Lula Livre Lula Livro

lula livre_CAPA_19jul2018 - baixa definição

Escritores e cartunistas lançam
livro-manifesto pela liberdade de Lula

 

Organizada pelos escritores Ademir Assunção e Marcelino Freire, antologia Lula Livre / Lula Livro reúne autores como Augusto de Campos, Chico Buarque, Raduan Nassar, Aldir Blanc, Alice Ruiz, Chico César, Frei Betto, Laerte, Eric Nepomunceno, Noemi Jaffe, Chacal, Caco Galhardo, Marcia Denser, Gero Camilo, Raimundo Carrero e Xico Sá, entre outros. O livro será lançado dia 28 no circuito Off Flip em Paraty.

 

Oitenta e seis escritores e cartunistas brasileiros, de todas as regiões do país integram o livro-manifesto Lula Livre / Lula Livro, coletânea de contos, poemas, crônicas e cartuns pela liberdade do ex-Presidente Lula.

Segundo os organizadores Ademir Assunção e Marcelino Freire a publicação manifesta o inconformismo dos autores, “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”, conforme o texto de introdução (leia a íntegra a seguir).

Ainda conforme os organizadores, “o propósito do livro é criar mais um fato de repercussão, a partir da tomada de posição dos escritores, poetas e cartunistas, para engrossar os movimentos nacionais e internacionais contra a farsa da prisão do ex-presidente – e o golpe anti-democrático que representa a sua exclusão do processo eleitoral de 2018.”

Além da versão impressa, com 184 páginas, Lula Livre / Lula Livro terá um site na internet com os contos, poemas, crônicas e cartuns e a disponibilização do PDF da publicação.

“Fazia muito tempo que os escritores não tomavam um posicionamento conjunto tão vigoroso. Os descalabros que estão acontecendo no País desde o golpe de 2016 é que criaram a necessidade dessa manifestação político-literária”, dizem Ademir e Marcelino.

Estão sendo planejadas ações junto aos movimentos sociais para divulgar e repercutir o livro-manifesto em todo o Brasil e também no exterior.

 

Segue o texto de apresentação:

 

LULA LIVRE / LULA LIVRO

 

“Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.”

Camões

 

Joseph K., o conhecidíssimo personagem de Franz Kafka, se vê enredado em um processo judicial cujas origens desconhece e cujo desenrolar vai se tornando cada vez mais obscuro, sórdido e absurdo.

O processo que assistimos no Brasil contemporâneo, contra uma figura pública central da história política dos últimos 40 anos, guarda semelhanças e dessemelhanças com o enredo kafkiano: se o seu desenrolar expõe uma lógica absurda, suas origens e fins são muito delineáveis.

Travestido com togas cheias de furos e remendos, simulação grosseira dos ritos legais que deveriam nortear a Justiça (com J maiúsculo), ele obedece a princípios e a um calendário com objetivo calculado: eliminar da disputa presidencial de 2018 o candidato com mais chances de vitória.

Orquestrado sob o pretexto de combate à corrupção – combate sempre bem-vindo e necessário – sua utilização camufla, porém, objetivos maiores: barrar as mudanças significativas que estavam em curso no país – muitas delas resultantes de demandas seculares –, principalmente a mais significativa, mas não a única: a retirada de 36 milhões de brasileiros do cinturão de miséria, através de políticas, programas e investimentos sociais reconhecidos e valorizados internacionalmente.

Como já visto em outros momentos da história recente, sob os mesmos pretextos e com métodos semelhantes, o que se concretiza é um golpe contra os interesses da maioria da população, para manter os privilégios de uma minoria.

Basta verificar que, logo após a consolidação da primeira etapa do golpe, uma das medidas aprovadas pelo Congresso Nacional foi a reforma trabalhista, que retira direitos históricos dos trabalhadores e agudiza ainda mais a crônica desigualdade socioeconômica brasileira.

É nesse contexto que surge este livro-manifesto. Mais do que um documento literário, o que se pretende é um documento claramente político, com as armas que os autores utilizam em seu fazer criativo: poemas, contos, crônicas, ensaios e cartuns.

Os 86 poetas, prosadores e cartunistas aqui reunidos – de todas as regiões do país – atenderam ao chamado, na urgência dos fatos em curso no Brasil, para manifestar seu inconformismo com a prisão política do ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.

Em um prazo curto, de poucas semanas, autores “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”, conforme consignado no texto-convite enviado a cada um deles, fizeram questão de levantar a voz e enviar suas colaborações inéditas em livro.

O título é uma clara tomada de posição de todos os autores pela liberdade de Lula, mas a temática dos poemas, contos, crônicas e cartuns vai além: em rápidas pinceladas, determinadas pela urgência da iniciativa, procura manifestar o descontentamento com as mazelas de um país massacrado pela histórica e brutal desigualdade socioeconômica, e pelo retrocesso social, político, cultural e mental representado pelo golpe de 2016, quando a presidente Dilma Rousseff, eleita por 54.501.118 brasileiros, foi destituída através de uma manobra orquestrada por setores políticos, jurídicos e midiáticos, a pretexto de prosaicas e já esquecidas “pedaladas fiscais”.

O ódio abertamente fomentado na população por grande parte dos meios de comunicação de massa, o cinismo de acusações generalizadas, muitas vezes disparadas por notórios personagens aviltantes, e o escárnio com as regras do jogo democrático, manipuladas ao bel prazer de interesses obscuros, repetiram uma liturgia já vista em outros momentos históricos do Brasil, posta em prática sempre que se procura uma ordenação mais justa na vida social e econômica do país.

O propósito deste livro, portanto, é o de unir as vozes destes autores aos movimentos nacionais – e até mesmo internacionais – contra a farsa da prisão do ex-Presidente Lula, e contra a continuidade do golpe anti-democrático representado por sua exclusão do processo eleitoral de 2018.

Pelo fim da prisão política de Luiz Inácio Lula da Silva; pelo direito dos eleitores votarem –  ou não –  em sua candidatura para a Presidência da República; pelo retorno do Brasil à normalidade democrática, é que se deve a existência deste Lula Livro.

 

Ademir Assunção / Marcelino Freire

 

LISTA COMPLETA DOS AUTORES

 

ademir assunção * ademir demarchi * adriane garcia * afonso henriques neto * alberto lins caldas * aldir blanc * alice ruiz * andréa del fuego * antonio thadeu wojciechowski * artur gomes * augusto de campos * augusto guimaraens cavalcanti * beatriz azevedo * bernardo vilhena * binho * caco galhardo * carlos moreira * carlos rennó * celso borges * chacal * chico buarque * chico césar * claudio daniel * diana junkes * douglas diegues * edmilson de almeida pereira * edvaldo santana * eltânia andré * eric nepomuceno * evandro affonso ferreira * fabio giorgio * fabrício marques * fernando abreu * ferréz * frei betto * gero camilo * gil jorge * glauco mattoso * jessé andarilho * jorge ialanji filholini * josely vianna baptista * jotabê medeiros * juvenal pereira * karen debértolis * laerte * lau siqueira * linaldo guedes * lucas afonso * luciana hidalgo * luiz roberto guedes * manoel herzog * marcelino freire * márcia barbieri * márcia denser * maurício arruda mendonça * noemi jaffe * patrícia valim * paulinho assunção * paulo césar de carvalho * paulo de toledo * paulo lins * paulo moreira * paulo stocker * pedro carrano * raduan nassar * raimundo carrero * ricardo aleixo * ricardo silvestrin * roberta estrela d’alva * rodrigo garcia lopes * ronaldo cagiano * rubens jardim * sandro saraiva * sebastião nunes * seraphim pietroforte * sérgio fantini * sérgio vaz * sidney rocha * susanna busato * tarso de melo * teo adorno * vanderley mendonça * waldo motta * wellington soares * wilson alves bezerra * xico sá

Covardes, Covards

marcus

COVARDES


Tarso de Melo

 

 

admiro

a fina coragem

dos covardes

 

quando cercam

com um bando de línguas

a língua da moça

e fazem os lábios dela

rirem de si próprios

para seu gozo

em alta resolução

 

quando se escondem

na multidão

que grita xinga ataca

em arquibancadas

e no conforto

sem nome

de novíssimos

e espertos telefones

 

quando passam

lá no alto

com suas hélices

e grossos calibres

apagando miseráveis

e manchando vidas

uniformes

 

quando se juntam

em rodas vivas

para matar mulheres

que tentam falar

que eles estão errados

 

quando passam

blindados

no céu ou no asfalto

sobre corpos esquálidos

 

quando cavam

com suas canetas douradas

infinitas covas

de setenta palmos

em folhas de sulfite

pagas pelo erário

 

quando quebram

com golpes de ódio e aço

os ossos frágeis

em que veem ameaças

 

é que mais admiro

a fina coragem

dos covardes

 

 

COVARDS

Trad. Josep Domènech Ponsatí

 

admiro

la delicada valentia

dels covards

 

quan envolten

amb un ardat de llengües

la llengua de la noia

i fan que els llavis d’ella

se n’enriguin de si mateixos

per al seu gaudi

en alta resolució

 

quan s’amaguen

entre la multitud

que crida insulta ataca

a les graderies

i en la comoditat

sense nom

de telèfons novíssims

i astuts

 

quan passen

allà dalt

amb les seves hèlixs

i grans calibres

eliminant miserables

i tacant vides

uniformes

 

quan s’ajunten

en cercles viciosos

per matar dones

que intenten dir

que ells s’equivoquen

 

quan passen

vehicles blindats

pel cel o per l’asfalt

sobre cossos esquàlids

 

quan caven

amb els seus bolígrafs daurats

infinites coves

de setanta pams

en fulls de paper offset

pagats per l’erari públic

 

quan trenquen

a cops d’odi i acer

els ossos fràgils

on veuen amenaces

 

és llavors quan més admiro

la delicada valentia

dels covards

A luta continua

APS

A luta continua? Sim. Estava lendo “A verdade vencerá”, livrão que a Boitempo lançou há pouco com uma longa entrevista de Lula, e me deparei com essa foto. Lula saindo do Sindicato dos Metalúrgicos em 1979. A foto já é forte o bastante para quem está hoje, quase quatro décadas depois, vendo o mesmo personagem no centro da convulsão política do país, mas, para mim, bateu ainda mais forte ver aquela cabecinha ali atrás: o advogado e escritor Antonio Possidonio Sampaio, que nos deixou, aos 84 anos, em junho de 2016. Trabalhar quase 20 anos numa mesa há poucos metros da sua deve ter me marcado mais do que imagino. E, mais do que podíamos imaginar, a história se repete por aqui. Pois é… os amigos vão embora, mas seus exemplos e suas lutas seguem conosco. No dia seguinte à intervenção, a Folha de S. Paulo publicou a seguinte nota:

«LULA, O FIM DE UM LÍDER?
Luíz Inácio da Silva, 33 anos, casado, três filhos, torneiro mecânico da Villares, Cr$ 18 mil cruzeiros mensais, está perpetuamente excluído de qualquer participação em cargos diretivos de entidades de classe, se literalmente obedecido o artigo 530 da CLT. Como Benedito Marcílio, de Santo André, e João Lins Pereira, de São Caetano, Lula foi substituído ontem, na direção do Sindicato de São Bernardo e Diadema, por um interventor federal.
A intervenção já era esperada por Lula, que surgiu como dirigente sindical em 1972, quanto ocupou cargo ao qual estavam afeitas as questões de previdência social na diretoria de seu Sindicato. Em 1975, elegeu-se pela primeira vez presidente, e em abril do ano passado foi confirmado no posto com 97,3% dos votos. Este seu segundo mandato deveria terminar em abril de 1981.
Ontem, Lula afirmou que deixava a presidência do sindicato com a consciência tranquila, pois “não traíra a classe dos trabalhadores”. Disse que o movimento grevista continuaria, porque era uma decisão de 80 mil trabalhadores em assembléia e não apenas dele: “Se hoje ainda não chegamos à vitória, tenho absoluta certeza de que a classe trabalhadora saberá lutar para conquistar o seu lugar na sociedade”.»

Que assim seja. Continuemos na luta.

No centro da roda viva, Lula

lula boulos

Muito importante ver Guilherme Boulos no centro da roda. Não só dessa Roda Viva infelizmente tão apequenada na hora de escolher os entrevistadores, mas das rodas de debate sobre como deve ser um Brasil mais justo, em todos os campos.
Já estamos acostumados a ver as ideias mais relevantes da esquerda colocadas para fora do debate político nas arenas da direita. Falar em superação do capitalismo e defender o socialismo são posturas que nunca couberam nos esquadros da “grande” imprensa.
E, também por isso, até mesmo as figuras que se destacam à esquerda são levadas a um debate que, normalmente, é circunscrito às pautas e possibilidades mais ou menos admissíveis no centro e até na direita. O raio da discordância é pré-determinado.
Boulos, no entanto, sabe dessas ciladas e, por isso, teve tanta desenvoltura ontem. Não se deixou prender nos limites do debate que interessa aos entrevistadores. E a gente sabe: o discurso que tem feito sucesso à(s) direita(s) não tem a menor condição de se contrapor ao de quem pensa as questões do país a partir da e contra a desigualdade social.
Enquanto falamos de Boulos aqui, a notícia do lado de lá é o encontro entre uma atriz de quinta categoria e o procurador jejuno do powerpoint… Mesmo a cartilha anticorrupção, que arrastaram até aqui, não é mais capaz de esconder seu uso parcial contra o PT. Salvo nos casos mais patológicos de antipetismo e paixão destrutiva por Lula, já há bastante silêncio no apoio à Lava Jato.
Diante disso, não podemos deixar de desqualificar esse debate “constragido” pela direita (em que até opiniões criminosas são admitidas!) e, de outra parte, qualificar cada vez mais à esquerda a pauta que importa para a maioria dos brasileiros. Boulos vai ser fundamental nesse processo, mas o nó a desatar ainda é o destino do presidente Lula.
Se o golpe conseguir tirá-lo completamente da disputa, não temos porque acreditar que uma candidatura até mesmo mais radical, como a do Boulos, vai ser tolerada. O golpe, no caso de Boulos, vai se antecipar às urnas (já coloque nessa conta os ataques à luta por moradia que temos assistido), como era com Lula nas suas primeiras candidaturas, quando seu discurso também eriçava os cabelos de outras rodas de entrevista.
Boulos nos anima, claro, mas ainda é cedo para tirar Lula do baralho, por mais complicada que seja a situação atual. Boulos mesmo disse: “Lula está vivo e é candidato”, porque até mesmo suas chances passam por aquela cela em Curitiba. Se Lula não estiver livre, é pouco provável que alguém na esquerda esteja. No mínimo, em termos eleitorais.

Vozes Versos | Quelônio

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Meu xodó! Essa coleção das plaquetes do Vozes Versos, feita nas oficinas da Editora Quelônio, está cada dia mais linda. E vai se tornando uma bela mostra do que anda acontecendo na poesia brasileira em nosso tempo. Até dezembro, serão 49 poetas. Já temos 8 plaquetes já lançadas, com poemas de Cide Piquet; Júlia Studart; Manoel Ricardo de Lima; Alberto Bresciani, Ana Estaregui e Marceli Andresa Becker; Thiago Ponce de Moraes, Micheliny Verunschk e Marcos Siscar; Marília Garcia, Paulo Ferraz e Joana Barossi, traduzindo Nicanor Parra; Francesca Cricelli, Marcelo Sandmann e Reynaldo Damazio; Ademir Assunção, Diana Junkes e Matheus Guménin Barreto; no encontro de 19 de maio, chegam André Luiz Pinto, Guilherme Gontijo Flores e Mônica de Aquino. Além delas, está no forno, para breve, a plaquetona “Primeiras Vozes”, reunindo os 13 poetas que participaram dos encontros anteriores à parceria com a Quelônio: Fabio Weintraub, Jeanne Callegari, Júlia De Carvalho Hansen, Reuben Da Rocha, Iago Passos, Julia de Souza, Ruy Proença, Dalila Teles Veras, Renan Nuernberger, Lilian Aquino, Annita Costa Malufe, Fabiano Calixto e Rita Barros. Se você é de São Paulo, compareça aos encontros na Tapera Taperá para ouvir os poetas e adquirir as plaquetes. Se não puder, entre em contato com o Bruno e a Silvia da Quelônio (quelonioeditora@gmail.com) para adquirir as plaquetes anteriores e/ou fazer assinatura da coleção completa com 15 plaquetes. 🙂

São Paulo, Edifício Wilton

1

[1/5/2018, 6h53] Ainda não sabemos o que causou o incêndio num prédio de 26 andares no centro de São Paulo. Não sabemos quantas e quem são as vítimas do desabamento. Talvez nunca saibamos bem. Famílias em busca de moradia. Muitas famílias, como tantas outras espalhadas pela cidade. São Paulo é uma das cidades mais ricas do mundo, mas em São Paulo algumas das pessoas mais pobres do mundo lutam para sobreviver. Morrem lutando por qualquer coisa parecida com uma casa, alguma comida, o que der pra fazer. Há quem ache isso normal, há quem culpe os miseráveis pela miséria. O governador diz que era uma “tragédia prevista” e já indica que vai usar essa tragédia para combater outras ocupações. É sempre assim. E é inevitável relacionar essas cenas de incêndio e desabamento, atingindo famílias pobres, com a situação vivida pelo país neste momento. Um país em chamas. Um país desabando. Um país em que aqueles que estão nas piores condições são vítimas de tragédias ainda maiores. Em que toda a pobreza, a precariedade e a insegurança cobram sua conta em mortes. Nesse fogo, nesses escombros, há um retrato do país. Um retrato terrível.

 

[15h39] Era 11 de julho de 2017. Eu estava com Carlos Augusto Lima andando por São Paulo e tirei esta foto de dentro da Galeria do Rock. O prédio estava lá. Como um monumento contra as injustiças da cidade. Um monumento feito com as injustiças da cidade. E agora se foi.

2

[18h23] Michel Miguel Elias Temer Lulia. Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho. Márcio Luiz França Gomes. João Agripino da Costa Doria Jr. Bruno Covas Lopes. Sabemos que, antes deles, outros também têm sua parte de responsabilidade pela tragédia de hoje. Sabemos que, depois deles, outros continuarão indiferentes ao destino da maior e mais pobre parcela da população. Não me importa o nome-fantasia que usam nas eleições, as mentiras que contam, as caras e bocas que fazem. O que me importa agora é registrar esses nomes. Por inteiro. Nomes de homens brancos e ricos que grande parte de nós tem escolhido para – ou tolerado – que sejam nossos representantes. Nomes que nunca vão aparecer na lista de mortos em situação de vulnerabilidade. Ou na lista das pessoas que correram de suas casas de madrugada deixando tudo – roupas, documentos, parentes – para arder no fogo. Nenhum nome deveria aparecer nessas listas. É o que eu acredito. Mas aqueles senhores, na primeira oportunidade que têm, tripudiam das vítimas. Culpam as vítimas. Dizem um sonoro “bem feito, eu te disse”. Em nenhum lugar em que eu leia esses nomes ficarei feliz e concordarei com a presença deles. Muito menos numa urna. Muito menos na lista dos eleitos. Temos sido, desde muito tempo, falsamente representados por gente que, na verdade, representa poucos, bem poucos. Michel Miguel Elias Temer Lulia, Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho, Márcio Luiz França Gomes, João Agripino da Costa Doria Jr. e Bruno Covas Lopes, no entanto, me parecem representar ainda menos pessoas – e rir, sem dó, de todas as demais.

 

[22h23] Sequer esfriaram os escombros, a GloboNews já mostra suas garras: está passando uma matéria sobre outras ocupações e “seus riscos”… A estratégia é simples: colocar a população (ainda mais) contra os movimentos de luta por moradia, agora com o discurso de que as ocupações são precárias e, portanto, irresponsavelmente perigosas. Não podemos acusar ninguém de dar causa ao incêndio e desabamento de hoje, mas temos o dever de acusar esses usos escrotos de uma tragédia para reforçar os ataques da elite ao povo em defesa de seus interesses. A Globo, como de costume, é a voz dessa elite sem escrúpulos.

3

[2/5, 12h28] SEM TETO

 

são cerca de 500

quinhentos mil

mil vezes quinhentos

imóveis desocupados

vazios vagos sem ninguém

na grande – grande –

são paulo

 

toda vez que passar

por alguém que mora

mora, digo, vive

digo, sobrevive, submora

nas ruas, digo, nas calçadas

digo, nas ocupações

sob lona, cama de papelão

 

lembre-se

 

são 500 mil imóveis

digo, quinhentas mil

possíveis casas

sem ninguém

na região metropolitana

mais rica do país

 

toda vez que ouvir

o prefeito dizer

que não foi nada

toda vez que ouvir

o governador dizer

favas contadas

toda vez que ouvir

os jornalistas dizendo

que “imóveis sofrem

invasões”, deixe-se invadir

pela memória de que

há mais casas sem gente

do que gente sem casa

 

(e gente sem casa

é quase como não ser gente

e casa sem gente

é quase como não ser casa)

 

mas as portas estão

tristemente trancadas

Lula, outras notas

livros

[9/4] Estão divulgando o endereço para envio de correspondência para o Lula em Curitiba e, previsivelmente, já tem infeliz fazendo piada com isso… É claro que eu espero que o carteiro não o encontre lá, mas amanhã vão para o Correio esses dois livros e uma carta. O maior, sei que ele já tem: é a segunda edição reunida de dois livros sobre suas primeiras batalhas sindicais/políticas, escritos por um grande amigo seu, que, se estivesse vivo, certamente iria ao correio amanhã também. E o outro é uma antologia em que ao menos um poema liga o coração de Lula ao do Possidonio: “O operário em construção”. Para quem se animar também, o endereço é:

DIRETÓRIO DO PARTIDO DOS TRABALHADORES

a/c Presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Alameda Princesa Izabel, 160

São Francisco, Curitiba – PR, CEP 80410-110

 

[10/4] Já perdi a conta de quantas vezes ouvi, de formas pouco ou nada carinhosas, a pergunta: “como é que você ainda defende o Lula?”… Creio que essas pessoas veem na minha posição alguma incoerência que eu mesmo ainda não percebi, nem quero perceber, caso me obrigue a estar do mesmo lado dos que comemoraram a prisão de Lula (no Bahamas e noutras casas). Mas a questão é mais grave. Até pouco tempo, eu tenderia a ficar quieto se alguém dissesse que, não é por não terem sido punidos os políticos dos outros partidos (quero dizer: os tucanos), que Lula não deve ser punido. E poderia até evitar o debate se alguém dissesse que Lula foi condenado após um devido processo legal. Mas agora é muito mais evidente que as duas afirmações acima estão erradas e vão cobrar um preço muito caro de todos nós. Primeiro, é óbvio que Lula está sendo punido justamente para que todos os outros (tucanos, em especial) não venham a ser punidos – nos processos e, mais que tudo, nas urnas, pelos eleitores do país todo, juízes em última instância dessa parada toda. Segundo, é óbvio também que o processo tinha um objetivo determinado de antemão (a prisão de Lula) e que nada, nada, nada poderia mudar ou desacelerar esse rumo. Moro e seus amigos do TRF estavam com suas decisões tomadas desde o jardim de infância! Quem duvida pode dar uma olhada em outras decisões de Moro na própria Lava Jato ou na quantidade de condenados em segunda instância (na Lava Jato ou fora dela) que ainda não foram presos, nem mesmo incomodados pelo oficial de justiça. Diante disso, lembro daquela pergunta: “como é que você ainda defende o Lula?”… Defendo, sim, e cada vez mais tenho convicção de que é o melhor a ser feito. Por ele e, mais que tudo, por nós, como tenho repetido por aí. Vamos.

 

[11/4] Manter Lula vivo, manter Lula na política, manter Lula grande: temos que continuar diariamente nessa luta. Porque, do outro lado, após a prisão, toda a ofensiva será no sentido de apagar Lula (simbolicamente ou pior), circunscrever Lula ao noticiário policial, reduzir Lula a “um preso como qualquer outro”, porque todos ali sabem que Lula é um preso político e não terão pudores para inventar formas de reduzir sua força. E nossas forças. Temos que insistir em demonstrar que, dadas as circunstâncias de sua prisão, Lula não é um simples “político preso”. É um preso político. E nossa contraofensiva tem que ser urgente e persistente, porque o Judiciário, em diversos níveis, vai fazendo suas ações de apagamento de Lula: indefere um pedido de visita formulado por 11 governadores (Acre, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe), alguns senadores, deputados e dirigentes políticos; bloqueia indevidamente os bens de Lula, Okamoto, Instituto Lula e LILS; suspende ações que podem impactar na ordem de prisão etc. O noticiário agora será cheio disso. Tudo para fragilizar e apequenar Lula e dificultar sua defesa jurídica e política. Uma tempestade de ataques para soterrar Lula, a que temos que reagir no limite de nossas forças: ocupando as ruas, disputando em todos os canais de comunicação, dando apoio a quem luta em outras trincheiras. Aliás, quando tudo parece desabar, tenho percebido aqui e ali, na conversa com amigos, uma vontade crescente de pertencer a partidos políticos e atuar mais diretamente nessas lutas. Muita gente já percebeu que, no fundo, a tentativa de apagamento de Lula tem objetivos maiores e piores: apagar o campo esquerdo da política. Contra isso, de fato, não há caminho melhor que a união: dentro da esquerda, dentro dos partidos de esquerda, entre os partidos de esquerda. Temos que seguir por aí. #LulaLivre

 

[11/4] Vocês já devem ter percebido que escrevo o tempo todo. Peço perdão, hehehe… É minha forma de reagir. A que está mais ao alcance da mão. E normalmente o que escrevo assume a forma da pancada recebida: posts, poemas, artigos, petições, mensagens… Isso significa dormir mais tarde do que deveria e acordar mais cedo do que poderia, esticar o dia e acelerar e atropelar suas rotinas, porque há palavras paradas na garganta e nas falanges, doendo, ardendo, que pedem para sair. Sinto-me, às vezes, como um estranho repórter, vivendo meu tempo, com a crescente necessidade de observar, ler e escrever sobre os assuntos ao redor. Então, perdão, escrevo. Quando uma pessoa ao menos se vê contemplada, a gente se sente menos idiota de ocupar o tempo assim. Sente até que foi melhor ter entrado nessas brigas. E continua entrando. § Por que tantos protestos, manifestos, desabafos, tomadas de partido, que muitas vezes nos custam caro? Porque é preciso se mexer. Entre as diversas formas assumidas pelo antipetismo e o antilulismo, além daquelas todas à direita, podemos catalogar algumas à esquerda (que, no fundo, dão quase na mesma que as da direita). Entre elas, há formas passivas, como o silêncio indiferente, a inação inabalável, o ócio político, mas há também formas ativas, como a crítica pura, o “bem feito” da revanche, o riso da cobrança, os beliscões do ressentimento. Não raro, há um nó muito forte e complexo entre todas essas (im)posturas, redundando noutras formas eficazes de indiferença ao destino de Lula e da “esquerda lulista”. É triste. Muitas vezes reconheço que eles têm razão, até porque normalmente estão teoricamente certos (e pouco adiantaria dizer que não estão). Mas prefiro estar teoricamente errado a estar politicamente sozinho, quieto ou parado. Mesmo que seja tão fácil perceber, teoricamente, como estou errado no que, politicamente, acabei de afirmar! § Não quero o fácil. Escrevo.

gulliver

[12/4] Vi essa charge do Luiz Gê e lembrei que, na sexta-feira, lá no Sindicato, também pensei em Gulliver e ia postar uma foto do filme com Jack Black. Por alguma razão, naquele agito, não o fiz, mas vendo agora esse desenho penso em outra coisa: há corpos políticos gigantes, mas nem todos pelas mesmas razões. Lula, sem dúvida, é um gigante, como bem explicou o Alberto Pucheu num texto lindo lá no perfil dele. Lula é gigante porque incorpora milhões de brasileiros que se identificam e confundem com ele. Prender Lula é prender tudo o que ele significa da porta para fora das instituições, e é por isso que, como eu já disse, todo o esforço de quem o prendeu é para reduzi-lo, fazendo-o caber nas tantas celas do direito. Mas há um outro gigante em que penso agora: Alckmin. Seu gigantismo não é da mesma natureza do de Lula: Alckmin é gigante das instituições para dentro. Um gigante sem corpo político popular, mas com um imenso corpo político elitista, conservador e corporativo. Toda essa articulação de mídia rica, Judiciário, Ministério Público e classe média-alta/alta que luta para apequenar Lula tem em Alckmin o seu gigante. É por isso que considero tão importante quanto manter o corpo político de Lula em suas dimensões colossais, ficar de olho nos movimentos do corpo político de Alckmin para se safar da Lava Jato. Aposto que, nesse paralelo, ficarão ainda mais escancaradas as entranhas do sistema e a que ponto são capazes de chegar para salvar seu gigante, sua grande aposta para voltar de vez ao poder em Brasília. Isso já está em marcha. O STJ já protegeu Alckmin da Lava Jato ontem. Seguindo assim, com nosso gigante preso, o gigante deles deve pisar sobre nossas cabeças em breve. Quero estar errado.

Contra eles

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CONTRA ELES
[ode-ódio antifascista]

sim, eles existem
eles são eles
e são sempre os mesmos

eles riram ou dormiram indiferentes
quando souberam da execução da vereadora negra
porque era negra pobre homossexual e de esquerda
os mesmos que nunca entenderam porque nós
não aceitamos a caça aos favelados
não aceitamos a caça aos estudantes
não aceitamos a caça aos militantes

são eles que vão votar no candidato
que homenageia torturadores
discrimina mulheres ataca homossexuais
os mesmos que fazem piadas com direitos humanos
e dizem que agora tudo é “politicamente correto”

eles foram às ruas contra a mulher que era presidenta
e a chamaram de puta burra ladra bruxa vagabunda
os mesmos que não vão às ruas por nada nunca
porque temem as ruas e temem que nós estejamos nas ruas

eles batem panelas e soltam rojões para comemorar
a prisão do ex-presidente nordestino e metalúrgico
eles soltam rojões para comemorar golpes de estado
os mesmos que riram da festa no puteiro
e do cafetão que promete cerveja em troca da morte

eles adoram mandar para nossas caixas postais
suas opiniões violentas sobre todos os temas
mas querem moderação quando nós respondemos

eles nunca ligaram para a vida da maioria
dos venezuelanos dos norte-coreanos dos chineses
mas enchem a boca para falar desses países
quando é necessário atacar os adversários daqui

eles dizem que são contra a corrupção
mas não ligam quando são os seus que (se) corrompem
e jamais deixarão de votar em corruptos
quando for o melhor para eles mesmos

e são os mesmos que jamais irão às ruas xingar
quem não é negro pobre homossexual de esquerda
nordestino analfabeto puta burra ladra bruxa vagabunda
porque eles não xingam qualquer um

aliás, porque eles só xingam “qualquer um”
e qualquer um é apenas quem é negro
pobre homossexual de esquerda nordestino
analfabeto puta burra ladra bruxa vagabunda

na boca deles as palavras com que elogiamos
ou nos solidarizamos viram xingamentos
na mesma boca deles nós nunca é nós
e o eles que dizem nunca vai ao espelho

eles dizem que essa história
de nós contra eles
não leva a lugar algum
mas é mentira
eles não querem ir a lugar algum
com esses que chamamos de nós

nós sabemos quem

Na Cult: 30 anos da Constituição

《A Constituição, hoje, poderia cantar: “Meus inimigos estão no poder”, porque, se a Constituição é democrática, eles são golpistas. Se ela quer distribuir, eles querem concentrar. Se ela quer reduzir desigualdades, eles querem aprofundá-las. Se ela é laica, eles são religiosos intolerantes. Se ela quer o bem de todos, eles querem o bem de poucos – bem poucos! Mesmo quem acha que não passa de um texto como qualquer outro deve convir que a Constituição é importante demais para ser deixada nas mãos do STF, de todos os outros juízes, dos legisladores e demais políticos.》
Hoje tem texto novo na minha coluna no site da Revista CULT. A partir de agora, vou escrever lá a cada duas semanas (e quando for urgente!). Passem por lá.

A Constituição é importante demais para ser deixada na mão do STF

Lula, minha reportagem sentimental

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[quinta, 9/4/2018, 8h33] Lula deve estar tranquilo. Quem tem uma biografia tão rara e admirável, uma longa e intensa travessia dos mais baixos degraus da pobreza no Brasil até os mais cobiçados postos e reconhecimentos na política nacional e internacional, sabe que suas brigas não têm trégua: nem caído, nem preso, nem morto. Lula sabe bem disso. As caçadas que enfrenta desde os primeiros passos na política não lhe deixam ter surpresa mesmo diante de um STF esfarrapado para tentar dar conta de seu peso político e, claro, cumprir seus compromissos com o golpe. Lula segue. Até mesmo a cela é sede para fazer política, Lula sabe. Quem ergueu a cabeça tão alto certamente sabe que ela sempre esteve a prêmio. Lamentamos que ele tenha que enfrentar mais essa, mas sua travessia segue: por nós, conosco.

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[sexta, 8h15] São muitos os que querem uma fatia da fama de Lula. Babam de fome pelas migalhas que caem da mesa em que é servido o banquete dos verdadeiramente importantes. Há muitos anos é assim: bater em Lula é o atalho para os quinze minutos de fama de muita gente medíocre. “Jornalistas” que se projetam gritando horrores contra Lula, colunistas que penduram a melancia da polêmica no pescoço afirmando qualquer besteira sobre Lula, “escritores” de livros bombásticos sobre Lula, atores e atrizes cheios de medo e ódio, youtubers fanáticos por caretas e conspirações, políticos sem nada mais que ódio a oferecer e, claro, juízes que, sem Lula, arrastariam seu triste partidarismo pelos tribunais e perseguiriam ladrões de chinelo entre um recesso e outro. E tudo isso vai seguir assim: os policiais, os carcereiros, os delegados, todos que estiverem por perto de Lula vão caprichar na foto para mandar pra família, pros amigos e, quem sabe, até mesmo cacifar uma campanha a vereador. Ou uma fantasia de carnaval. Se fossem honestos, diriam, como nós, “Lula, muito obrigado”. Sem esperar tanta gratidão, Lula, gigante, vai seguir distribuindo esses farelos para a fome insaciável de quem o detesta, mas ama gritar seu nome e divulgar sua imagem. Sem problemas: tem pra todos. Sempre teve e terá.

 

[sexta, 9h58] MÃOS DADAS

Carlos Drummond de Andrade

 

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

 

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.

____________________________________________

Ao fim de uma quinta-feira puxada, que começou antes das 7h em São Bernardo e terminou depois das 22h em Guarulhos, passando por São Paulo, salas de aula, trânsito, petições, textos etc., ninguém recomendaria seguir para uma manifestação política. Mas eu fui. Precisava ir. O cansaço desaparece, o ânimo ganha força. Estar ali no meio daquelas pessoas com suas camisetas vermelhas e olhos cheios de apreensão e esperança. Sim, apreensão e esperança, e esta esperança talvez só consiga aparecer ali no meio das outras pessoas apreensivas, mas dispostas a apoiar, resistir, cantar os mesmos cantos para o futuro. Dispostas a continuarem juntas, mesmo nas horas mais difíceis. Aliás, justamente nas horas mais difíceis! Como diz o poema de Drummond, meus companheiros “estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças”. Nutrem grandes esperanças porque seguem de mãos dadas, não se afastam muito. É isso. Se puder, venha dar as mãos para os companheiros em São Bernardo. Hoje, encher aquelas ruas em volta do Sindicato é o que há de mais importante a ser feito. Por hoje e pelo amanhã. Por todos nós.

socialismo

[sexta, 12h45] Na luta por Lula hoje lutamos por bem mais. Lutamos pela possibilidade de lutar, de continuar lutando, que vai além de Lula e é fundamental para todos, para bem mais do que todas as pessoas que estão aqui em São Bernardo apoiando Lula. Não custa lembrar: «[…] se tal é a tendência das coisas neste sistema, quer isto dizer que a classe operária deva renunciar a defender-se contra os abusos do capital e abandonar seus esforços para aproveitar todas as possibilidades que se lhe ofereçam de melhorar em parte a sua situação? Se o fizesse, ver-se-ia degradada a uma massa informe de homens famintos e arrasados, sem probabilidade de salvação. […] Se em seus conflitos diários com o capital cedessem covardemente ficariam os operários, por certo, desclassificados para empreender outros movimentos de maior envergadura. […] Ao mesmo tempo, e ainda abstraindo totalmente a escravização geral que o sistema do salariado implica, a classe operária não deve exagerar a seus próprios olhos o resultado final destas lutas diárias. Não deve esquecer-se de que luta contra os efeitos, mas não contra as causas desses efeitos; que logra conter o movimento descendente, mas não fazê-lo mudar de direção; que aplica paliativos, mas não cura a enfermidade. Não deve, portanto, deixar-se absorver exclusivamente por essas inevitáveis lutas de guerrilhas […]» MARX, “Salário, preço e lucro” (1865)

lula

[sábado, 5h52] SER LULA É CRIME. Você tem certeza que está diante de uma prisão política quando alguém é processado e preso não por causa de algo que tenha feito (na esfera policial), mas principalmente para que não venha a fazer algo (na esfera política). Quando a prisão apenas finge se referir a fatos passados (crimes), mas na verdade se destina a evitar fatos futuros (eleição). É a exata situação de Lula: toda a articulação excepcional para condená-lo sai à rua/mídia maquiada de “justiça”, mas, descaradamente, é uma medida para interferir na disputa eleitoral. Só não vê quem não quer.

lulão

[sábado, 19h20] ESTA CELA

 

o país é uma cela

com infinitas celas dentro

e dentro de cada um de nós

há milhares de celas

 

quando a noite é mais triste

nos abraçamos e gritamos

juntos o que queremos

da vida que vem pela frente

 

por um instante no abraço

ouvimos se afastarem os passos

daqueles que vêm toda madrugada

colocar mais uma grade

entre nós e nossos sonhos

 

seus pés são frios e fogem

não temos mais porque temer

 

mal acabamos de saber

da nossa própria prisão

e estamos maiores

e mais livres do que nunca

 

[domingo, 11h29] Lula é foda. Enquanto todos seus adversários, inimigos e a turma do “eu detesto o Lula” acharam que sua prisão seria o ato final da história que ele protagoniza há cinco décadas, quem olhou para o Sindicato dos Metalúrgicos desde quinta-feira tem certeza que tudo ali era o ato inicial de uma outra história. O ato inicial de uma história a ser construída, mas que começa com esse abraço em Lula, com essa luta por Lula livre, que bem sabemos que é uma luta pela nossa liberdade. Ninguém mais tem dúvida de que, ao lado do objetivo de tirar Lula das eleições, há outro ainda mais terrivelmente antidemocrático: deixar nas mãos da elite medíocre de sempre a definição dos rumos do país. Na ótica dos antilulistas, o país não pode ter lideranças populares, não pode ter imprensa verdadeiramente livre, não pode ter pensamento crítico nas salas de aula, não pode ter movimentos sociais, não pode ter lutas por direitos fora dos tribunais, não pode ter partidos de esquerda. Na ótica deles, ninguém pode vestir vermelho, afirmar-se de esquerda, defender o socialismo. Na boca deles, “pobre”, “analfabeto”, “nordestino”, “preto”, “puta” são xingamentos. É por isso que não basta, para eles, prender Lula; precisam também criminalizar sua defesa, criminalizar seus apoiadores, criminalizar qualquer palavra de apoio a Lula e a suas lutas, que são nossas. Mas, assim como o Brasil não cabe nos seus esquemas, Lula não cabe em suas gavetas. Era evidente que prenderiam Lula, porque todo o espetáculo dos últimos anos precisava entregar sua atração principal. Mas em Curitiba, na Globo, no STF já devem ter percebido o óbvio: prender Lula foi possível, mas mantê-lo preso é um problema imenso. É e tem que ser. Porque Lula vai ser lembrado todos os dias daqui em diante, não apenas em manifestações em todo o país, mas também por lideranças políticas, religiosas, artísticas etc. de todo o mundo. Imaginem aí uma lista de visitas para Lula nos próximos dias e nela estarão nomes grandes demais para qualquer carceragem. Mesmo enquanto estiver preso, a voz e a imagem de Lula estarão levando suas ideias pelo país, pelo mundo. Já há alguns anos que a direita tem tentado impor um toque de recolher para nossas ideias. Temos que ouvir, no ambiente de trabalho ou no encontro com os amigos, as piadas mais estúpidas sobre os símbolos da esquerda, mas reagir a elas era sempre visto como uma radicalização de nossa parte, como uma outra prova de que os “esquerdistas” são intolerantes. Se a prisão de Lula for o último ato de alguma história, que seja da história do nosso silêncio cordial, do constrangimento que lançaram sobre nós. Para além disso, que tudo o mais seja começo. Que nossos gritos – de dor, de luta, de apoio – sejam ouvidos e respeitados. Guardem seus rojões que o jogo ainda não terminou.

heineken

Domingo [15h48] Ouvi dizer que comunistas estão espalhando por aí uma cerveja que tem uma estrela vermelha e que isso tem a ver com a alegria do Lula na final do Paulistão.

 

Domingo [18h18] É pra você, Lula!

lula sócrates

Domingo [20h30] LUÍS INÁCIO NA CELA

Manuel Bandeira [adaptação]

 

Luís Inácio preto

Luís Inácio bom

Luís Inácio sempre de bom humor

 

Imagino Luís Inácio entrando na cela:

— Licença, meu branco!

E o carcereiro bonachão:

— Entra, Luís Inácio. Você não precisa pedir licença.

 

Segunda [7h58] Primeira segunda-feira da era #lulalivre. Tempo de manter a calma, a concentração e a atuação perseverante. Tempo de reflexão e de reforçar posições. Tempo de luta. Os últimos dias foram muito intensos, saímos cansados, mas melhor orientados sobre os caminhos a seguir. As palavras e imagens que circularam aqui (mesmo quando eram mais provocativas…) cumpriram a função de unir quem estava sofrendo em todos os cantos e transformar a angústia em energia para a luta. E cumpriram também a função de demarcar o território: desfazer amizades com quem não apenas comemora a prisão de Lula, mas quer tripudiar sobre quem pensa diferente, espalhando ofensas que vão bem além de Lula. E, de outro lado, fazendo amizades novas no meio da luta. É disso que mais precisamos agora: afinar, dentro do nosso campo, as ideias que vão nos manter unidos e possibilitar que saiamos dessa tempestade mais fortes. Não é hora de gastar energia respondendo a provocações, piadas, mentiras. É hora de impor nossas pautas. Manter a atenção na liberdade de Lula, mas não esquecer que ela é o primeiro passo de uma caminhada longa. Bora lá. Boa semana a todos.

Na Cult: “Império da mentira”

Diante desse “império da mentira”, em que os requintes do convencimento são dos mais criativos e inescrupulosos, nossos cuidados individuais com os conteúdos que consumimos, produzimos e divulgamos têm que ser cada vez maiores. Se um dos grupos políticos mais alardeados e influentes dos últimos anos está disposto a atacar com mentiras um cadáver que sequer havia esfriado; se uma empresa que é símbolo das inovações da nossa relação com a produção cinematográfica atual se empenha assim em ecoar o noticiário político mais enviesado, não podemos esperar nada muito melhor dos pretensos – e prováveis – protagonistas da próxima eleição.”

Império da mentira, uma reflexão sobre a crise política e ‘O mecanismo’

Lula é o (único) alvo?

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Lula paga um preço absurdo por ter sido o presidente mais popular da nossa história. Popular: por ter alta popularidade, claro, mas também por ter realizado diversas políticas sociais que, de fato, chegaram até o povo nos diversos cantos do país.
É atacado pela imprensa de modo sistemático e sem quaisquer pudores. É perseguido pelo Ministério Público e pelo Judiciário de modo absolutamente descarado. É o principal alvo das campanhas de difamação que lotam as redes sociais (e também a Netflix!). O segundo mandato de Dilma, que se devia em grande parte à popularidade de Lula, foi bloqueado por um golpe que envolveu Legislativo, Judiciário, grande imprensa e empresariado.
A estratégia é clara e suas razões são evidentes: já que não se pode ganhar de Lula nas urnas, é preciso tirá-lo do páreo. Mas a escala dos esforços tem subido desde então: depois de esgotar todas as formas de desmoralização, deram início a uma verdadeira caçada judicial que deve culminar com sua prisão no ano eleitoral.
No entanto, não há surpresa ao constatar que resulta dessa estratégia um grau ainda mais alto de violência contra Lula e sua militância. Xingamentos, faixas e bonecos infláveis converteram-se em chicotadas, pedradas e, hoje, tiros. Lamentavelmente, é um fruto esperado de tanto ódio.
E é inevitável relacionar essa violência com aquela que tem atingido diversas lideranças de esquerda e militantes dos direitos humanos pelo país, também para perceber uma crescente.
Enfim, se isso aconteceu contra o mais importante ator da curta novela da nossa democracia, podemos até não saber ou ligar para o que vai acontecer com ele, mas temos que ser muito ingênuos para não ver que as vítimas dos próximos capítulos seremos todos nós.

Lafetá e Graciliano

O prof. João Luiz Lafetá (1946-1996) morreu bem novo. Não o conheci (alguém aqui deve ter tido aulas com ele!), mas sempre gostei bastante de todos os seus textos. Ontem, por acaso, encontrei esse vídeo longo em que ele fala sobre Graciliano Ramos. Uma coisa bonita demais. Antonio Candido, que foi seu orientador, disse: “João Luiz Lafetá era discreto, mas participante, reservado e cordial, cumpridor estrito do dever, capaz de concentrar-se a fundo nas tarefas, procurando sempre produzir o melhor. Como professor, era incomparável, desde a presença serena e magnética até a voz admiravelmente impostada, que lhe permitia falar em tom normal e ser ouvido no fundo dos anfiteatros; sem contar o essencial, isto é, a capacidade de expor a matéria de modo perfeito e seguro, depois de ter preparado a aula com aplicação quase angustiada, como quem duvida de si e por isso acha-se moralmente obrigado a fornecer o máximo. E de fato era o máximo que fornecia sempre – na aula, na palestra, no ensaio, no livro –, manifestando em cada uma dessas atividades a sua grande e sólida inteligência”. Pois é. Acho que Antonio Candido tinha essa aula em mente.

Paulinho e a madeira

paulinho

“Mexer com madeira ajuda a criar uma certa ordem interior”. Pego, por acaso, a meio caminho, o documentário sobre Paulinho da Viola. Meu tempo é hoje. Já vi dezenas de vezes. Mas, a cada vez, Paulinho salva o dia. Salva a noite. Penso no peso que o passado joga sobre todas as noites. Penso no peso que o futuro joga sobre todos os dias. Paulinho vem e instaura outro tempo: um outro hoje. Um vão. Paulinho vem com seu elogio da madeira. Do trabalho com a madeira. A paixão por tirar música da madeira e a paixão por tirar outras coisas úteis da madeira. Outras: porque a música ali se faz como um polimento da madeira, como um aperfeiçoamento da e pela madeira. O samba como uma das ferramentas a serviço da madeira. Dar vida ao samba na madeira. Dar vida à madeira no samba. E para além dele. Ajustar a vida à madeira. Ajustar-se no ajuste da madeira. E no ajuste das cordas à madeira. Fazer notas da madeira, deslizar pelos nós da madeira, encontrar-nos na madeira. Não é só cuidar da madeira porque violão. Não só cuidar da madeira porque útil: gaveta, porta, martelo, taco, samba. Cuidar-se no cuidar de algo, criar seu veio no tempo: lição de mestre.

Muita treta pra Vinicius de Moraes

racionais

Não lembro onde e quando ouvi os Racionais MC´s pela primeira vez, mas certamente foi em meados da década de 1990, porque me lembro de saber as letras de “Fim de semana no parque” e “Homem na estrada”, ambas do álbum Raio X do Brasil (1993), quando eles lançaram Sobrevivendo no Inferno (1997) e passei a cantar de cor “Capítulo 4, Versículo 3” e “Diário de um detento”, entre outras. E foi assim de lá pra cá: juntando na memória as letras imensas, mas também toda a sonoridade dos discos e o eco que há entre todas as músicas, do primeiro ao mais recente trabalho.

Vocês sabem: a expressão “de cor” e o verbo “decorar”, que usamos para falar que algo está guardado na memória, significam originalmente “de coração”, ou seja, algo que está guardado com nossos afetos mais profundos. E os Racionais, para mim, são exatamente isso: desde as primeiras letras que decorei, a paixão pelos Racionais influenciou todos os meus outros interesses. Aliás, a segunda metade dos anos 1990 era a época em que eu estava estudando Direito e, ao mesmo tempo, mergulhando cada vez mais na leitura de poesia, de sua teoria e crítica, e também buscando meus próprios caminhos na escrita. A trilha sonora de tudo isso para mim sempre foi marcada pelos Racionais, pela batida forte e a voz violenta de Mano Brown. Cada estudo sobre as formalidades do Direito se deparava com a radiografia do país que os “quatro pretos mais perigosos de São Paulo” cantavam. Cada leitura das minúcias da poesia se contaminava pela riqueza bruta que aqueles rapazes mal-encarados extraíam de tudo: batidas, rajadas, samplers, palavrões, gírias e o português talhado nas ruas.

Esta não é a primeira vez que tento explicar o que sinto quando ouço os discos dos Racionais. E nunca é fácil. Nem com os amigos tomados pela mesma paixão, porque a conversa sobre os Racionais migra logo para a cantoria, os olhos brilham, achamos que tudo que precisa ser dito já está dito nas letras e a vida segue. Em outras situações, é ainda mais difícil. A mais recente foi no caixa do supermercado. Enquanto a moça passava minhas compras, contou para seu amigo, do caixa ao lado, que ia a um festival de rap no fim de semana e que até os Racionais iam. O cara falou na lata: “não gosto mais dos Racionais, viraram modinha; o último disco é uma porcaria”. Fiquei perplexo e não tive coragem de entrar na conversa. Voltei pra casa arrastando os chinelos e me perguntando como seria se eu, tiozão branquelo com cara de nerd, tentasse convencer aqueles jovens de que Cores & Valores (2014) é tão ou mais incrível quanto os demais trabalhos do grupo e começasse ali a recitar, por exemplo, “Quanto vale o show” e o mercado parasse pra ouvir coisas assim: “83 era legal, sétima série, eu tinha 13 e pá e tal/ Tudo era novo em um tempo brutal/ O auge era o Natal, beijava a boca das minas/ Nas favelas de cima tinha um som e um clima bom/ O kit era o Faroait, o quente era o Patchouli/ O pica era o Djavan, o hit era o Billie Jean/ Do rock ao black as mais top/ Nos dias de mais sorte ouvia no Soul Pop/ Moleque magro e fraco invisível na esquina/ Planejava a chacina na minha mente doente/ Sem pai, nem parente nem… sozinho entre as feras/ Os malandro que era, na miséria fizeram mal/ Meu primo resolve ter revólver/ Em volta outras revoltas, envolve-se fácil/ Era guerra com a favela de baixo/ Sem livro nem lápis e o Brasil em colapso”. E convencê-los de que não há mais ninguém que passeie assim entre nossos delírios de consumo e nossas carências profundas, e de que não é todo dia que aparece alguém que tira tanta poesia dessa vida dura e ressequida a que a maior parcela dos brasileiros é condenada. E de que não pode chamar de porcaria a grande ópera do nosso tempo, porque Cores & Valores, em menos de trinta minutos divididos em quinze faixas, é uma música só, uma porrada só, um grande baile em que as agonias do nosso tempo são colocadas na mesa, estiradas no chão da Praça da Sé e, depois, tiradas pra dançar, já acenando para as outras praias que os discos solos de Edi Rock e Mano Brown vão multiplicar. Mas fiquei quieto, engolindo a seco as sílabas todas.

Assisti uma vez apenas a um show dos Racionais. Em Santo André, num parque a céu aberto. Um amigo estava trabalhando na organização do show e eu fiquei em cima do palco, num canto, vendo de frente aquela multidão cantando com tanta paixão quanto Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock todas as letras dos Racionais, entregues ao ritmo que KL Jay cismava de dar aos nossos corpos. Milhares de corações entregues ao pé do palco, vidrados naquilo tudo, num misto de culto e protesto em que se reverencia a força daquelas palavras para desocultar verdades escondidas nos fundões da cidade e, ao mesmo tempo, se apresenta a possibilidade de uma força coletiva que em todas as outras esferas é sabotada e desestimulada.

Sonho há tempos em fazer um documentário sobre “Fim de semana no parque”. Andar pelas periferias do Brasil fazendo uma mesma pergunta: onde você estava quando ouviu “Fim de semana no parque”? Acho que é o divisor de águas da coisa toda. Numa entrevista do Mano Brown li algo que me deu ainda mais certeza dessa chave. Perguntaram a ele quando percebeu que os Racionais tinham estourado, quando ele viu que se tornaram grandes. E Brown disse que foi num dia em que andava pelas quebradas de sempre e ouviu vários barracos tocando “Fim de semana no parque”. Entendo perfeitamente. Imagino a porrada que foi, para quem vivia em situações parecidas com a dos quase adolescentes Pedro Paulo, Edivaldo, Kleber Geraldo e Paulo Eduardo, ouvir algo assim: “No último natal Papai Noel escondeu um brinquedo/ Prateado, brilhava no meio do mato/ Um menininho de dez anos achou o presente/ Era de ferro com doze balas no pente/ E o fim de ano foi melhor pra muita gente”. Acho que é a chance de contar uma história do Brasil sem as distorções, as ocultações, os falsos heroísmos e glamoures que a história oficial costuma destacar. No seu conjunto, os discos dos Racionais contam a história de milhares de brasileiros que nunca haviam visto sua realidade gravada com nitidez em estudos e obras de arte. E é por isso que incomodam tanto, inclusive a seus eventuais personagens.

Há um verso de “Da ponte pra cá”, última música do segundo cd de Nada como um dia após o outro dia (2002), que me tirou especialmente o sono: “muita treta pra Vinicius de Moraes”. Sempre achei que Brown estava dando um recado para poetinhas como eu, cheios de lirismo e bossa nova. Depois de passar por “Negro Drama”, “Jesus chorou”, as duas partes de “Vida Loka” (1 e 2), Mano Brown termina o álbum com uma letra que considero ser das mais ricas e complexas de toda a obra dos Racionais. “Da ponte pra cá” é uma espécie de passeio pela vida que se leva do outro lado da ponte em São Paulo, marcando assim uma distinção geográfica, política, econômica, cultural etc. entre centro/bairros nobres e periferia da cidade em que “Deus é uma nota de 100”, como diz em “Vida Loka, pt. 2”. O refrão marcando que “o mundo é diferente da ponte pra cá” em meio a uma floresta de referências de consumo que identificam o mundo do lado rico da ponte – Nike, Tag Heuer, Honda, TAM, JB, triplex, ouro, diamante, relógio e corrente – e contrasta com a imagem cruel da vida sem esperança que a cidade joga para o outro lado dos seus rios podres. E Brown sai sob a neblina que cobre a Estrada de Itapecerica com a câmera ligada e nos leva para dentro do seu universo espinhoso: os manos lavando o ódio no sereno, cada um na sua solidão, a maconha que dilui a raiva e solta na atmosfera. Brown crava: “cada favelado é um universo em crise”. E vai dando uma pancada em cima da outra: “eu nunca tive bicicleta e videogame/ agora eu quero o mundo igual Cidadão Kane”. Depois de enumerar os nomes das vilas e favelas em que circula (“Jardim Rosana, Três Estrela e Imbé/ Santa Tereza, Valo Velho e Dom José/ Parque, Chácara, Lídia Vaz, Fundão”), Brown dá a pista sobre sua poética como quem dá uma martelada nas nossas mãos limpinhas: a poesia desse lugar do mundo é “muita treta pra Vinicius de Moraes”. Não há bossa nova que dê conta do Capão Redondo. A garota do Fundão não é a de Ipanema: ela é “a mãe solteira de um promissor vagabundo” (“Negro Drama”) e merece uma poesia à sua altura. E eu só consigo pensar que poucos poetas do meu tempo sabem tão bem a que querem que seus versos sirvam.

 

Depoimento publicado em revista Grampo-Canoa, n. 4, janeiro de 2018, pp. 29-33