Emicida, senhor do tempo

Tarso de Melo

Leandro Roque de Oliveira sonha – e voa – alto. E leva muita gente consigo. Ele tem ainda 35 anos e surgiu na cena hip hop há cerca de 15 anos, e é incrível como tem conseguido levar a força do rap nacional para outras esferas. Hoje, mais uma vez, ele está em destaque: a Netflix lança seu filme AmarElo – é tudo pra ontem, dirigido por Fred Ouro Preto e produzido pela Laboratório Fantasma, empresa que Leandro, o Emicida, administra com seu irmão Evandro Fiótti, cuidando não apenas de sua carreira musical, mas de um amplo conjunto de ações e produtos com sua marca.

AmarElo, o disco, foi lançado em outubro de 2019 e, um mês depois, Emicida fez um show de lançamento no Theatro Municipal de São Paulo. De lá pra cá, mesmo com uma pandemia no caminho, o disco vem construindo uma história linda, que inclui o Grammy Latino vencido recentemente e diversos desdobramentos, como o podcast AmarElo Prisma. Mas Emicida não é apenas um grande rapper, muito bem-sucedido com seus shows, discos e outros produtos, como roupas e livros. O filho da Dona Jacira quer muito mais: não apenas contar a história silenciada dos negros, mas recontar a história do Brasil a partir da perspectiva que apenas um grande artista forjado na periferia é capaz de abrir. Em resumo: “minha caneta tá fodendo com a história branca”.

O filme gira em torno justamente do show de lançamento de AmarElo, porque o lugar escolhido para o evento é muito importante para a missão de Emicida. Alugar o Theatro Municipal e levar para aquele palco sua música e seu público faz parte do gesto mais amplo de “devolver a alma” a um povo que foi convencido de que não tinha alma, como ele conta no filme. O Theatro simboliza, para Emicida, a relação que os verdadeiros construtores da cidade de São Paulo (e não apenas) mantêm com suas obras: nunca mais poder voltar a elas depois que são ocupadas por seus “donos”.

Emicida não apenas quer subir ao palco e fazer ecoar as denúncias de suas letras, mas fazer também uma grande celebração que, de certa maneira, mostra o caminho para que o povo ocupe o que é seu e passe a olhar para esses espaços “proibidos” e para seus próprios sonhos com outros olhos. Por isso, leva para a plateia e aplaude as lideranças do Movimento Negro Unificado, que décadas atrás se reuniram do lado de fora de Theatro para lutar por direitos e foram atacados pelas forças da ditadura. Por isso, faz desfilar na tela alguns feitos do povo negro brasileiro: do arquiteto escravizado Tebas (Joaquim Pinto de Oliveira) ao jurista Luiz Gama, da história do samba ao Teatro Experimental do Negro (TEN), de Abdias Nascimento, criando uma galeria em que se destacam Geraldo Filme, Mateus Aleluia, Zeca Pagodinho, Wilson das Neves, Lélia Gonzales, Leci Brandão, Ruth de Souza e, claro, o rap nacional.

Na mão de Emicida, no entanto, nada disso é apenas homenagem, nada é apenas uma forma de falar do passado e deixá-lo no museu, na estante, na memória. Assim como o Theatro Municipal não é um lugar que apenas remete a uma injustiça antiga, mas sim a muitas injustiças que se perpetuam e, portanto, exigem novas lutas, contar a história do Brasil é sempre uma forma de retomar a força desses gestos históricos e repropor o futuro. Fazer reviver cada uma daquelas lutas, daquelas inteligências, daquelas belezas, todas vivíssimas, é não aceitar que o tempo também seja tomado pelo inimigo. Quem se impressionava com Emicida vencendo batalhas e rinhas dos MC´s, talvez não imaginasse que ele almejava mesmo era um desafio bem maior: lutar contra o tempo – ser um senhor do tempo, capaz de fazer justiça ao passado e ao futuro num mesmo gesto.

Não por acaso, o filme começa e termina citando um ditado iorubá que coloca o tempo do avesso: “Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje”. E parece que é justamente essa tarefa que Emicida se coloca, porque, se ao artista só resta atirar pedras hoje, isso não significa que ele não possa matar os pássaros de ontem. É contra o tempo que Emicida luta – e o subtítulo do filme não deixa dúvida disso: “é tudo pra ontem”. Para tamanha urgência, ontens e hojes e amanhãs são a mesma arena. Quem já ouviu a faixa-título do disco, que Emicida divide com Majur e Pabllo Vittar, certamente percebeu a força que ganham os versos do poeta paraibano Zé Limeira (1886-1955) imortalizados na canção de Belchior – “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” – justamente porque também colocam o tempo do avesso, ao sacar esperança do fato de que “já não [podemos] sofrer no ano passado”.

O filme termina com um pequeno depoimento e o largo sorriso de Marielle Franco e é bem provável que o lançamento hoje tenha sido pensado para coincidir com uma data terrível: há 1000 dias, exatamente, queremos saber quem mandou matar a vereadora carioca, vítima de um assassinato terrivelmente simbólico, pelo que diz sobre o que este país sempre foi, mas também sobre o pior que ele ainda é e, mais, sobre quão terrível pode ser nosso futuro se não lutarmos contra esses pássaros do passado que insistem em voar por aqui. Emicida, senhor do tempo, ensina a jogar as pedras. Certeiro.

2 comentários em “Emicida, senhor do tempo”

  1. Adorei sua resenha do filme AmarElo do Emicida. Maravilhosa! Só de lê-la já dá muuuita vontade de assistir! Obgda por compartilhar sua escrita e sua voz conosco, na luta contra esses pássaros terríveis! 👏🏼👏🏼👏🏼😍♥️
    Compartilhei nos meus grupos de WhatsApp e na minha TL do FB

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