com Max Martins, 1982), Arena, areia (1986), Ror: 1980–1990 (poesia reunida, incluindo o então inédito Pedra-um, 1990), Caveira 41 (2003), Seleta (antologia poética, 2004), Trans (2011) e Ainda: em viagem (2015). Parte de sua poesia foi traduzida para o alemão por Curt Meyer-Clason, no volume Sangue-Gesang (2006). Em 2018, a Secretaria de Estado de Cultura do Pará lançou Age de Carvalho: todavida, todavia, livro organizado pelo poeta e por Mayara Ribeiro Guimarães, reunindo entrevistas, poemas, textos críticos e farta iconografia sobre sua trajetória na poesia, no jornalismo e no design gráfico. Desde 2014, dedica-se à reedição – incluindo o projeto gráfico – da obra de seu amigo e parceiro Max Martins, em 11 volumes pela Editora da Universidade Federal do Pará (dos quais 10 já estão em circulação). Atualmente, trabalha num novo livro de poemas, De-estar, entrestrelas, com sua produção a partir de 2015.

Muito obrigado ao poeta pela generosidade com que acolheu e respondeu à entrevista e, claro, um agradecimento mais do que especial aos meus companheiros de bancada nessa roda vivíssima: André Vallias, Luiz Costa Lima, Andreev Veiga, Carlos Ávila, Guilherme Gontijo Flores, Fernanda Marra, Eduardo Sterzi, Thiago Ponce de Moraes, Diana Junkes, Maria Esther Maciel, Mayara Ribeiro Guimarães e Gustavo Silveira Ribeiro.

Tarso de Melo

André Vallias – De 1983 a 1985, você editou uma página de poesia nos jornais A Província do Pará e O Liberal, intitulada “Grápho, em que publicou traduções suas de autores do cânone de Mário Faustino e do grupo Noigandres — por ex.: Emily Dickinson, Walt Whitman, E. E. Cummings, Dylan Thomas, Wallace Stevens etc. — mas também Georg Trakl, Paul Celan, Reiner Kunze, André du Bouchet, Jean Daive, Jaroslav Seifert, Vicente Aleixandre, Teresita Saguí, Manuel del Cabral, James Bogan, entre outros. Nesses últimos anos, recebi traduções suas de Ilse Aichinger, W. S. Graham, John Wieners, William Carlos Williams, Ezra Pound e Cummings. Nunca pensou em reuni-las em livro? O que lhe motiva a traduzir?

Age de Carvalho – A tradução foi atividade que natural e casualmente tomou corpo dentro da minha ocupação com a poesia. Digo casual porque nasceu no momento em que aceitei o convite de Rosenildo Franco, em 83, para participar de um suplemento cultural que marcou época em dois tradicionais jornais paraenses. A página de poesia que faria semanalmente levou-me a traduzir, muito ao sabor do momento, os poetas que seriam apresentados aos domingos. Em princípio, eram aqueles que já integravam as minhas leituras daquele instante. O elenco de poetas que tomei para traduzir não teve o critério instrutivo e didático, de formação, como na página de Mário Faustino no Jornal do Brasil, tampouco são traduções programáticas, interessantes para um complexo projeto poético, como as dos Concretos. Esses são pilares da moderna tradução no Brasil. Nunca tentei emulá-los, a distância que todo grande respeito impõe. Mas, findo o tempo dessa página de jornal, que durou pouco menos de dois intensos anos, com tantos poetas de diferentes línguas e culturas, a verdade é que segui traduzindo até hoje, o costume ficou, intercalando as pausas em que não escrevo poesia. E, se estou satisfeito com o resultado, envio o material a alguns poucos amigos. São traduções que, ainda que rigorosas de minha parte, são breves, de poucos poemas para cada poeta escolhido. Não têm a amplitude e a portentosa compleição que, pela extensão do material traduzido, dão a verdadeira dimensão de um poeta e de um tempo — como as traduções que fizeste de Heine e, mais recentemente, de Brecht, duas lacunas agora plenamente preenchidas no Brasil. Mas, ainda assim, agora ando considerando melhor a ideia de divulgar essas minhas traduções, animado pela Mayara Ribeiro Guimarães, que já escreveu sobre o assunto e há algum tempo insiste na publicação, resolvendo tomar a dianteira na organização do material.

Luiz Costa Lima – Caro Age: como você reage ao ambiente da poesia brasileira recente? Não lhe parece que o movimento atual está em um momento bastante baixo? Com independência desta minha impressão, que fatores lhe parecem influir no curso que nossa  poesia tem tomado?

Age – Não me sinto à vontade para avaliar colegas, embora compartilhe da sua opinião, de que o nível baixou muito, se comparado ao das gerações imediatamente anteriores. Afinal, tivemos Drummond e Cabral imperando, enquanto vivos, por mais de cinquenta anos, e o legado, que é um lastro aos remanescentes e aos novos poetas, é pesado e impróprio a comparações. Não seria a melhor forma de avaliação, a meu ver. Mas o que se vê atualmente é como se nunca tivéssemos vivido a limpeza estética que foi a Semana de 22, a depuração imposta pela poesia concreta e a poesia por eles traduzida, os puxões de orelha dados por Mário Faustino, chamando à ordem aqueles que não cumprissem com o seu dever cívico (sim, os poetas têm essa tarefa, embora a palavrinha, hoje, esteja maculada pela canalhice governamental), o dever cívico de zelar pela transformação da língua, pela precisão e pelo rigor poéticos. João Cabral, citado há pouco muito oportunamente num posting de Carlos Ávila, já chamava a essa poesia frouxa e difusa de simples “prosa empilhadinha em versos”. E é exatamente isso o que se vê hoje: muito sentimento, muito charme, pouca leitura e nenhuma técnica (não aparente, pelo menos). Mas, sendo honesto, esse estado de coisas é mundial, não se restringe ao Brasil. Gente escrevendo sem ter antes lido poesia, os clássicos, os poetas da tradição da língua, os estrangeiros do século XX, sobretudo os norte-americanos, que mudaram para sempre os rumos da poesia, como a entendemos hoje. Foi essa a dica que recebi de gente muito boa quando era ainda muito jovem e que passo aqui adiante aos mais novos. A meu ver, sem essa bagagem, não se pode escrever poesia, seria uma temeridade. No entanto, o que vemos é o contrário disso e, com as facilidades de veiculação e liberta do livro, dilui-se o significado do que possa ser poesia hoje.

Andreev Veiga – Age, A fala entre parêntesis, “renga” escrita por você e Max Martins em 1982, nasceu a partir da leitura do livro Renga, a chain of poems, escrito por Octavio Paz, Jacques Roubaud, Edoardo Sanguineti e Charles Tomlinson. Pergunto: vocês seguiram à risca o processo de criação ou foi um outro jogo? E em relação ao seu processo de criação, a memória parece ser um tema recorrente em sua obra, como você lida com temas atuais? Para finalizar, você lê a poesia que se faz hoje no Brasil?

Age – É verdade, o livro que escrevemos juntos, Max e eu, resultou do contato com uma pequena edição da renga (“cadeia de poemas”, em japonês) escrita por Paz e parceiros, presente de Benedito Nunes vindo na bagagem de uma viagem aos EUA. Originalmente, iríamos apenas traduzir esse livro, Max, Benedito, sua esposa Maria Sylvia e eu, cada um ocupando-se de um poeta dali, mas logo em seguida ficou evidente que escreveríamos a nossa própria renga, Max e eu, e Benedito ocupar-se-ia do prefácio, esmiuçando as regras do jogo, que não seguimos à risca — e aqui respondo à sua pergunta. Não era nossa intenção escrever poesia japonesa em português, interessados bem mais no encontro que esse texto comunitário originário do século XVI, escrito a duas mãos e contando com dois poetas de gerações diferentes que partilhavam já de uma profunda amizade, pudesse resultar. Para mais detalhes, que não se acomodariam bem aqui, sugiro a leitura de um depoimento que dei no livro Max Martins em colóquio: estudos de poesia (7Letras/UFPA, 2019).

Com relação à sua segunda pergunta, relativa à memória na poesia, essa é tudo o que possuímos! É aquele consolador “Tudo é mais tarde”, paisagem retrospectiva, de que nos fala Drummond, quando reencontramos talvez mais plena e verdadeiramente a experiência vivida. É, no fundo, o que nos salva e redime. Carrego uma “Belém de-bolso”, como tenho num poema, há anos comigo. Ali encontro os meus mortos, casas desaparecidas, ruas percorridas (que às vezes refaço de olhos fechados), modas extintas, a cidade que já não existe, o irreversível, enfim. Seguem, para mim, tendo a sua atualidade. Quero dizer que, ainda que muito raramente me reporte a assuntos de certa realidade imediata, a minha reflexão — se é que existe alguma — se faz a partir do que vi e vivi, da história que carrego comigo.

E, à sua última pergunta: sim, sei o que sai de poesia no Brasil, em grande parte, amigos me provêm de livros quando acham que podem me interessar e eu mesmo faço compras nas passagens por aí. Acho que sou leitor experiente, pelo menos sei logo o que pode me interessar: abro o livro, leio três ou quatro poemas, e avalio imediatamente se vale a pena botar na bagagem.

Carlos Ávila – Que influência ou repercussão teve a língua e a poesia alemãs na sua poesia?

Age – Não sei se conseguiria avaliar bem isso. Vivo em países de língua alemã há trinta e cinco anos, o meu contato com a língua é diário, seria impossível não assimilar, ainda que sob controle e muito consciente, elementos desse idioma na minha própria poesia — sem fazer disso, entretanto, um item programático. Tudo o que pode se transformar em poesia me interessa, e o conhecimento de línguas é parte disso para mim, sempre foi. Refiro-me não apenas à morfologia de certos vocábulos, o que é uma aventura, mas também a elementos da sintaxe, quando a construção da oração pode vertiginosamente surpreender se transposta sem grande acabamento tradutório para um outro idioma, para ficar apenas nestes exemplos.

Há pouco, num sonho, apareceu-me uma palavra que não existe, não dessa forma, assim composta, Morschgott (morsch = podre, Gott = deus), mas que no sonho fazia pleno sentido e eu me via numa floresta ou bosque à beira de um regato, água por ali. Perto, um tronco caído e coberto de musgos, flores silvestres, dejetos também, garrafas plásticas, restos de PVC, detritos minerais. Desperto, me apressei em anotar a palavra, que acabou por me dar um poema. Com alguma sorte, assim também a língua alemã se apresenta para mim.

Mas isso não quer dizer que os meus poemas tenham ‘algo’ de alemão. Isso não. Tudo é uma massa amorfa e bruta de que me apodero e que passa por várias triagens e decantações, até chegar ao poema — em português, às vezes, o mais castiço português!

Tarso de Melo – Age, em 2018, a Secretaria de Cultura do Pará lançou Age de Carvalho: todavida, todavia, uma linda edição organizada por você e pela Mayara Ribeiro Guimarães documentando seu percurso desde os anos 1980. Numa entrevista a Simone Homem de Mello, de 2006, republicada no livro, você afirma: “No que se refere à minha própria poesia, acho que não haveria como evitar o entrecruzamento de idiomas – afinal, vivo em país estrangeiro há mais de vinte anos. Do que à primeira vista poderia ser um empecilho, procurei fazer, não uma estética, mas um caminho que conciliasse os diferentes idiomas que fazem parte do meu dia a dia. Trata-se bem mais de procurar ser verdadeiro comigo mesmo e de fazer da poesia instrumento para o gasto diário, o mais próximo possível da minha vida”. A entrevista é da época do lançamento de Sangue-Gesang, tradução de sua poesia por Curt Meyer-Clason, também tradutor/interlocutor de Guimarães Rosa para o alemão, então você reflete bastante sobre esse trânsito entre português e alemão. Gostaria que você tratasse um pouco aqui dessa experiência por uma outra perspectiva: como foi circular em alemão por aí? Do contato com seus leitores alemães, o que você percebe dessas traduções – uma espécie de retorno do alemão ao português ao alemão novamente?

Age – O livro, infelizmente, praticamente não circulou. Alguns meses após o lançamento, a pequena editora berlinense faliu e fechou. Com isso, a edição ficou empacada. Não só o meu, como o do Max também (o livro Para ter onde ir, traduzido na íntegra por Burkhard Sieber), que ofereci e preparei para a mesma editora. Tempos depois acabei comprando o restante dessas duas edições, a minha e a dele, e desde então os livros circulam apenas entre aqueles a quem faço doação (geralmente, a bibliotecas de universidades daqui e gente do meio acadêmico) ou vendido nas raras leituras públicas de que participo. Portanto, o livro é conhecido apenas em pequenos círculos, ainda que especializados.

Com relação à tradução de Meyer-Clason, ser-lhe-ei sempre grato pelo interesse e atenção que dedicou a esses poemas. Tornamo-nos amigos, apesar da imensa diferença geracional. Durante certo tempo, enquanto vivi em Munique, visitava-o em casa com certa frequência ou saíamos para jantar. Na verdade, ele traduziu muito mais do que consta na edição de Sangue-Gesang (título que poderia ser traduzido por Canto do sangue, mas perdendo assim a metátese e a aliteração — portanto, melhor não traduzi-lo). O material restante daria para um segundo livro, mas nunca me interessei em buscar editor. Já contei isso em outro lugar: a experiência de ler-se em tradução muitas vezes esclarece passagens que para nós mesmos pareciam obscuras no original e, não raro, demonstram claramente certas intenções insuspeitadas para o próprio autor. É justamente esse vai-e-vem entre as línguas de que falas, um espelhismo revelador.

Guilherme Gontijo Flores – (1) Para além do trabalho minucioso de disposição visual das palavras na página e da profusão de imagens desconcertantes sempre presentes nos poemas, como você considera a experiência do seu trabalho visual com design na relação com a produção escrita? (2) Você já está há muito tempo fora do Brasil, embora retorne de tempos em tempos. Como sente sua relação com a produção de poesia em língua portuguesa no momento? É uma distância salutar, ou há algo aí de melancolia também?

Age – Sou formado em Arquitetura, embora nunca tenha feito uso do diploma. Ao sair da universidade, fui trabalhar com design gráfico, à época uma novidade e sem grande campo de trabalho. Isso foi bem no início da década de 80. É daí que provém, em parte, creio, uma certa sensibilidade e o prazer que tenho com as artes e a comunicação visuais, minha profissão desde então. Não vejo onde ou como isso tenha interferido na minha poesia, mas talvez tenhas razão, deve haver um elo aí. Deixo a tarefa a quem quiser se lançar a descobrir os eventuais laços. Mas, num outro nível de ligação, é verdade que todas as edições de meus livros, exceto o Ror (1990), tiveram o projeto gráfico feito por mim, mesmo aqueles que saíram por editoras com departamento gráfico próprio, como a Cosac & Naify e a 7Letras. Para eles fiz o projeto gráfico da coleção de poesia Ás de Colete, dirigida pelo poeta e editor, o querido amigo Augusto Massi, a quem a publicação e difusão de novos poetas no Brasil deve um bocado.

Por sinal, a deixa perfeita para responder à pergunta seguinte: eu diria, sim, que a minha distância do que se produz em poesia no Brasil seja saudável. Aliás, não me preocupo com esse tipo de coisa. Me parece, de um modo geral, que as pessoas estão mais preocupadas em observar e discutir o que outros estão produzindo, em observar a poesia como manifestação sócio-alguma-coisa (discussões e mesas-redondas me aborrecem, seja do que for), do que sentar e trabalhar com afinco na sua própria arte. Sempre fui muito cioso da minha independência e da minha solidão no trabalho: gosto de andar sozinho, nunca andei de turma, não suporto trabalho em grupo (uma tortura a qual às vezes ainda tenho que me submeter). Também não pertenço a nenhum grupo, nem sou filiado a nenhum clube, partido, sindicato, academia, igreja, nada. Tenho horror a qualquer ligação. Escrever poesia é sozinho, não tem saída. Pessoa: poesia “é a minha maneira de estar sozinho”. Isso combina cem por cento comigo. Também, devo dizer, não me sinto à vontade participando de antologias, onde se impõe a companhia com quem não tenho afinidades. Questão de natureza, de temperamento, apenas isso. Nada pessoal, por favor.

Fernanda Marra – Age, na primeira parte de seu livro Trans (2011), com exceção do último poema, todos os demais se dirigem a um interlocutor, um “tu”, outro. O pronome marca a diferença do “eu” que enuncia, mas a direção da “palavra-destino” parece voltar-se para dentro em tom de conversa íntima entabulada na dimensão (im)própria do eu.

Talvez seja isso o que, ao ler seus poemas, tenha me remetido ao dizer de Alejandra Pizarnik sobre a necessidade de se apropriar da linguagem, de fazê-la sua (“hacerlo mío”) antes de buscar transcendê-la. Com Pizarnik, tenho aprendido muito sobre essa relação entre corpo e linguagem e a dificuldade de dizer a lacuna intransigente entre essas dimensões. Para a poeta também o idioma alheio se apresentou muitas vezes como “a única saída”, a saída da qual se valeu sem nunca deixar de ser um limite.

Reconheço nos seus poemas essa distância enunciada nos termos de uma estrangeiridade que transpassa e se evidencia “à beira de si/ no mais íntimo-íngreme” da pele, no caráter fundante do nome para o sujeito que se ergue na linguagem. O “tu”, que destaco da primeira parte de Trans (2011), me diz sobre essa não coincidência do eu consigo, da cisão que só é possível apontar com poesia, isto é, no instante de apropriação em que se faz da língua Outra: “És tu, fala./ […]/ ex, és/ tu?”.

Ao jogo fônico criado com o verbo ser (és) e o afixo ex nesse excerto, assomam os pronomes de segunda pessoa, o uso do imperativo (fala) e a interrogação que, ao final da estrofe, parece por tudo em questão, o interlocutor, o “eu” e a interlocução propriamente. Tudo marca o espaço entre o “eu” que enuncia e o “eu” que lê o que escreve. Um corte que não se restringe a ser tempœspacial, mas é também, na falta de expressão melhor, de si-a-si. 

Esse corte me remete à expressão “violência linguística” usada por Mayara Ribeiro Guimarães, no posfácio a sua antologia para a coleção Postal (2017), editada pela Azougue e pela Cozinha Experimental, para comentar o caráter inventivo de sua escrita que passa pela criação vocabular e pela “fragmentação frasal”. Recursos que, segundo a crítica, obrigam o leitor a completar os espaços lançando mão de seu próprio repertório da língua.

A partir dessas considerações, gostaria que comentasse como é que entende e experimenta esse trabalho com a/ na/ através da língua. A língua tem para você a materialidade de um corpo alheio? Se sim, perdoe se invado a sua intimidade, mas gostaria de saber como é esse corpo a corpo, se o considera um embate violento, se estaria mais para uma carícia no dorso selvagem de um animal que se achega e, vez ou outra, lhe permite tocá-lo, ou se tem ainda uma outra forma de enxergar essa relação.

Age – Esse tu que é um eu que é um tu… Sou eu mesmo, e também o outro, que me lê, embora às vezes eu fale mesmo na primeira pessoa (raramente) e o tu seja realmente um outro. Um jogo de sombras. E é bom que paire sempre essa fronteira difusa mas muito definida também de quem está falando dentro do poema. Trata-se do eu/tu do poema moderno, da enunciação lapidar de Rimbaud, da persona de que se investe Pound, dos muitos heterônimos de Pessoa, da imprecisão de quem ou o que seja Borges. Aqui ninguém se esconde atrás de ninguém: é-se um e trezentos ao se falar de si mesmo — sempre de si mesmo. E eu, particularmente, me sinto confortável na contundência do tu (jamais no macio e suavizado você!), o tu que me parece bem mais íntimo que o próprio eu, também pela naturalidade com que o empregamos no Norte desde sempre.

A luta com a linguagem como uma carícia sobre o dorso de um animal selvagem é uma imagem que me agrada. Posso imaginá-la assim também. Nunca como algo doméstico e seguro, mas relação tensa e inebriante, domando e sendo domado, correndo algum perigo também de ser devorado nessa empresa falida quando o poema não acontece. Nunca sabemos quando a poesia chega, tampouco sabemos se conseguiremos apreendê-la e cristalizá-la no poema. Poesia é mística, é comunicação de outra ordem. É dessa forma que ela me interessa, até porque não tenho outra saída senão aceitá-la assim, não sabendo direito se a tive, se a terei novamente. Ela reina.

Eduardo Sterzi – A leitura que um poeta faz de sua obra às vezes é muito diferente da percepção que os outros leitores têm dela. Uma obra com as características da sua ― a começar pelo seu forte enraizamento nas experiências de vida, sem esquecer a configuração frequentemente críptica de sua escrita ― tende a ampliar esse dissídio. Há algum aspecto na sua poesia que, na sua visão, os leitores, e sobretudo os críticos, até hoje não teriam conseguido perceber ou que perceberam de modo, a seu ver, equivocado?

Age – Ótimo, obrigado pela chance, Eduardo! Ao leitor, ao crítico, a-quem-interessar-possa: que atenham-se ao poema, exclusivamente a ele, cada verso, cada vocábulo, cada escolha eleita pelo poema. Só isso importa. Tudo no poema quer significar e há de se lê-lo palavra a palavra, cada sílaba, o esquartejamento de um vocábulo, o uso ou ausência de sinais ortográficos, todos os seus espacejamentos e reentrâncias. É dessa forma que me interessa ser lido, é dessa forma que escrevo. Tudo no poema está dizendo, sinfonicamente, com todos os seus elementos constituintes, e assim deve ser lido. Toda atenção ao poema, aos múltiplos significados possíveis que, afinal, convergem para a instauração de uma nova realidade: a do poema, inédita, única.

O que ocorre, no entanto, é geralmente o contrário disso: críticas ou resenhas impressionistas, aproximativas, logo buscando parentescos e escorando-se em comparações com obras e autores. Esse, o tom da maioria delas. Nem todas, por sorte, são assim.

Thiago Ponce de Moraes – Age, alguns de seus trabalhos mais recentes sugerem – senão anunciam – um deslocar-se, um colocar-se em outro lugar, um encaminhar-se a: falo de Trans (2011) e de Ainda: em viagem (2015), especificamente, que de modo claro manifestam o movimento de travessia, o ato de partir de um lugar a outro, mesmo que internamente, implicando deslocamento, percurso, passagem. “Passagem” é também o nome de um poema de Pedra-Um (1990), para escolher apenas uma peça de Ror: 1980–1990 (1990) – livro que compila sua obra até então. Outro poema de que me recordo – “Móbile: para Max e Max” –, que foi primeiramente publicado no livro Móbile (1998), com Augusto Massi, e posteriormente deslocado para a abertura do livro Poemas Reunidos (1951–2001), de Max Martins, é finalmente integrado a outros poemas de sua autoria, em Caveira 41 (2003). Caminhos do poema, dos poemas. Para você, na sequência do seu trabalho em poesia, qual é a importância dos caminhos que o poema faz – na linguagem, na escrita, na vida, em direção ao Outro? O que, na sua percepção, essa travessia e essa viagem desejam fundar e buscar no contexto da sua obra? Ainda, nesse sentido, considerando que seus poemas elaboram explicitamente a questão do endereçamento – a quem, a ninguém ou Ninguém; a um tu – e recuperando também seu trabalho em parceria com Max Martins, A fala entre parêntesis (1982), de que modo te parece que a poesia que te atravessa e atravessa a sua voz – e, notadamente, a sua poesia (como leitor primeiro) – pode ser concebida como uma forma de diálogo?

Age – O movimento que a poesia perfaz é a busca do caminho perfeito. Sempre essa busca, espiritual-existencial e estética, através da poesia. É a Travessia dos livros místicos, do homem em direção a Deus, do homem ao homem, do retorno de Ulisses, do meio do caminho da vida de Dante, do final que se abre naquele travessão em Grande Sertão: Veredas. Nesse sentido, como caminho e viagem, a poesia me levou a pensar a minha vida, associadas. Toda a minha fé está nela, nesses poemas, comigo há muitos anos, que me acompanham desde muito cedo e dão notícia de mim. Não brinco com isso, é a minha vida. Talvez soe algo patético dizer assim, mas é isso mesmo.

A viagem, em si, é para mim incontornável, faz parte do meu percurso até aqui. Aparece em muitos poemas e dá título a livros meus, mas é sobretudo o recôndito anseio de voltar para casa, apesar de tantos anos fora, onde quer que esta morada se encontre hoje (certamente dentro de mim mesmo), é essa promessa ardente da volta que me dá alento. Mas ficou tarde para isso. E, nessa peregrinação de permanente trânsito, é no poema que encontro abrigo, o melhor lugar para tratar disso.

Diana Junkes – Sua poesia se apresenta como um caleidoscópio em que as cores, as formas, as temáticas, particular e universal transitam, amalgamam-se, distanciam-se. Se de um lado o deslocamento poderia ser tomado como um leitmotiv, até pelo trabalho intenso como tradutor, que reverbera nos poemas e que deles reverbera nas traduções, de outro as tensões entre lá/aqui – eu/mundo sustentam-se de modo muito belo e potente em termos inventivos. Sem buscar a resolução do que à primeira vista as dicotomias sinalizariam ao leitor, parece-me que em sua poesia o encontro, mais que o deslocamento, e a travessia, mais que as partidas e chegadas, são o que de fato importa ao sujeito lírico, seja em diálogo com a tradição da nossa literatura, seja em diálogo com seu percurso pessoal, como em: “No olho da amêndoa/ no damasco, exposto/ numa lágrima de figo/ sabes: eu não sou/ daqui/ nunca cheguei/ nunca/ saí daqui” (“Naschmarkt”). Você poderia comentar um pouco como, em sua obra, o multiculturalismo, o cosmopolitismo, a partida e as várias chegadas impactaram em sua criação poética (ou não necessariamente impactaram)?

Age – Como disse antes, a viagem tornou-se muito naturalmente, não um tema, mas a realidade mesma em que vivo desde que deixei o Brasil pela primeira vez, em 84. Esse evento haveria de encontrar lugar nos meus poemas mais cedo ou mais tarde. O trecho do poema que você cita diz muito de um impasse criado por essa situação, a de não pertencer à terra que me acolheu, embora seja a minha casa há tantos anos — de nunca haver chegado por, parece, jamais ter saído do lugar. A propósito: o Naschmarkt é uma feira livre centenária da cidade de Viena, onde encontram-se iguarias de todo o mundo, frutas e legumes os mais variados e de diversas proveniências (onde encontrei, um dia, castanha-do-pará, a visão do ouriço me levando em seu bojo de volta a um tempo, uma cidade), um lugar onde sempre me senti bem. Há bares, cafés e restaurantes também, ponto de encontro no verão com amigos daqui e gente de passagem pela cidade. Às vezes, certos lugares é que nos escolhem, e não o contrário.

Maria Esther Maciel – Age, você manteve uma convivência/parceria com o poeta Max Martins por muitos anos, como amigo e seu principal discípulo. Hoje, é o maior divulgador do legado poético que ele nos deixou. De que maneira esse legado incide na poesia que você vem escrevendo e publicando desde os anos 1980?  Poderia também discorrer um pouco sobre as opções estéticas e temáticas que norteiam o seu projeto poético atual?

Age – O nosso encontro foi fundamental para ambos. A partir de abril de 80, quando nos conhecemos,  tivemos uma profunda interação em todos os projetos que realizamos, juntos ou autonomamente — publicação de livros, leituras públicas, viagens, além de uma longa e intensa correspondência entre o Brasil e a Europa por tantos anos. Não vejo uma influência expressa dele nos poemas que escrevo, a nossa pegada é diferente, mas o diálogo (o nosso “lago do diálogo”, como ele pôs num poema), os comentários sobre tudo de ambas as partes, a nossa conversa de tantos anos, o exemplo dele, como poeta e homem íntegro — isso trago comigo, não esqueço, me norteia em muito do que faço.

Quantos aos projetos atuais, acabei de concluir há pouco, durante a quarentena do corona, a organização do último volume da poesia completa do Max, com poemas inéditos e esparsos, cujo título, Say it (over and over again), provém de uma composição de John Coltrane. É o livro mais volumoso de toda a coleção! Deve sair em 2021. Dedico-me a essa tarefa, de organizar e republicar com novo projeto gráfico todos os livros dele, desde 2014, editados primorosamente pela ed.ufpa. Foi o que prometi a mim mesmo quando ele morreu, em 2009. A coleção, agora com 11 volumes, está completa e vejo assim a minha missão cumprida.

E tenho, meu, um novo volume de poemas, De-estar, entrestrelas, o meu livro mais longo até agora e que não penso em publicar logo, também porque, com o advento do vírus, as coisas se complicaram para qualquer projeto. Não tenho pressa. São poemas que têm o céu, em sua grande maioria, por motivo principal. O céu, as estrelas.

Mayara Ribeiro Guimarães – Noto que sua poesia parte de um mundo físico, corporal e profano, aquele dos acontecimentos diários, de onde você retira signos muito concretos, e alcança uma aura do sagrado ou espiritual, do insondável e infinito, capturado pelo poético e talvez por uma dimensão filosófica que vejo em sua poesia e que já foi destacada por Benedito Nunes. Poderia falar um pouco dessa relação?

Ampliando a pergunta, você manteve uma longa amizade com Max Martins, que marcou sua poesia e se estendeu por uma vasta correspondência de 24 anos, que estamos organizando juntos no momento. Nela, vocês comentam criticamente poemas um do outro, dando sugestões, escrevendo poemas a partir de trechos de cartas, de imagens postais ou fotos enviadas, ou mesmo de outros poemas, numa espécie de resposta ou conversa entre textos. Que papel formador Max Martins, seu amigo e mentor, teve na concepção mística-espiritual, existencial e poética de sua poesia?

Age – Os artistas que sempre me interessaram desde cedo têm, todos eles, uma intensa religiosidade para com a vida e nunca deixaram de ter atualidade para mim. Quisera eu poder escrever poemas como o cinema de Tarkóvski, que me deslumbrou quando o vi pela primeira vez, há mais de trinta anos. Tenho uma concepção demiúrgica do papel do poeta, intercedendo entre mundos numa possível epifania, buscando o sagrado no mais terreno e pedestre de nós, feito de “fé e fezes”, como digo num poema. Isso sempre me interessou e é como vale tentar escrever poesia para mim — de outra forma não me interessa. Escrever poesia é uma forma de perguntar, o que quer dizer, encontrar uma razão para ainda estar aqui. A dúvida me interessa, a certeza não — daí a minha indiferença pela Igreja como instituição e suas variantes caricatas e grotescas, tão presentes hoje no Brasil e em governos autocratas de extrema-direita, manipuladores da fé. Fé é liberdade, é caminhar no escuro, tateante, indagando, aventura sempre. Esses são também os caminhos da poesia para mim.   

E, claro, o Max, um grande espírito, teve em larga medida papel formador nessa concepção do que possa ser a minha poesia. Dele, exclusivamente, veio o contato com a filosofia oriental, sobretudo o budismo japonês através de textos de D.T. Suzuki, que por algum tempo foi leitura intensa para mim também. A nossa amizade deu-nos muito, sobretudo a consciência do que seja a amizade, uma grande amizade. Sabíamos disso, tínhamos consciência desse grande encontro, um certo orgulho também. Há um sem-número de cartas nossas que querem apenas louvar e enaltecer essa amizade, um diálogo de tantos anos, diálogo também através de poemas (penso num livro, um dia, composto apenas desses poemas que conversam, dele e meus, que são muitos e que poucos se deram conta).

Gustavo Silveira Ribeiro – Uma questão insistente na sua poesia, Age, me parece ser a da origem. Seus poemas escavam, em múltiplos sentidos e direções, a origem biológica e espiritual da vida, bem como investigam as relações possíveis entre o homem e a terra (de nascimento ou adoção), e ainda entre a língua materna (de origem, portanto) e os demais idiomas que um indivíduo vai manejando ao longo do tempo. A importância das amizades e das leituras/experiências formativas na sua poesia passam por aí, creio, bem como o interesse pela memória e pelo legado que se vai deixar ao futuro. Enfim, a própria natureza do poema e da poesia, nos seus textos, parece ser considerada tantas vezes em sentido originário – daí a dimensão morfológica e etimológica de tantos dos seus versos. De que modo você vê essa questão no seu trabalho? A temática da solidão, tão recorrente também nos seus poemas, tem algo que ver, quem sabe, com esse tema – o que está atrás, o que restará, enfim, da vida no fluxo do tempo? 

Age – Há ocorrências no meu caminho que certamente me levaram a refletir sobre a ascendência ou proveniência das coisas, embora isso apareça na minha poesia sem premeditação, sem que o faça plenamente consciente. O patriarcado forte na figura de meu avô materno que sempre regeu toda a minha família até a veneranda idade de 94 anos, a súbita morte de meu pai quando eu saía praticamente da adolescência, o muito aguardado nascimento de meus filhos, o fato de muito cedo eu ter deixado o Brasil e, mesmo longe, me sentir profundamente ligado sobretudo à Belém e ao mundo amazônico — tudo me levou naturalmente a pensar sobre os “bens do sangue” que trago comigo, herança agora sobrecarregada com os meus mortos, familiares e amigos próximos, que começam infelizmente a se enfileirar. Sim, pensar as origens é, para mim, tentar me entender no mundo, saber quem sou, nem mais, nemo menos, não me deixar tapear com falsas aparências, ainda que sejamos também permanente movimento, não estando eternamente presos ao passado. Os versos iniciais do meu poema “Trans”, transcritos abaixo, que podem ser lidos como um dístico, um emblema do que seja a nossa existência, é, para mim, antes de tudo, a convicção de que somos todas as chances e todas as possibilidades, desde o início, até o fim:

  • Leia um poema inédito de Age de Carvalho:

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