Tempo, tempo, tempo, tempo…

2020: o ano da aceleração. É a impressão que tenho: a pandemia, ainda em curso, acelerou diversos processos – na vida, no trabalho, na sociedade, na política, na economia, na cultura. Na minha barba. Tudo ao mesmo tempo – na mesma aceleração. O tempo parou? Não me parece. Pelo contrário, o tempo voou. Tudo voou. O trabalho para dentro das casas, a educação para dentro das máquinas, o olhar para a cavidade do umbigo e todas as dimensões da vida colocadas na janela das redes sociais. Envelhecemos mais rapidamente em 2020. O tempo escreveu/inscreveu com a mão mais pesada nesses meses em que parte de nós esteve (e parte dessa parte ainda está) trancada em casa. Nossas relações – em todos os níveis – envelheceram muitos anos durante alguns meses, tanto no sentido de amadurecer, quanto no de perder força, definhar, esmorecer. Minha impressão é que, desde meados de março, o que já vinha piorando nos últimos anos – a degradação das instituições, a devastação dos direitos sociais, os abismos da economia, os nós do afeto – piorou de vez. Alguma coisa nova e boa brotou? Creio que sim, e dizer o contrário seria muito injusto com tanta gente que se empenhou para que coisas novas e boas brotassem (gratidão!), mas acho que ainda é muito cedo para ver alguma renovação nesse horizonte, ao passo que o estrondo da demolição já é indisfarçável. Nossas canções prediletas não conseguem vencê-lo completamente. Lamento, mas vejo – ouço – assim. E não se trata de simples “pessimismo”, mas de reconhecer o peso de um noticiário massacrante e, mais intimamente, de tudo o que investe contra nós dentro de nossos corpos, de nossa cabeça, de nossos mundinhos. O mais importante de perceber esses movimentos, a meu ver, é ficar atento a tudo que nos permita lutar melhor nos próximos anos, porque essa aceleração, no geral, pôs a nu (mais uma vez!) as limitações do capitalismo para oferecer uma vida digna (e mesmo a sobrevida) ao todo da sociedade e, no particular brasileiro, desvelou a inviabilidade desse governo genocida e outras tantas inviabilidades deste país. Reconhecê-las e conhecê-las melhor, a meu ver, é o primeiro passo para começar a abrir novas vias – e é justamente a essa tarefa que devemos dedicar nossa reflexão e nossa ação coletivas, impondo o ritmo que nos permita “ser mais” contra o daqueles que querem nos transformar, cada vez mais, em menos – menos humanos, menos inteligentes, menos generosos. É por pensar assim que vejo como um grande problema a aceleração a que me referi: o pior que pode acontecer a quem luta por uma sociedade mais justa é ser engolido – no plano pessoal e político – por uma dinâmica que não lhe permita sequer entender os processos em que sua vida é consumida. A derrota, nessas condições, é inevitável, porque o combate se dá no tempo – nos seus ritmos, no nosso ritmo, contra os ritmos inimigos. Passou melhor por 2020, a meu ver, quem conseguiu lidar com o tempo de outra maneira (de minha parte, decidi me organizar para estudar mais e melhor – o que só se faz verdadeiramente em coletivos –, e, de alguma forma, percebo que isso me permitiu atravessar 2020 sem ser engolido por sua aceleração doentia e, estranhamente, terminar o ano bastante animado quanto às lutas e aos projetos a que me dedicarei a partir de 2021). Sei que o ano foi muito difícil para muitos amigos e amigas, mas tenho certeza de que o que sobrou de nós – em nós, nosso, comum – é o suficiente para começar a construção de um tempo melhor. Tem que ser. Desejo a todas e a todos que as próximas semanas, com algum descanso, muita saúde e as festas possíveis, ajudem a tirar o peso de 2020 e deem a energia necessária para construirmos – juntos – um 2021 realmente novo, em que seja “possível reunirmo-nos”, como diz a canção, “num outro nível de vínculo”. Beijos!

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