Folheto, de Paulo Dantas

A Alpharrabio Edições lança no próximo dia 16/2, terça, às 20h, no seu canal do youtube, o novo livro de poemas do paraibano Paulo Dantas, Folheto. Terei o prazer de participar dessa conversa cheia de versos com o autor e as poetas Dalila Teles Veras e Rosana Chrispim.

O link para o evento é este (aproveite e se inscreva no canal do Alpharrabio!):

Se quiser encomendar logo o livro, passe na lojinha:

https://sacola.pagseguro.uol.com.br/584f883c-86e3-42d1-820e-fc37cc8985ff?fbclid=IwAR28-zlz1m1kKSeMD9vf7-OyEbDehk_Vs17c7EnnCWxgkw4he7Xi1t1s8hE

Leia abaixo o texto que escrevi para a orelha do livro:

Faz mais de 10 anos que estou de olho nas pegadas do Paulo Dantas. Lembro dele chegando, olhos esbugalhados, o sorriso fácil, camisa xadrez, cabelo comprido, meio de banda, como um sertanejo reconhecendo o terreno. E logo ele confessa que era isso: não sabia se ali, numa oficina em que as coisas saíam de dentro de livros e mais livros, era o lugar para sua poesia que saía da terra, do abraço, da memória, para ganhar forma no ar, com uma voz capaz de dar vida – onde quer que esteja – a todo o riquíssimo acervo que ele colheu nas viagens que seu coração faz entre a Paraíba e São Paulo. E, quase como se pedisse desculpas, Paulo me falou: “eu faço cordel”. E eu só pude responder: “que sorte a nossa!”. E essa sorte só aumenta.

É de uma poesia sabida de cor que estamos falando. E poucas vezes essa expressão foi tão precisa: Paulo escreve e sabe os poemas com o coração, o coração todo, e o ritmo dos seus versos é uma espécie de pulsação – seu passeio entre o metro guardado no fundo da alma pelo cordel ouvido desde sempre e a incorporação (leia-se: colocar dentro do corpo) de outros sons, ruídos, batidas, vozes que o poeta encontrou pelo caminho.

Paulo é uma espécie de caixa de ressonâncias que recebe as palavras do mundo e as devolve num arranjo preciso em que nos acolhe. É assim que sua voz nos leva a um mundo di versos incarnados, nome de espetáculo de poesia que o poeta faz por aí. Eis a fórmula: mundo, versos, carne. O mundo que penetra na carne para se fazer verso e salta da carne do poeta – como verso, como outro mundo – para seguir incarnando, matéria vermelha, nos seus irmãos.

Quem já ouviu Paulo falando seus poemas entende por que aproveito a orelha deste Folheto para falar daquilo que, aparentemente, não cabe no papel – a voz. Já disse ao Paulo que não sou um bom intérprete de sua poesia, porque tenho em minha memória a marca de sua voz forte projetando poemas que dominam o ambiente. Sou incapaz de abrir os papéis em que seus poemas têm sido gravados nos últimos tempos sem repetir – de cor – a voz que tenho o prazer de ver sair da carne em tantos saraus. À distância, repito em silêncio a voz antiga nos versos novos do poeta tão logo começo a ler os poemas aqui reunidos, em que a forma do cordel pode desaparecer dos olhos, detrás de versos de muitas formas, porque foi profundamente incorporada – incarnada – e encontrou outros meios, talvez mais intensos, de entrar pelos ouvidos, sair pelas bocas, dançar sobre nossa cabeça.

Quando Paulo começou a falar em juntar seus poemas em livro, a primeira pergunta que fiz foi justamente sobre como ficaria sua poesia nesses suportes quietos que deixamos nas prateleiras. Como colocar no papel o mapa para todo aquele universo que se abria, claro, com a escolha precisa das palavras, mas com uma forma igualmente precisa de lançá-las no ar? E Paulo veio com A butija dos dizer (2018) e abrir sua butija longe da voz do poeta revelou, na verdade, uma riqueza ainda maior. Se temia que os poemas perdessem algo no papel, eles me mostraram o contrário: ganharam um palco a mais para mostrar suas tantas artimanhas.

E agora, em Folheto, a poesia de Paulo dá uma volta a mais nesse mundo di versos incarnados: quando parece mais distante de suas raízes, é que tais raízes estão se aprofundando ainda mais. Um certo jeito de usar a língua, palavras e imagens que arrastam nossa cabeça para o sertão, outras que nos devolvem para nossos apartamentos, para nossas ruas, para o asfalto, um ritmo aprendido na “poesia popular” e mesmo diretamente na fala-faca do povo – tudo nessa poesia se liga profundamente para dar conta dessa conjugação incrível entre um arsenal trazido na sua butija e os enfrentamentos que a vida neste outro mundo e neste tempo exige.

Com esse título que remete ao universo do cordel, mas também ecoa o “panfleto” das lutas políticas, Folheto é um livro de combate, em busca da “comunhão possível”, que passa pela poesia. Atravessado pelas tristezas do nosso tempo, Paulo escreve para atravessá-las. Cercada pelos gritos da selvageria, a poesia de Paulo revida – responde com vida contra os ataques da morte, canta – estrebucha – “enquanto restar-nos/ um cotoco de lápis”. Sorte nossa.

Tarso de Melo

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