O último abraço

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Bangladesh 24042013

a foto final, o último fôlego,

nervos entre vigas (vida, não ouso,

não ouço), o sangue irmanado

ao concreto, o amor sob o pó,

sonhos sob os escombros: foi a última

vez em que meu corpo soube o seu,

foi a primeira vez em que nós fomos

apenas corpo, apenas corpos, nós

que antes éramos aço e músculos,

músculos e aço agora enlaçamos o pó

do que éramos, o pó a que fomos,

mil como nós abraçados à morte,

tecidos agora ao que tecíamos,

nossas roupas e as roupas em que

nos tornamos, agora que nosso amor

se chama morte, agora que nosso

mundo é ainda menor, apenas nós,

nosso pó, um nó entre nós e tudo.

[Do que se trata: http://www.nydailynews.com/news/world/bangladesh-factory-collapse-victims-found-final-embrace-image-article-1.1339426]

Uma plaquete

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As mortes de Oscar

104, quase 105 anos levando consigo seus mortos

104, quase 105 anos guardando a morte para depois

104, quase 105 anos cedendo a vez à morte alheia

e Oscar, menino antigo, regendo o mundo com o lápis infinito,

interrompia as curvas do concreto para gravar as baixas

das trincheiras, do Pacífico, do Mar do Norte, Belgrado

os mortos de Oscar, soterrados sob um “x”, chegavam em bandos

do Kosovo, Ruanda, Dafu, Afeganistão, Sérvia, Iraque

da Somália, Etiópia, Sudão, Libéria, Angola

despencavam do Andraus, do Joelma, das Torres Gêmeas

saltavam além das redes antissuicídios

sucumbiam nas Malvinas e nas tribos guaranis

apinhavam os trens de Auschwitz, Buchenwald, Dachau

sumiam sob o gelo da Sibéria e ao sol do Caribe

erravam de Treblinka a Guantánamo, da Bósnia ao Haiti

fartos de gás mostarda, agente laranja, napalm, antrax

(Oscar guarda até hoje todos os gritos do DOPS

os ecos da Candelária, o sangue dos 111, as ordens do PCC

os estampidos insones e o vermelho quente

intenso a correr pelas vielas do Jardim Ângela e além)

com Oscar enterramos todas as suas mortes

e não sabemos o que fazer com as mortes de amanhã

[No final de 2012, logo após a morte do arquiteto e por ocasião do lançamento de meu Caderno inquieto, este poema nasceu e virou plaquete, de 104 exemplares, pelas mãos de Luzia Maninha]

Há o que ler

Artigo sobre overdose de trabalho:

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos%2canfetamina-espiritual%2c1111357%2c0.htm

 

Entrevista com o sociólogo português Elísio Estanque:

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos%2cmenos-valia%2c1111334%2c0.htm

 

Entrevista com o sociólogo brasileiro Michael Löwy:

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,quer-apostar,1113143,0.htm

 

Perfil do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro:

http://umaincertaantropologia.org/2014/01/06/o-antropologo-contra-o-estado-piaui/

De quem tomei o nome

Tanto silêncio
Manuel António Pina

Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência,
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz «eu»;
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras «o teu coração»)?

[de Os livros, 2003]